“Expulsar pessoas sem documentos desestabilizaria a sociedade”

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02 Março 2017

Se de repente começássemos a patrulhar os bairros em busca de pessoas que não têm documentos, iríamos testemunhar uma desestabilização do tecido social”, comenta o Cardeal Blase Cupich em entrevista ao Vatican Insider sobre as primeiras medidas do presidente recém-eleito Donald Trump. O religioso explica a atitude dos bispos e ressalta o fato de que ele não acredita na utilidade dos protestos que vêm ocorrendo no país, os quais, pela primeira vez, questionam a legitimidade do presidente. O cardeal propõe que aguardemos antes de fazer juízos sobre os membro de gabinete e as ações tomadas pelo novo governo.

Sobre o debate interno da Igreja concernente à exortação apostólica Amoris Laetitia, Cupich diz não ver nenhuma confusão. Ele dá as boas-vindas ao fato de que se levantaram dúvidas, uma vez que elas nos permitem entender mais aprofundadamente a mensagem papal.

A entrevista é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 24-02-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis a entrevista.

Qual a sua opinião sobre as primeiras semanas de Trump no poder?

Penso que todo novo governo precisa primeiro se aclimatar. E isso é particularmente verdadeiro para Donald Trump: esta é a primeira vez que ele está à frente de um cargo político.

Então, acho que estamos a recém vendo um esforço no sentido de se acostumar com o cargo. Nós, os bispos dos Estados Unidos, decidimos falar de política, não de pessoas. Pensamos ser melhor ficar bem claro que precisamos ter políticas que protejam a dignidade humana e que integrem as pessoas à vida econômica do país. Portanto vamos continuar falando sobre política com uma única voz.

Tivemos uma resposta unificada dos bispos sobre as decisões concernentes à imigração...

Nos Estados Unidos, temos algumas pessoas vivendo sem documentos. A solução não é perseguir aqueles e aquelas que estão vivendo aqui há vários anos, especialmente os mais jovens. Precisamos consertar um sistema quebrado e, até aí, vamos ter políticas que poderão muito facilmente ser injustas a várias pessoas que moram neste país. Estive na presença de vários alunos aptos a estudar nos Estados Unidos, muito embora não possuam documentos, pois se enquadram dentro de um programa especial do governo anterior. Eles estão com medo de que algo venha a mudar nesse sentido.

O governo Obama deportou muitos imigrantes também.

Sim. No entanto, sabemos que, embora o governo Obama tenha feito muitas deportações, eles focaram pessoas que tinham acusações criminais. Se de repente começamos a vasculhar os bairros onde moram pessoas sem documentos e que vivem aqui há vários anos, separando as famílias, afastando o pai que é muitas vezes o provedor do sustento dos filhos, iremos ter muitos problemas sociais... Isso desestabilizaria o tecido social. Iremos ver muitos jovens desamparados por não terem os próprios meios para se manter. Muitas dessas pessoas são cidadãs, elas nasceram aqui. Precisamos de uma solução sistêmica. Não uma solução fragmentada.

O senhor está feliz com a decisão de Trump em reduzir o financiamento dos programas internacionais que trabalham com o aborto?

Trump reintroduziu a Política da Cidade do México, norma anterior ao governo Obama que a era Bush manteve. Trump está apenas voltando ao que era antes. Sempre fomos a favor de o Estado não usar o dinheiro do contribuinte para financiar a prática do aborto. É por isso, por exemplo, que somos a favor da Emenda de Hyde, e onde eu moro houve recentemente uma iniciativa para aprovar uma lei que faria com que o dinheiro dos impostos pagasse a realização de abortos. Nós nos opusemos. Então a conferência dos bispos sempre teve essa postura, de que o dinheiro do contribuinte não deve ser usada para este fim, que as pessoas não devem ser forçadas a gastar o seu imposto para pagar pelo aborto.

O que acha dos protestos que estão ocorrendo no país contra o presidente?

É algo inédito. Penso que essa situação reflete a divisão presente durante a campanha [eleitoral] e que continua ainda hoje. A minha posição é a de que tivemos um processo eleitoral pelo qual elegemos um presidente, e estas são as pessoas escolhidas que temos no poder agora, pessoas que têm a responsabilidade de levar a cabo os seus deveres.

Penso que se pode, com certeza, protestar por políticas. Mas protestar dizendo que não aceitamos este presidente, que foi eleito dentro da lei, não vai levar a lugar nenhum. É protestar por protestar simplesmente. Se um protesto é feito pensando mudar o que temos, então está ótimo. Mas não vejo por que protestar contra a eleição de alguém que foi eleito pelas regras do país, para dizer que ele não é o nosso presidente. Não vejo isso como uma estratégia de muito sucesso.

O que acha da nova equipe de governo?

Neste momento, vejo que o presidente escolheu várias pessoas para o seu gabinete, muitos dos quais são pessoas amplamente respeitadas. Vejo também que há preocupações levantadas por alguns grupos deste país sobre algumas dessas lideranças. Mas sempre foi assim. Inclusive quando Obama chegou ao poder, as pessoas não gostaram de alguns dos membros de seu gabinete.
Então, acho que devemos aguardar e ver. Como eles farão o trabalho é, neste momento, algo que todo mundo precisa mensurar e julgar. Mas não creio que possamos falar com clareza sobre como o processo decisório é feito dentro deste governo. É muito cedo ainda.

Como enxerga as relações entre o governo Trump e a Santa Sé?

Acho que a Santa Sé vai esperar para ver quem será o embaixador para a Santa Sé. Precisamos aguardar e ver quem irá ser nomeado.

Há um ano, houve tensões entre Trump e o Papa. Como o senhor vê essa relação no futuro?

O Santo Padre sempre será respeitoso com as autoridades de qualquer Estado, e ele quer buscar uma maneira em que poderá dar continuidade ao ministério da Igreja, promovendo a dignidade humana e respeitando a vida humana no mundo. É essa a pauta do papa. A Santa Sé não é uma potência política, nem uma potência militar, mas deseja trazer a luz da fé à questão da dignidade humana. Como disse Bento XVI, nós não impomos, nós propomos.

Há a possibilidade de um trabalho conjunto? Vê uma convergência possível?

Espero que sim. Existem questões importantes que não apenas os países enfrentam, mas que o mundo enfrenta. O Santo Padre publicou uma marcante encíclica, Laudato Si’, sobre a casa comum, sobre o nosso meio ambiente. Penso que devemos buscar pô-la em prática, especialmente nos Estados Unidos, que têm uma pegada ecológica no mundo enorme.

Em vários sentidos somos os responsáveis pela degradação da camada de ozônio, pela degradação florestal. Como líder mundial, temos uma responsabilidade importante. Volto ao que o Santo Padre disse ao Congresso deste país, quando nos desafiou a aceitar o papel de liderança no mundo, a não nos isolar, mas sim ver que temos uma responsabilidade notável dada a nós por Deus. No sentido das bênçãos que temos, que temos de fazer a diferença, melhorando a situação do mundo. Acho que é nesse sentido que o Santo Padre continuará nos cobrando.

Falemos um pouco sobre a situação interna da Igreja. O senhor vê alguma confusão após a publicação das “dubia” sobre Amoris Laetitia feita pelos quatro cardeais?

A experiência que tenho diz que não há confusão. Acho que existem pessoas questionando várias coisas, acho que o livrinho do Cardeal Coccopalmerio, lançado recentemente, é bastante útil. Ele traz distinções importantes. Mas também quero dizer é nos momentos de controvérsia que a Igreja chega a um melhor entendimento de seus ensinamentos. Vejamos o que temos: temos Amoris Laetitia, temos dúvidas levantadas sobre ela, mas agora também sabemos mais sobre os ensinamentos católicos relativos à consciência individual, porque redescobrimos e recuperamos alguns ensinamentos.

A compreensão da pedagogia divina é muito útil para a compreensão de como Deus trabalha na vida das outras pessoas. Temos um artigo maravilhoso escrito por Stephen Walfard, publicano no sítio Vaticano Insider, sobre o ofício magisterial, o ofício petrino, e sobre se o papa pode errar nestas várias coisas. É um registro muito útil. Temos também o desenvolvimento da doutrina, bem explicado por Rocco Buttiglione. É um artigo muito bom também.

Portanto temos várias pessoas que vieram a público e ajudaram a entender o que o papa está dizendo, e isso foi possível porque havia dúvidas, questionamentos.

Então, vejo isso tudo como parte do modo como a Igreja se compreende nos momentos de controvérsia. Não fico zangado com o que vem acontecendo. Penso que as respostas de todas essas pessoas foram boas. Acho que Amoris Laetitia é bastante clara e que é um documento magisterial. Estou confiante em que os meus irmãos bispos e cardeais americanos acreditam firmemente se tratar de um ensinamento magisterial. Mas é importante pensar, reconhecer que agora há uma maior atenção a Amoris Laetitia do que haveria caso não tivesse polêmica. Mais pessoas estão lendo este documento agora.

O que acha da “correção formal” do papa da qual apenas um dos quatro cardeais das “dubia”, o Cardeal Burke, fala?

Desconheço o que ele pretende com isso, mas com certeza acho que não é da competência de ninguém, nem de algum cardeal, dizer que o papa está em erro e que precisa ser corrigido. Acho que o artigo de Walford – chamado “The Magisterium of Pope Francis: His Predecessors Come to His Defence” [O magistério do Papa Francisco: os seus antecessores vêm em sua defesa] – põe um fim na questão, mostrando que esta não é a maneira certa de agir. O Santo Padre possui um Ministério especial e isso não podemos ignorar. Então não cabe a um indivíduo vir a público e dizer algo assim. E, de novo, vale dizer que o número de pessoas que se colocam na posição de dizer que este documento papal não está claro, ou que estão apresentando objeções a ele, é um grupo pequeno. Não é um grupo tão grande quanto o barulho que faz.

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