"Entremos em diálogo com qualquer um que se mostre aberto." Entrevista com Walter Kasper

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26 Novembro 2016

No congresso “Católicos e protestantes a 500 anos da Reforma”, organizado em Trento (16 a 18 de novembro) pelo Escritório Nacional para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso da Conferência Episcopal Italiana (CEI), em colaboração com a Federação das Igrejas Evangélicas na Itália (FCEI), também estava presente o cardeal Walter Kasper, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos de 2001 a 2010.

A reportagem é de Luca Baratto, publicada pela agência Notizie Evangeliche (NEV), 23-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Dirigimos a Kasper algumas perguntas sobre o diálogo entre as Igrejas protestantes e a Igreja Católica Romana, à luz do encontro de Lund e do próprio congresso de Trento.

Eis a entrevista.

As manifestações pelos 500 anos da Reforma protestante podiam ser um momento de enrijecimento confessional, no entanto, com a participação do Papa Francisco no dia 31 de outubro passado em Lund (Suécia), parecem ter sido abertas novas perspectivas ecumênicas. Concorda?

Sim, foram abertas novas perspectivas. A visita do Papa Francisco a Lund e o seu encontro com os expoentes da Federação Luterana Mundial é emblemático de uma situação que mudou totalmente. Passamos da cacofonia polêmica que acompanhou por muito tempo as nossas relações recíprocas não digo a uma plena sintonia, mas, certamente, a uma aproximação enorme. Quem podia pensar, há 20 ou 30 anos, que um papa participaria da cerimônia de abertura dos 500 anos da Reforma protestante! A mensagem é que, hoje, no ecumenismo, não podemos voltar atrás, mas só seguir em frente. Devemos olhar com mais confiança para as coisas que nos unem, que também são os fundamentos da fé em Deus, um dado nada descontado nas sociedades em que vivemos hoje. A partir desses fundamentos comuns, podemos abordar as diferenças que ainda existem. No entanto, muitas aproximações importantes já ocorreram.

Qual é a sua avaliação sobre o que foi dito em Lund? O que é mais importante repercutir daquele encontro?

Eu acho que, mais do que as palavras, o importante é a nova atmosfera que se criou. O Papa Francisco tem um carisma particular para as relações humanas, e, com base na minha experiência, em todos os diálogos, progride-se apenas se se consegue instaurar uma atmosfera de amizade e de confiança. Foi isso o que o papa fez: disse que somos irmãos e irmãs, que podemos avançar juntos. E mais, eu gostaria de dizer que o diálogo não diz respeito apenas aos especialistas, mas todo cristão é chamado ao diálogo, a trabalhar, rezar e cantar, enfrentar os grandes desafios de hoje juntos. Isso cria um impulso à unidade ainda mais forte: sigamos juntos, cooperemos, demos testemunho em um mundo que precisa da misericórdia de Deus.

Nos últimos anos, em âmbito evangélico, havia a impressão de que a Igreja Católica Romana privilegiava o diálogo com as Igrejas ortodoxas em vez das Igrejas protestantes. Os últimos fatos parecem marcar uma mudança. A impressão anterior estava errada ou algum elemento novo interveio?

Ambos os diálogos são importantes e ambos devem ser seguidos. Eu não diria que a Igreja Católica privilegie o diálogo com os ortodoxos. Pode-se dizer que os diálogos com a ortodoxia e com o protestantismo são diferentes, que também podem se completar um ao outro. Ninguém tem a precedência. Em vez disso, entramos em diálogo com qualquer um que se mostre aberto e interessado nele. Além disso, estou convencido de que o protestantismo também pode se beneficiar com o encontro com as Igrejas ortodoxas, com a sua liturgia e com a sua fé. O diálogo com os ortodoxos também é importante para as Igrejas da Reforma.

O senhor escreveu um livro intitulado “Recolher os frutos”. Um texto que dá conta dos inúmeros resultados alcançados pelo diálogo ecumênico desde o Vaticano II. No entanto, após a colheita, o campo fica vazio. Hoje, há frutos a serem colhidos ou é hora de uma nova semeadura?

Sempre é preciso paciência: semeia-se no outono para colher os frutos no ano seguinte. Hoje, temos novos desafios a partir daqueles que nos são propostos pelos casais de matrimônios mistos, entre cristãos de confissões diferentes, sobre os quais se falou amplamente no congresso de Trento, especialmente em relação à partilha da mesa eucarística, neste momento ainda impossível. Novas sementes devem ser lançadas. Contudo, justamente o encontro de Lund demonstra que há frutos que já cresceram nesse meio tempo. Cresceu o coração do ecumenismo que é a oração. Ecumenismo significa participar na oração do Senhor de João 17: ut unum sint, que todos sejam um. Sem a oração e sem a graça do Espírito, não podemos fazer nada na Igreja. O ecumenismo espiritual me parece o mais importante. Se rezamos juntos, podemos compreender melhor que as nossas divisões não chegam até as raízes, mas param mais na superfície. Eu acredito que, em cada assembleia litúrgica, sempre deveria haver um momento de oração pelos outros cristãos e pela unidade, uma unidade de diversidades reconciliadas.

As apresentações feitas no congresso de Trento evidenciaram posições éticas muito diferentes entre católicos e protestantes históricos sobre questões como a homossexualidade ou o início e o fim da vida. A ética será ocasião de novas excomunhões?

Existem diversidades de orientação até mesmo relevantes, mas que não se delineiam exclusivamente ao longo das fronteiras denominacionais, mas também são encontradas dentro das próprias Igrejas, transversalmente. Contrapor Igrejas protestantes e Igreja Católica me parece ser uma simplificação. Entrando um pouco mais no mérito, eu acredito que as questões éticas propostas pelas Igrejas protestantes insistem em problemas típicos do mundo ocidental. No entanto, o mundo é mais amplo, há a cultura africana, a asiática. Os cristãos da África e da Ásia, por um lado, têm uma lista de prioridades diferente; por outro, têm problemas com as novas posições éticas propostas pelo Ocidente. As questões devem ser discutidas. No entanto, acredito que a Igreja Católica faz bem ao insistir na tradição, entendida não tanto como um conjunto de enunciados doutrinais ou teóricos, mas como a vida vivida no passado pela Igreja universal que não é apenas ocidental.

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