Lund, a "comemoração conjunta" e as dificuldades de um "não" definitivo

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05 Novembro 2016

Entrará para a história a "Comemoração Conjunta Católico-Luterana da Reforma", celebrada na Suécia, por ocasião do 499º aniversário do gesto de Martinho Lutero – a publicação, no dia 31 de outubro de 1517, das suas 95 teses contra as indulgências –, porque estavam presentes nela o Papa Francisco e uma delegação muito ampla da Federação Luterana Mundial (FLM); porque o pontífice romano não era um simples convidado de uma iniciativa alheia, mas coanfitrião do evento; porque as palavras ditas não eram circunstanciais, mas densas de perspectivas; e porque, enfim, junto com o grande passo dado, que coroa um diálogo iniciado logo depois do Concílio Vaticano II, emergiram com grande nitidez os grandes nós que restam a serem desfeitos para se chegar à plena reconciliação e, portanto, à concelebração da Eucaristia.

A reportagem é de Luigi Sandri, publicada no sítio Settimana News, 03-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O dia 31 de outubro foi um dia nublado, e um vento gélido chicoteava os rostos, quando, tendo desembarcado em Malmö (a terceira maior cidade da Suécia, depois de Estocolmo e Gotemburgo), Francisco chegou à vizinha Lund, antigo centro do cristianismo na Escandinávia e cidade onde, em 1947, foi criada a FLM.

Os sinos da catedral medieval dobravam com toda a força, enquanto, no início da tarde, se reuniram lá todos os representantes da Federação (liderados pelo presidente, o palestino Munib Younan, bispo de Jerusalém, e pelo secretário, o chileno Martin Junge), os prelados vaticanos (incluindo o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado, e Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos) e, por fim, o papa, que, no templo, depois, obsequiou a família real da Suécia, Carl XVI Gustav e a Rainha Silvia, e a senhora Antje Jackelén, arcebispa de Uppsala e primaz da Igreja da Suécia.

O programa previa uma série de orações, de leituras, de cantos (muito bonitos) e de discursos. Younan disse: "Bem-vindos a esta oração ecumênica, que comemora os 500 anos da Reforma. Nos últimos 50 anos, luteranos e católicos fizeram uma longa viagem do conflito à comunhão". E Francisco: "Espírito Santo, ajudai-nos a reconhecer com alegria os dons que chegaram à Igreja através da Reforma, preparai-nos para nos arrependermos dos muros de divisão levantados por nós e pelos nossos antepassados, e fazei-nos aptos ao testemunho e ao serviço comum no mundo".

As palavras do Papa Francisco

Seguiram-se o reconhecimento das culpas e as orações de arrependimento. Junge: "No século XVI, católicos e luteranos, muitas vezes, não apenas não se entenderam, mas também exageraram as opiniões dos adversários, para ridicularizá-los. Repetidamente violaram o oitavo mandamento". E Koch: "Luteranos e católicos aceitaram que o Evangelho se misturasse com os interesses políticos e econômicos do poder dominante. E isso provocou, entre o povo, centenas de milhares de vítimas".

Depois, foram pronunciados os sermões de comentário ao Evangelho (João 15), lido pela primaz da Suécia. "Católicos e luteranos – disse o papa – no contexto da comemoração comum da Reforma de 1517, temos uma nova oportunidade para acolher um caminho comum, que foi se formando durante os últimos 50 anos no diálogo ecumênico entre a Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica [...]. Com gratidão, reconhecemos que a Reforma contribuiu para dar maior centralidade à Sagrada Escritura na vida da Igreja. Através da escuta comum da Palavra de Deus nas Escrituras, o diálogo entre a Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial, do qual celebramos o 50º aniversário, deu passos importantes [...]. A experiência espiritual de Martinho Lutero nos interpela e nos lembra que não podemos fazer nada sem Deus. ‘Como posso ter um Deus misericordioso?’ Essa é a pergunta que perseguia constantemente Lutero. […] A doutrina da justificação, portanto, expressa a essência da existência humana diante de Deus."

Tocando o nó teológico central que dividiu Lutero e o Concílio de Trento, curiosamente, Bergoglio não recordou o importante acordo sobre pontos-chave da justificação, assinado pela FLM e pela Igreja Católica no dia 31 de outubro de 1999, em Augsburg, Alemanha.

Juntos rumo ao futuro

Depois, diante do altar, o papa e o presidente da FLM assinaram uma declaração conjunta: "Temos experiência da dor daqueles que partilham toda a sua vida, mas não podem partilhar a presença redentora de Deus na Mesa Eucarística. […] Exortamos luteranos e católicos a trabalharem juntos para acolher quem é estrangeiro, prestar auxílio a quantos são forçados a fugir por causa da guerra e da perseguição, e defender os direitos dos refugiados e daqueles que procuram asilo". Concretamente, depois, o World Service da FLM e a Caritas Internationalis assinaram um pacto de colaboração.

No dia 1º de novembro, antes de voltar para Roma, em Malmö, o papa celebrou uma missa para a comunidade católica da Suécia (2% dos 9,5 milhões de habitantes do país, maciçamente luteranos, embora a prática religiosa dominical seja muito baixa) . Os católicos registrados são 113 mil, mas, de fato, deve haver cerca de 70 mil outros. No geral, os fiéis de origem médio-oriental e latino-americana são mais numerosos do que os suecos propriamente ditos.

Na viagem de volta para Roma, respondendo à pergunta de um jornalista sobre a possibilidade da mulher-padre na Igreja romana, o papa respondeu: "Sobre a ordenação de mulheres na Igreja Católica, a última palavra clara foi dada por São João Paulo II, e ela permanece". Referência, a do pontífice, ao "não" à mulher no ministério sacerdotal, que deve ser considerado "definitivo", proclamado pelo Papa Wojtyla no dia 22 de maio de 1994, na carta apostólica Ordinatio sacerdotalis.

Mas precisamente a experiência da Igreja Luterana na Suécia, que – e acontece o mesmo na Noruega e na Finlândia – tem uma arcebispa mulher como primaz, leva a intuir as dificuldades do futuro próximo, se, depois da jornada exultante de Lund, esse "não" for reiterado para sempre.

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