Eleição do desencanto do eleitor. 'Não temos mais um partido hegemônico de esquerda no Brasil'. Entrevista especial com Rudá Ricci

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Por: Patricia Fachin | 03 Outubro 2016

Uma breve e inicial análise do resultado das eleições municipais deste ano, ao menos considerando os votos obtidos nas principais capitais brasileiras, demonstra que o PSDB é “o grande vencedor”, constata Rudá Ricci à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail na noite de ontem.

O enfraquecimento do PT em relação a eleições passadas e o fato de o PSOL disputar as prefeituras de Belém e do Rio de Janeiro no segundo turno, demonstram, segundo o sociólogo, que “não temos mais um partido hegemônico da esquerda no Brasil” e que “o PSOL, em parte, ocupou o lugar que era do PT em vários municípios de grande porte”. Para Ricci, “o PSOL deu um passo para se nivelar – ainda que muito inicialmente – ao peso político do PT”.

A diminuição do número de prefeituras petistas nas eleições municipais deste ano, segundo Ricci, reflete o “acúmulo no desgaste do PT”. A crise do partido, pontua, também repercutiu no Nordeste. “O PT quase não foi ao segundo turno em Recife. Nos 16 maiores municípios do nordeste (Jaboatão, Recife, Feira de Santana, Campina Grande, João Pessoa, Caucaia, Fortaleza, Caruaru, Salvador, Vitória da Conquista, Aracaju, Teresina, Natal, Maceió, São Luís e Olinda), o PT só aparece no segundo turno na capital de Pernambuco”.

Outro dado importante das eleições, afirma, é o número de abstenções em estados como Minas Gerais e Rio de Janeiro. “As abstenções superaram 20% do eleitorado e que ao se somar com nulos e brancos, supera em muito a média histórica”, diz.


Rudá Ricci (Foto: Arquivo pessoal/Twitter)

Rudá Ricci é graduado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP, mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e doutor em Ciências Sociais pela mesma instituição. É diretor geral do Instituto Cultiva, professor do curso de mestrado em Direito e Desenvolvimento Sustentável da Escola Superior Dom Helder Câmara e colunista Político da Band News. É autor de Terra de Ninguém (Ed. Unicamp), Dicionário da Gestão Democrática (Ed. Autêntica), Lulismo (Fundação Astrojildo Pereira/Contraponto), coautor de A Participação em São Paulo (Ed. Unesp), entre outros.

Confira a entrevista. 

IHU On‐Line ‐ Como o senhor analisa o resultado das eleições municipais neste ano em relação aos principais partidos, PT, PMDB e PSDB? O resultado lhe surpreendeu? Houve alguma mudança significativa na cena política em relação à última eleição municipal?

Rudá Ricci ‐ Se olharmos para a eleição nas capitais, o PSDB vence espetacularmente no primeiro turno em São Paulo, e em Teresina. E vai para o segundo turno em Belo Horizonte, Maceió, Manaus, Campo Grande, Belo Horizonte, Belém, Porto Alegre e Porto Velho. Ao todo, 10 capitais. É o grande vencedor dessas eleições, por este critério das capitais do país.

O PMDB venceu no primeiro turno em Boa Vista, e vai ao segundo turno em Maceió, Macapá, Goiânia, Porto Alegre e Florianópolis, totalizando 6 capitais. Está fora da região sudeste, região do Presidente da República (que, aliás, amargou derrota acachapante em São Paulo).

O PT ganhou no primeiro turno no Rio Branco e vai para o segundo turno em Recife. Em São Paulo, teve Suplicy com mais de 270 mil votos, como o mais votado para a Câmara Municipal da capital paulista. E só. Em Belo Horizonte, de 6 vereadores caiu para 2 e o PSOL, que não tinha nenhum, elegeu duas mulheres.

Com o PSOL disputando a prefeitura do Rio de Janeiro e Belém no segundo turno, parece que fica claro que: a) não temos mais um partido hegemônico da esquerda no Brasil e; b) o PSOL, em parte, ocupou o lugar que era do PT em vários municípios de grande porte.

IHU On‐Line ‐ Especialmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, que análise faz dos resultados?

Rudá Ricci ‐ Primeiro, que as abstenções superaram 20% do eleitorado e que ao se somar com nulos e brancos, supera em muito a média histórica. Segundo, que o PSDB se afirma em Belo Horizonte, mas principalmente em São Paulo, tendo Alckmin saindo muito fortalecido para a disputa de 2018. No mais, o que já afirmei anteriormente: o PSOL deu um passo para se nivelar – ainda que muito inicialmente – ao peso político do PT. Não tem enraizamento como o Partido dos Trabalhadores, mas agora tem um importante capital político, não só plasmado em votos, mas também em termos de conduta e postura ideológica.

IHU On‐Line ‐ O impeachment da presidente Dilma e a atual crise do PT repercutiram nas eleições do partido nestas eleições?

Rudá Ricci ‐ Não me parece que tenha repercutido. Talvez, nas capitais e grandes centros urbanos, tenha sido um dado mais de acúmulo no desgaste do PT, mas não o fato em si. Tomemos o discurso dos candidatos. A mais enfática candidata a citar o caso do impeachment foi Jandira Feghali, mas justamente para defender Dilma Rousseff. O ataque central dos adversários do PT foi o próprio partido.

No caso do interior é preciso ter em mente a peculiaridade dos municípios brasileiros. Mais da metade dos brasileiros vive em pouco mais de 300 municípios. A grande maioria vive em municípios muito pequenos: 22% vive em municípios com até 5 mil habitantes; outros 22% em municípios entre 5 mil e 10 mil habitantes; 24% em municípios entre 10 mil e 20 mil habitantes; e 20% entre 20 mil e 50 mil habitantes. Portanto, 88% dos brasileiros vivem em municípios com menos de 50 mil habitantes.

Ora, nestas localidades grande parte da população tem relação direta e extremamente clientelista com os candidatos. Não há espaço para questões nacionais ou ideológicas. Quase sempre a população se divide entre dois agrupamentos ou de famílias tradicionais na política ou entre um agrupamento tradicional e um representante inovador. Mas a disputa é profundamente personalista.

Vale destacar que neste ano, 97 municípios tiveram apenas um candidato (em especial, em municípios mineiros, paulistas, paranaenses e gaúchos). Mas a grande maioria dos municípios teve apenas 2 candidatos, revelando uma polarização que reforça o personalismo. Serão 2.620 municípios com apenas dois candidatos a prefeito. Destaca-se Paraíba, com 174 municípios (66% do total) apresentando tal situação, seguido pelo Piauí, com 65% dos municípios nesta situação.

IHU On‐Line ‐ O Nordeste sempre é considerado uma região em que o PT tem bastante peso. Isso se manteve nesta eleição?

Rudá Ricci ‐ Não. O PT quase não foi ao segundo turno em Recife. Nos 16 maiores municípios do nordeste (Jaboatão, Recife, Feira de Santana, Campina Grande, João Pessoa, Caucaia, Fortaleza, Caruaru, Salvador, Vitória da Conquista, Aracaju, Teresina, Natal, Maceió, São Luís e Olinda). O PT só aparece no segundo turno na capital de Pernambuco.

IHU On‐Line ‐ Diante da crise do PT, como analisa a atuação do PSOL nas eleições deste ano?

Rudá Ricci ‐ Se saiu muito bem. Em certa medida, começou a ocupar o espaço do PT, se relembrarmos a própria trajetória petista em pleitos municipais. Durante grande parte deste primeiro turno, esteve bem em várias capitais: São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belém, Cuiabá. A queda acentuada em Porto Alegre e São Paulo se deve, em especial, à parca estrutura de organização partidária e seu baixo enraizamento em regiões mais pobres e periféricas. Mesmo assim, se tornou a segunda legenda nacional no campo das esquerdas.

IHU On‐Line ‐ Que análise faz das coligações feitas entre partidos de diferentes ideologias nas eleições deste ano?

Rudá Ricci ‐ Historicamente no Brasil, as coligações mais heterogêneas sempre têm melhores resultados eleitorais que as homogêneas. Há diversos estudos que demonstram este fato. O único partido que saiu da curva foi o PSOL.

IHU On‐Line ‐ É possível identificar se as crises econômica e política tiveram algum peso nas eleições?

Rudá Ricci ‐ Segundo o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Gilmar Mendes, os gastos nas campanhas municipais de 2016 somam R$ 2,131 bilhões (faltando ainda três dias para contabilizar todas doações), muito abaixo dos R$ 6,240 bilhões gastos em 2012. Contudo, são gastos contabilizados. Como sabemos, Caixa 2 de campanha, mesmo sendo ilegal nas campanhas passadas, foram identificadas e alguns casos se tornaram ações judiciais muito comentadas. O fato é que houve registro de falta de dinheiro em diversas campanhas majoritárias em capitais e grande parte do material de campanha foi desovado nos dez dias finais de campanha. Este, talvez, tenha sido um dos fatores de tanta instabilidade na decisão do eleitor, como demonstraram várias pesquisas de intenção de voto. Com efeito, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo registraram uma volatilidade impressionante: na última semana de campanha, entre 34% e 37% dos eleitores destas capitais afirmavam que poderiam alterar sua decisão no dia da eleição.

Enfim, houve, pelo formato da campanha deste ano em função das mudanças das regras eleitorais, ou por aumento da seletividade do financiamento de campanhas pelos grandes empresários, uma diminuição expressiva dos recursos despejados nos pleitos municipais deste ano.

IHU On‐Line ‐ As investigações de corrupção também impactaram o resultado das eleições?

Rudá Ricci ‐ Possivelmente terá tido algum impacto nos grandes centros urbanos. Na maioria dos municípios, contudo, a situação parece distinta da nacional. O tema parece naturalizado pelo eleitor como parte integrante da prática política nacional. Tanto que apenas 5% dos brasileiros confiam nos partidos políticos. Em 2013, a ONG Transparência Internacional havia divulgado pesquisa em que se revelava que 81% dos brasileiros consideravam os partidos políticos do país “corruptos ou muito corruptos”. Pesquisa realizada pelo Latinobarômetro em toda região latino-americana revelou, este ano, que somente 3% dos brasileiros confiam nos seus compatriotas. É o país da região com menor índice de empatia intrapessoal.

De qualquer maneira, levantamento do Congresso em Foco revelou que PMDB e o PSDB, os dois partidos que governam o país após o impeachment da Presidente Dilma Rousseff, são os dois partidos com mais candidatos barrados com base na Lei da Ficha Limpa nas eleições de 2016 em todo o país. Segundo registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ao todo, 306 peemedebistas foram considerados inelegíveis pela Justiça eleitoral. O número representa 11,1% do total de barrados. O partido é responsável por quase 9% de todas as candidaturas deste ano. Em segundo lugar, aparece o PSDB, com 7,2% de todos os candidatos ou 209 tucanos considerados inelegíveis. Depois do PMDB e do PSDB, aparece o PSD, com 184 candidatos incluídos na lista dos inelegíveis. Não é possível sustentar que esta situação tenha criado algum impacto negativo nos três partidos, efetivamente.

IHU On-Line - E as abstenções, votos nulos e brancos?

Rudá Ricci - O termo foi empregado pela jornalista Renata Lo Prete, antes das eleições deste domingo (2 de outubro). E acertou. Trata-se da eleição do desencanto do eleitor. Vejamos alguns dados em pesquisa aleatória sobre a soma dos votos brancos, votos nulos e abstenções neste pleito.

São Paulo: brancos e abstenções somaram 2,669 milhões de eleitores. Dória obteve 2,661 milhões de votos.

Belo Horizonte: os dois candidatos que disputarão o segundo turno tiveram menos votos juntos que o total de abstenções, nulos e brancos. No pleito realizado hoje (2), João Leite (PSDB) obteve a preferência de 395.952 eleitores e Alexandre Kalil (PHS) 314.845, o que soma 710.797. As abstenções (417.537) e os votos nulos (215.633) e brancos (108.745), totalizaram 741.915.

Belém: abstenções, brancos e nulos somaram 26,98%, próximo dos 29,50% do candidato Edmilson Rodrigues (PSOL), o segundo mais votado (e que estará
no segundo turno dessas eleições).

Porto Alegre: brancos, nulos e abstenções chegaram a 34,8%, acima da votação do primeiro colocado. A soma de brancos e nulos disparou 69% em
comparação com a eleição de 2012.

Rio de Janeiro: os votos nulos e em branco somam 18,26% do total do eleitorado que foi às urnas neste domingo. O percentual representa alta de 35% em relação aos 13,51% de votos nulos e em branco na eleição de 2012. O índice de abstenção no Rio passou de 20,45% no primeiro turno de 2012 para 24,28%, aumento de 18,7%.

Curitiba: os votos em branco e nulos somaram 13,7% (alta de 35% em relação a 2012). As abstenções cresceram 80%.

Em Sete Lagoas - MG, foram 10.183 votos em branco; 19.723 nulos e 26.726 abstenções. Número superior ao do Prefeito eleito que teve 50.698 votos.

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