Encontro de Assis: "O diálogo entre as religiões pode muito contra o terror"

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20 Setembro 2016

Ele conta sobre o encontro entre o Santo de Assis e o Saladino, daquele frade que retorna ao acampamento cruzado com os presentes do rei. Depois, levanta o olhar: "Se São Francisco voltasse à vida hoje, como ele seria acolhido pelo ISIS e similares?". Mohammad Sammak, sunita, é o conselheiro político do grão-mufti do Líbano. E é o seu discurso – "infelizmente, todos conhecemos a resposta" – que marca o primeiro dia do encontro em Assis: "O Islã não mudou. O texto corânico é constante, e os Hadith, as palavras do Profeta, são claras. Ele não mudou nem antes nem depois daquele encontro. O que mudou foi que um grupo de extremistas vingativos e desesperados desviou o Islã e o está usando como instrumento de vingança".


A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 19-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Além disso, "sabemos o que aconteceu com os muitos mosteiros e igrejas que foram destruídas, embora sejam descritos pelo Alcorão como casas de Deus, e apesar da advertência do profeta Maomé aos muçulmanos de não danificá-los, considerando isso como um ato de desobediência a Deus e ao Seu profeta".

O espírito de Assis, a clareza, a coragem. O rabino israelense Avraham Steinberg não mandou dizer: "Hoje, nós somos testemunhas de vergonhosas atrocidades cometidas por uma minoria de fundamentalistas islâmicos que dizem agir em nome do Senhor. Não há violação maior das Suas palavras!".

E, então, o expoente muçulmano recorda o padre jesuíta Paolo Dall'Oglio, "que dedicou a sua vida a servir os muçulmanos e os cristãos na Síria", e o bispo de Aleppo, Yohanna Ibrahim, sequestrado por fanáticos e desaparecido.

Ele explica que o padre Hamel "é uma vítima não só para a Igreja de vocês, mas também para a nossa religião". E é entre aplausos que Sammak fala do "movimento totalitário" que ameaça a sua fé: "Nós, muçulmanos, compreendemos muito bem que devemos libertar a nossa religião desse ‘desvio’ e reorganizar o Islã em seu interior, alinhados com os princípios espirituais do Islã e com os princípios que constituem os fundamentos da civilização humana no século XXI".

Assim, "abordar o tema do extremismo religioso é um dever principalmente dos muçulmano", afirma: "O Papa Francisco se propôs como líder espiritual para toda a humanidade quando disse que não há nenhuma religião criminosa, mas que existem criminosos em todas as religiões".

"A cultura vencerá o obscurantismo"

Não é só uma questão de símbolos, da variedade policromada de vestes na plateia do Teatro Lyrick, das mudas de oliveira no fundo do palco, das nuvens escuras e da chuva intermitente até que, durante a inauguração, um arco-íris ilumina o céu sobre Assis.

O encontro "Sede de paz", organizado pela Comunidade de Santo Egídio com as famílias franciscanas e a diocese, é feito de líderes religiosos e personalidades da cultura que se encontram e conversam, cristãos e muçulmanos, judeus e budistas, xintoístas e jainistas, zoroastristas, sikhs, hindus.

Nesta terça-feira, chegará Francisco, que, no Ângelus, convidou os fiéis a "viverem esse dia como um dia de oração pela paz", porque "hoje, mais do que nunca, precisamos de paz nesta guerra que está por toda parte no mundo". Um apelo que se tornou universal: "A exemplo de São Francisco, somos todos chamados a oferecer ao mundo um forte testemunho do nosso compromisso comum pela paz e pela reconciliação entre os povos. Assim, na terça-feira, todos unidos em oração: cada um tome um tempo, aquele que puder, para rezar pela paz. Todo o mundo unido".

Mas é aí que as coisas podem mudar. "O diálogo entre as religiões, entre crentes e não crentes, o diálogo na cultura pode muito na luta contra o terror, mais do que se pensa", comentou na saída o presidente da República italiana, Sergio Mattarella: "O choque contra a violência extremista também é um choque cultural, e, portanto, a cultura pode prevalecer sobre o obscurantismo". Ele tinha acabado de ouvir Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico de Constantinopla: a paz é "uma escolha institucional", mas, acima de tudo, "algo pessoal: cuidar um do outro com honestidade, para se compreender e cooperar".

Andrea Riccardi lembra, com Wojtyla, que "é preciso a orações de todos, sem excluir ninguém, sem que ninguém precise renunciar à própria identidade". O fundador da Santo Egídio exclama: "Como o mundo seria vazio e terrível sem diálogo e oração!".

"A arte de viver juntos" é sinônimo de "laicidade". Mas é preciso uma "revolução cultural" e educacional, porque "nem sequer começamos a desenvolver uma consciência cosmopolita", observa o sociólogo Zygmunt Bauman.

O arcebispo de Rouen, Dominique Lebrun, coloca sobre o púlpito a foto do padre Hamel e pede que o seu martírio "não seja uma bandeira levantada para combater e condenar."

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