Os bastidores do Conselho dos Cardeais do Papa Francisco

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13 Setembro 2016

Do lado de fora, pode parecer que o Conselho dos Cardeais assessores do Papa Francisco, que se encontra com ele regularmente, não tenha ainda apresentado reformas importantes, mas o Cardeal Oswald Gracias, da Índia diz que o pontífice consulta o grupo em 75 a 80% das vezes em que precisa tomar decisões.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 12-09-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Quando pensamos em Angela Merkel, Barack Obama e Vladimir Putin reunindo-se quase que regularmente como membros do G8, é fácil imaginar embates entre estas personalidades – e, claro, nós sequer precisamos imaginar algo assim, posto que algumas dessas situações estão muito bem documentadas.

Uma expectativa semelhante de ver pessoas batendo-se de frente ocorre naturalmente quando pensamos no Conselho dos Cardeais, do Papa Francisco, que desde o primeiro ano de sua eleição vem se reunindo para assessorá-lo em sua reforma da Cúria Romana.

Analistas do Vaticano não conseguiram evitar o sentimento de surpresa quando se anunciou que figuras muito diferentes, como o alemão Reinhard Marx, o australiano George Pell e Laurent Monsengwo, da República Democrática do Congo, estariam se encontrando quatro vezes por ano em média. Parecia altamente plausível que eles passariam um bom tempo discordando entre si e criticando uns aos outros.

No entanto, de acordo com uma dessas personalidades, o Cardeal Oswald Gracias, da Índia, a diversidade do grupo é também uma de suas principais forças.

Em entrevista ao sítio Crux na Casa Santa Marta, a residência no Vaticano onde o grupo de nove cardeais realiza suas reuniões, Gracias disse que o Conselho é um “órgão colegiado [onde] ninguém tem predomínio, e todo mundo tem a oportunidade de falar”.

“Posso imaginar por que algumas pessoas do lado de fora pensam de forma diferente (...) nem todos nós temos as mesmas ideias (...), nós diferimos, mas tem que ser assim”, disse. “Não há ninguém lá que podemos dizer que não tenha uma personalidade forte e que não tenha opiniões seguras”.

Uma dessas figuras que tem a oportunidade de falar, evidentemente, é o próprio Francisco. Ele vai a todas as sessões do grupo, passando as manhãs e as tardes com os demais integrantes. Uma maneira como o pontífice ressalta esta atmosfera colegiada é que ele levanta a mão quando ele quer se manifestar.

“No início foi um pouco estranho, vê-lo erguendo a mão [para falar]”, disse Gracias, acrescentando que às vezes ele precisa acenar ao Cardeal Óscar Rodríguez Maradiaga, de Honduras, quem coordena as reuniões, para este ver que o pontífice tem algo a dizer.

Embora as imagens destes encontros mostrem que os arranjos dos assentos dos prelados variem às vezes, Gracias disse que ele e Maradiaga em geral sentam-se um ao lado do outro.

O órgão, que Gracias descreve como o “gabinete dos ministros do Santo Padre”, transformou-se numa “caixa de ressonância” do atual papado.

Do lado de fora, por vezes é tentador concluir que o C9, como se chama também o Conselho dos Cardeais, não tenha feito muita coisa em todo esse tempo. Até o momento, entre as poucas importantes decisões atribuídas direta e publicamente ao seu trabalho estão as de reorganizar um grupo de departamentos vaticanos em dois amplos dicastérios, que poderá desfazer grande parte da burocracia então existente.

Gracias, no entanto, declara que a função do grupo vai muito além disso, dizendo que Francisco consulta-o em 75 a 80% das decisões que toma, incluindo decisões relativas a documentos por vir e ao perfil das pessoas necessárias para preencher vagas específicas na Igreja.

Quando o C9 se reúne, em geral o Vaticano divulga uma breve nota que informa os assuntos tratados. Estes assuntos incluem normalmente um relatório de progresso da parte do Cardeal Pell, prelado à frente da Secretaria para a Economia, departamento criado por sugestão do C9, e um outro do Cardeal Sean P. O’Malley, de Boston, o único americano no grupo, que dirige a Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores, igualmente criada por recomendação do grupo.

No entanto, conforme salientado por Gracias na entrevista, o C9 do papa não é um órgão de governo da Igreja, e como tal não pode, na verdade, dizer ao papa o que fazer, somente dar sugestões. Naquilo que se chamou de um estilo “bem jesuíta”, Francisco em geral tem o seu pensamento focado em algo específico, e que pode ser um verdadeiro desafio conseguir fazê-lo mudar de posição, todavia Gracias disse que viu isso acontecer.

“Já vi exemplos claros onde Francisco mudou claramente de pensamento”, disse Gracias. Além disso, o religioso indiano acrescentou que não conseguia lembrar de um “exemplo em particular onde ele [o papa] vetou uma determinada ideia”.

Com 15 reuniões ao todo, os nove cardeais, segundo Gracias, já alcançaram um nível de confiança tal que lhes permite dizer ao Papa Francisco algo que ele teria manifestado de modo inadequado segundo as avaliações dos integrantes.

“Eu não digo essas coisas em público, nem mesmo quando estamos todos lá reunidos, mas num intervalo, num momento em que estou a sós com ele. Alguns dos cardeais me parecem que lhe falariam com a maior franqueza! Temos este espaço, esse tipo de troca”, disse.

Essa honestidade, informou Gracias na dianteira da próxima reunião do grupo (a acontecer entre os dias 12 a 14 de setembro), é saudável e útil para todos.

“Somos uma das poucas pessoas com facilidade de acesso ao papa, se não falarmos essas coisas com ele, se não dermos a ele esse retorno, o papa pode estar mal assessorado”.

Ainda que não tenha sido a principal razão por trás de sua eleição, é verdade há muito tempo aceita que o Papa Francisco foi escolhido em parte para reformar o Vaticano.

E um mês depois que fora eleito, ele chamou alguns de seus companheiros mais antigos, como Maradiaga e Francisco Javier Errázuriz, do Chile, com os quais havia trabalhado na América Latina.

O resto da equipe é composta pelos italianos Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, e Giuseppe Bertello, presidente da Pontifícia Comissão para a Cidade do Estado do Vaticano. Uma outra figura permanente nas reuniões do C9 é o bispo italiano Marcello Semeraro, que atua como o secretário do grupo.

Quando o Conselho dos Cardeais se reúne, suas sessões duram normalmente três dias, e a pedido de Francisco todos eles se hospedam na Casa Santa marta, onde não só eles têm suas assembleias, mas também compartilham os momentos de refeição numa grande mesa especialmente a eles reservada.

Todas as sessões são em italiano, “que é o único idioma que temos em comum”, embora o Conselho tenha se beneficiado com o passar do tempo, posto que as habilidades linguísticas dos integrantes não são iguais: “Hoje, conhecemos bem uns aos outros e sabemos o que um determinado integrante quer dizer”, declarou Gracias.

Francisco participa de todos os encontros, exceto aqueles que ocorrem nas quartas-feiras pela manhã, que é quando ele realiza a audiência pública semana na Praça de São Pedro, em Roma.

O C9 foi criado pelo primeiro papa argentino da história com a finalidade de ajudá-lo a revisar a Cúria Romana e a constituição do Vaticano, chamada Pastor Bonus. Com o passar do tempo também, ele permitiu a Gracias pessoalmente vivenciar a “universalidade, as necessidades da Igreja”, como um todo, e a importância de se conhecer entre si.

“Esta foi a primeira vez que vivenciei a Igreja como Igreja”, disse, acrescentando que nada sabia da Igreja na América Latina até o momento em que fora convidado a integrar o grupo. Gracias acredita que o mesmo possa ser dito dos demais integrantes.

Um dos desafios que ele enfrenta pessoalmente é ter de se lembrar que, quando ele fala com Francisco, ele está falando com o papa: “Ele parece como um outro bispo companheiro quando estamos nos reunindo no G9”.

“Não consigo imaginar eu sentado a conversar com Bento XVI e João Paulo II como faço com Francisco”, falou Gracias ao final da entrevista.

Durante os anos do pontífice polonês, Gracias era padre; ele diz que sente uma “sensação de espanto” pelo atual papa. Bento é “um gigante intelectual tal que você o ouviria, e não iria argumentar”.

Francisco, por outro lado, quer que você diga 'não' se discordar”, disse Gracias.

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