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30 Agosto 2016

Em junho deste ano, Alberto de Nicola foi entrevistado por Bruno Cava sobre o que restou dos movimentos do 15 de Maio na crise “cronicizada” do capitalismo, passando pela mobilização francesa do Nuit Debout em 2016, pelo caso do Syriza e das plataformas cidadãs na Espanha e na Itália, suas limitações e impasses. O pesquisador e ativista do Ateliê Autogerido Esc, em Roma, diz que não é mais caso de disputar uma unidade europeia, porque ela já se esfacelou, cabendo agora apontar e assumir qual a direção que esse esfacelamento conduzirá, entre ressurgências nacionalistas, a velha governance financeira e, como no caso da Ucrânia na restauração do movimento da Maidan, a própria guerra. (N.E.)

A entrevista é de Bruno Cava, publicada por UniNômade, 25-08-2016. A tradução é de UniNômade.

Eis a entrevista.

A crise do capitalismo global de 2007-2008 parece ter sido normalizada, enquanto o desencanto com a política segue sendo legião em todos os países da Europa. O laço aplicado pela troica contra a Grécia do Syriza, em julho de 2015 e, mais recentemente, a Brexit indicam “duas alternativas piores”, nessa dicotomia infernal entre governance financeira e neossoberanismo anti-imigrante. Onde podem ser construídos elementos de contrassubjetividade? Quais emergências, ou consequências criativas, ainda atuam a partir do ciclo de lutas de Tahrir, do 15-M, das riots? O movimento Nuit Debout é uma resposta aos desafios? Podemos ainda apostar num projeto europeu, enquanto alternativa a partir das lutas constituintes?

Mais do que “normalizada”, eu diria que a crise na Europa virou “cronicizada”, no sentido que se estabilizaram as tendências presentes em sua fase inicial. Isto vale para ambos os lados da questão. De um lado, a governance europeia parou de pensar a crise como um intervalo entre ciclos econômicos e institucionais, passando a considerá-la como um modo de regulação em si mesmo, uma forma de governo.

A situação de impasse se deu a partir do fato que o capital secou as suas próprias fontes de valorização, não apenas comprimindo o consumo e os salários além de qualquer limite, como nos lembram os keynesianos, como também emiserando as formas de cooperação social que são vitais para o funcionamento desse modelo econômico. De outro lado, o que tínhamos entendido nos primeiros anos de crise como um processo de empobrecimento, de “rebaixamento” de frações significativas da população, hoje, a quase 9 anos do início da crise, e na ausência de uma perspectiva mínima de mudança em médio prazo, deixou de se apresentar como uma “queda”, tornando-se uma nova e estável realidade.

Noutros termos, a estratificação social mudou radicalmente. Um pouco em toda parte, a composição social se subdividiu, aumentou a distância entre as pessoas e entre as camadas, não apenas em termos de condições de vida, como também da própria percepção. Isso trouxe consequências incalculáveis e coloca em primeiro plano, sobretudo, o problema de como pensar num novo agir recompositivo, em novos agenciamentos políticos. Dentro dessa “cronicização” da crise, certamente se dá uma mudança das coordenadas políticas. E toda a esquerda, inclusive aquela menos comprometida com os desastres dos últimos anos, parece estar totalmente despreparada para captar essas mutações moleculares.

Nessa situação, o movimento francês parece ser, quase como um paradoxo, uma descontinuidade e, ao mesmo tempo, uma confirmação da tendência. De uma parte, de fato, ele aparenta ter a capacidade de reabrir o ciclo de lutas multitudinárias de 2011, retomando e recomeçando alguns dos pontos mais avançados daqueles movimentos.

Participei de manifestações lá por ocasião da greve de 28 de abril e fiquei tocado com a incrível reapropriação da política e do espaço público por parte de uma sociedade que, nos últimos anos, parecia travada. De outra parte, contudo, é preciso dizer que o movimento continua a sofrer fortemente com as decomposições: a relação entre trabalhadores dependentes sindicalizados e a “plebe intelectual” que anima as discussões na praça não é, de jeito nenhum, algo óbvio. As periferias continuam a estar em boa medida distantes da praça. Essa “decomposição” já a tínhamos visto também no movimento italiano da Onda, assim como nas riots inglesas. Ao redor da capacidade de compor esses segmentos, de criar enunciados adequados e exprimir o “comum” dessas lutas, é que a partida será jogada nos próximos tempos.

Manuela Carmena em Madrid e Ada Colau em Barcelona, foram eleitas em maio de 2015 prefeitas por plataformas municipalistas construídas a partir de uma nova ecologia de movimentos e mídias pós-15M. A força e o contágio dessa reorganização do campo político na Espanha contribuiu para a remontada do Podemos, depois de um ano difícil de erosões e perda de ímpeto. Neste ano, nas eleições municipais italianas, o Movimento 5Stelle [NT. “Cinco Estrelas”, partido político] conquistou um sucesso surpreendente em Turim e Roma. Nesta última cidade, Virginia Raggi, outsider de 37 anos, venceu inclusive com uma plataforma de oposição à candidatura da cidade para sediar os Jogos Olímpicos de 2024. O que esses processos na Espanha e na Itália, com suas óbvias diferenças, têm condições de contribuir para a construção de contrapoderes, seja ao governo financeiro da Europa, seja à ressurgência dos nacionalismos?

Não sei se é possível falar de um “movimento das cidades” ou de uma nova instância municipalista: como dizia igualmente você, de fato, as citadas experiências espanholas e italianas são diferentes demais para que se possa aludir a um processo em comum. Estou, no entanto, convencido que essas descontinuidades institucionais sinalizam de qualquer modo uma potencialidade política que está atrelada hoje ao espaço da cidade. E isto não apenas porque, apesar das suas diferenças, os governos de cidades importantes, tais como Barcelona, Madrid, Turim e Roma, andaram evidentemente na direção de forças que se colocam em direta oposição ao sistema partidário e de poder que vinha governando ininterruptamente aqueles territórios. Penso que essa potencialidade tem razões mais profundas.

O que a dramática sequência de eventos na Grécia nos demonstrou no verão passado foi que nenhum governo é suficiente para mudar as relações de força e imprimir um processo de transformação radical. Noutras palavras, hoje mais do que nunca, a função do governo não corresponde imediatamente ao exercício de poder e à possibilidade que, através deste exercício, se modifiquem as relações de força, sociais e institucionais. Isto é verdade tanto para um pequeno estado-nação no embate com a governance europeia e do capital financeiro, quanto para o governo de uma cidade, por maior e mais importante que ela possa ser. As cidades foram expropriadas de sua autonomia, primeiramente, em termos financeiros, mas também administrativos. Qualquer que seja o governo urbano com intenções de determinar uma transformação radical deve necessariamente aliar-se com forças que o ultrapassam e que lhe são autônomas.

Os governos da mudança devem, noutras palavras, encontrar uma maneira de articular a sua ação com a difusão de contrapoderes sociais e independentes, que possam a cada vez reabrir o processo democrático. A difusão de experiências de sindicalismo social e a criação institucional dos movimentos urbanos são condições para que se dê, efetivamente, uma ruptura e um processo constituinte. Além disso, o espaço das cidades representa para nós a possibilidade de pensar em termos não exclusivamente político-jurídicos a própria definição do poder constituinte. As cidades são espaços adequados para experimentar uma “política econômica do Comum”, uma forma de planificação difusa e descentrada, segundo o modelo baseado sobre a produção do homem pelo homem: ou seja, baseado na saúde, na educação, na comunicação e na socialidade. O reconhecimento político da produção informal de economia e instituições sociais que já existem nas cidades é a verdadeira aposta dessas experiências neomunicipalistas.

Além disso, há um último motivo pelo que considero a cidade como um espaço político potencial, e isso toca diretamente o drama da crise europeia. Não acredito que o problema hoje seja perguntar-se se aquele monstruoso castelo institucional da União Europeia possa ou não realizar-se. A decomposição da Europa já é uma realidade diante de nossos olhos. Cabe apenas entender qual tipo de decomposição deve ser assumido. Aqueles que pensam, a partir de posições de esquerda, que seja o caso de seguir a propaganda nacionalista para depois ao longo do curso mudar-lhe a direção não se deram conta o suficiente do quanto o nacionalismo não pode senão determinar uma reterritorialização fascista do espaço político. Creio, em vez disso, que seja preciso empenhar-se de maneira que a decomposição caminhe na direção de um federalismo radical, que substitua a reivindicação por soberania (nacional) pela de autonomia. Nesse sentido, a construção de uma rede entre as cidades rebeldes pode constituir talvez não apenas a possibilidade de agir conjuntamente para abrir um conflito contra a governance europeia, como também de apontar a um processo constituinte para imaginar uma Europa alternativa à existente que agora se esfacela.

Por último, gostaria de falar de um assunto um pouco deixado de lado que é a Ucrânia. Tenho particularmente em mente o que aconteceu na Maidan, fizemos no âmbito da UniNômade algumas oficinas, sessões de filme e debates, e também recebemos no Rio o professor Constantin Sigov, da universidade de Kiev. Maidan se inscreve 100% no ciclo de lutas globais e é preciso levar em conta o que se passou lá. Como sabe, em 2013 o ciclo de lutas havia explodido principalmente em três países diferentes, Turquia, Brasil e Ucrânia, mas no último caso assistimos ao choque dos movimentos com limites bastante violentos, quando a situação logo se precipitou numa guerra civil e as lutas terminaram esmagadas entre dois macroprocessos geopolíticos. O que se pode aprender da situação ucraniana? Aonde parece caminhar?

Não acho que eu esteja condições de extrair ensinamentos do caso. Posso, porém, dizer que na Itália o que aconteceu entre 2013 e 2014 foi um tema pouco usual nas discussões políticas. Embora tenha sido, sem dúvida alguma, um dos eventos mais importantes dos últimos anos, me parece que ao redor da Maidan sucede algo parecido a uma supressão. Dois discursos conseguiram codificar de maneira total aquele evento: o primeiro foi o discurso do disputa “geopolítica”, o segundo, o da ação dos grupos fascistas. Hoje, fica evidente a todos que esses dois discursos não foram, de maneira alguma, fruto de fantasia: a dimensão geopolítica foi desde o início muito importante e a mobilização rapidamente levou o espaço ucraniano a ser submetido à contenção por esferas de influência; assim como é inegável o protagonismo de grupos da extrema direita, pelo menos a partir de certo momento, quando a praça começou a radicalizar-se cada vez de maneira mais violenta, até os desdobramentos sucessivos e a formação do novo governo.

Ainda assim, eu falo em supressão porque, apesar de tudo, o que terminou esquecido completamente e que deixou de ser considerado posteriormente foi o fato primeiro que a Maidan foi um levante popular. Os companheiros ucranianos com que temos contato há anos nos relataram sobre a praça e a extrema abertura que ela representou, não apenas como campo de contestação do poder oligárquico, da corrupção, das condições de pobreza difusa, como também como uma forma de reapropriação do espaço público. O modo desastroso pelo que a situação foi — por assim dizer — “lacrada e estabilizada”, com a restauração do poder oligárquico e a guerra civil, não nos autoriza a suprimir o seu caráter de revolta. Deleuze e Guattari nos ensinaram a não confundir os eventos revolucionários com o seu devir: isto também vale para a Maidan.

Por exemplo, a operação de Putin sobre a península da Crimeia indubitavelmente respondeu a um interesse de tipo geopolítico. Mas no fundo essa operação teve por condão barrar o potencial de contágio que a revolta podia obter noutros territórios do Leste Europeu, e antes de qualquer coisa, em “sua” própria Rússia.

Uma última consideração: frequentemente somos levados a pensar que é possível contornar a discussão sobre a Praça Maidan, não apenas pelos êxitos dramáticos que ela teve, mas também porque a sociedade ucraniana (e isto vale para boa parte do Leste Europeu) estaria no fundo longe demais da nossa sociedade. Eu não estou convencido disso. Há alguns anos, ao falar da situação nalgumas zonas da Europa, Toni Negri dizia que estava em curso um processo de “refeudalização”, dando a entender com esse termo o fato que, em algumas condições, o poder capitalista faz funcionar as novas forças produtivas dentro de velhas relações de produção: a neosservidão e o retorno sistêmico da corrupção são fenômenos que tendem a reaproximar o Leste da Europa do Sul, e a Europa de sociedades bem distantes geograficamente, como por exemplo as sul-americanas. O capital-máfia e o caráter oligárquico do poder são, na realidade, bem conhecidos em meu país. Talvez fosse preciso partir daí para ver como algumas lutas que inicialmente pareçam distantes, no fundo, não o são.

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