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18 Agosto 2016

Nossa história tem raízes no começo dos anos 1880 e nos delírios dos barões da borracha. Sentados à beira do vasto Rio Amazonas, encantados com os botos cor-de-rosa e com as chuvas torrenciais, rodeados pela floresta tropical, esses homens ansiavam por um legado digno de um rei.

A reportagem é de Michael Powell, publicada por The New York Times, reproduzida por portal Uol, 18-08-2016.

Então eles importaram um arquiteto italiano de nome doce, Celestial Sacardim, para construir uma casa de ópera. Ele projetou um paraíso: colunas de mármore Carrara, lustres de vidro Murano, 36 mil azulejos pintados à mão da Alsácia, pisos de nogueira, carvalho e bordo norueguês, tapeçarias dos teares de Flandres, além de aço vindo de fundições de Liverpool.

O Teatro Amazonas era lindo e absurdamente caro, e tão efêmero quanto tudo nessa terra abafada. Diz a lenda que os barões da borracha convenceram Enrico Caruso a viajar até aqui para cantar Verdi. Então a economia das seringueiras entrou em decadência, e a casa de ópera, que até hoje permanece no bairro colonial, caiu em décadas de úmido desuso.

Tudo isso para falar sobre um novo delírio: a Arena da Amazônia em Manaus, uma cidade cujo nome vem de uma tribo local e significa Mãe dos Deuses. Quando o Brasil embarcou em uma orgia de construção de arenas para a Copa do Mundo de 2014, autoridades de Manaus decidiram construir a maior arena de todas. Após anos de obras, a um custo de US$ 220 milhões, ela foi moldada para lembrar um cesto branco gigante comum na região, sobre uma estrutura de concreto de quatro andares. A arena comporta 44.351 pessoas sentadas.

Salvo por raras ocasiões, como quando os times de futebol feminino da Olimpíada jogaram aqui, essa arena permanece vazia. Manaus é cercada por uma floresta tropical do tamanho da França, Espanha, Suécia, Grécia e Itália juntas, e só se alcança através de avião ou barco. A maioria das pessoas nesta trabalhadora cidade de 2 milhões de habitantes não se preocupa tanto com esportes.

A dívida para esse templo ficou enorme e passou a drenar verbas destinadas a escolas e hospitais. Um quarto dos manauaras vive em pobreza extrema, e muitos deles não têm acesso a água corrente.

Entrei no café de mármore e pé direito alto desse teatro de ópera, que reencarnou como atração turística e para abrigar eventos de música e dança. Erica Damasceno, 20, sorvia um café enquanto eu lhe perguntava sobre o estádio.

Fazendo um gesto com a mão, ela disse: "Eu nunca vou lá".

Nunca? Ela assentiu com a cabeça. "Nunca. Tanto dinheiro investido nisso, e temos necessidades enormes, com escolas e hospitais. Todo grande projeto público é uma desculpa para roubar dinheiro".

Saí do teatro me deparando com um Sol equatorial que dava a sensação de uma mão gorda pressionando minha cabeça. Encontrei Maciel de Souza sentado à sombra de uma árvore junto com sua colega de trabalho Natalia Vilacio, guias turísticos sem turistas. Perguntei se ele frequentava o estádio.

"Sim", respondeu De Souza. Com que frequência? "Fui uma vez".

Ele sacudiu a cabeça e disse em português, através de um intérprete:

É um elefante branco, dos grandes. Às vezes os turistas gostam de ver. Nunca tem ninguém dentro".

Sonhos envolvendo arenas tendem a ser ridículos, seja em Milwaukee, em Minneapolis ou em Manaus. Promessas de benefícios econômicos são tão ilusórias quanto civilizações perdidas. A Fifa, a federação mundial de futebol, exigiu que países anfitriões da Copa do Mundo construíssem pelo menos oito estádios. O Brasil, em um arroubo de orgulho, insistiu em construir dez, a um custo de quase US$ 2 bilhões.

Esses estádios se tornaram candidatos a escavações arqueológicas. Brasília gastou US$ 550 milhões para construir seu estádio, que também serve como garagem de ônibus municipais. O estádio de Cuiabá custou US$ 230 milhões e pessoas sem-teto dormem em seus vestiários. Os administradores da grande Arena Pernambuco em Recife estão tão desesperados que a alugaram para o aniversário de um menino de 15 anos.

A revista "Americas Quarterly" descobriu que os gastos que o Brasil teve com a Copa do Mundo ultrapassaram em muito sua receita. O Brasil repetiu seus desperdícios nas Olimpíadas. Há investigações de corrupção em meia dúzia de Estados, com construtoras e funcionários públicos azarados sendo examinados.

Isso nos traz de volta a Manaus e seus excessos "fitzcarraldianos". (Fitzcarraldo era o sonhador do filme de Werner Herzog que tinha a insana ambição de transportar um barco a vapor sobre uma montanha na Amazônia peruana).

Assim como no caso do teatro de ópera, não houve economia nas obras da Arena da Amazônia. Despejou-se aço na Europa, carregado no porto de Aveiro em Portugal. Trabalhadores lotaram três cargueiros gigantes com aço, e um quarto transportou a membrana que serve de teto. Essa frota levou 20 dias para atravessar o oceano Atlântico e vários outros para se aproximar da Amazônia.

As obras foram um úmido pesadelo. Três operários morreram. As fundações foram feitas e refeitas, com juntas de aço presas na umidade. Coordenadores do projeto descobriram "um afluente indesejável de rio" correndo embaixo da obra. De dezembro até março, Manaus recebe cerca de 1.150 milímetros de chuva, então também teve o problema das enchentes.

As únicas estradas que chegam a Manaus são perigosas trilhas de terra intransponíveis durante o tempo chuvoso. Como disse o coordenador do projeto na época, "esse foi um desafio enorme".

Esses desafios depois viraram prejuízo. Os times locais de futebol aqui são o equivalente a um Kingsport Mets da segunda divisão e só atraem 1.000 torcedores nas melhores noites. Eles não conseguem pagar o aluguel. Alguns times da primeira divisão, como os de São Paulo e do Rio de Janeiro, às vezes jogam aqui, mas só se o Estado do Amazonas fornece algum tipo de subsídio. A partir do Rio, é um voo de quatro horas que se pega para chegar até a capital do Amazonas.

Na época da construção, o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, demonstrava um entusiasmo parecido com o dos barões da borracha de séculos atrás. "Será ótimo para shows internacionais", disse Neto à NPR. "Ouvi dizer que muitos astros do pop sonham em cantar sem cobrar muito na floresta amazônica".

Imagino que Bono, Beyoncé e Kendrick Lamar podem sonhar em cantar embaixo da copa de uma samaúma, mas até o momento, nenhum deles veio até aqui para isso.

Fabrício Lima, secretário da Juventude, Esporte e Lazer de Manaus, deu uma entrevista esta semana à minha colega Tania Franco. Ele tem diante de si números desanimadores. De janeiro até abril, a Arena da Amazônia gerou US$ 180 mil em receitas, mas seus gastos nesse período totalizaram US$ 560 mil.

Esse foi o desempenho menos terrível em muito tempo. Até agora, os melhores clientes de Lima são os muitos pastores evangélicos do Amazonas.

Toda noite ele sonha grande. Toda manhã ele age com modéstia. Qual seria sua última ideia para a arena? Ele sorri e responde: "Festas de casamento e de aniversário".

No final desse dia, andei pelo antigo mercado forjado em ferro às margens do Amazonas. Senti um vento quente passar enquanto ouvia Marcio Morais, um vendedor de ervas, explicar como sua neta, que foi criada na selva, o ensinou a colher ervas. Inflamação do fígado, problemas nos rins, asma, disfunção erétil... ele tem uma erva para praticamente cada doença. Começamos a conversar sobre a arena.

Ele franziu o cenho. "Jogos Olímpicos são legais, mas por que estamos gastando dinheiro com isso?", disse. "Podia ter sido uma universidade. Podia ter sido uma escola. Sabia que temos um teatro de ópera? Sonhos tão grandiosos".

Admiti que eu sabia desses sonhos. "Às vezes você precisa acordar", ele respondeu.

Com isso, apertamos as mãos e voltei a encarar o calor que induz aos sonhos.

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Copa do Mundo. Para quem e para quê?. Revista IHU On-Line n. 422.

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