"Olimpíadas para quem?”

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Por: Cesar Sanson | 29 Julho 2016

"A maior parte das Olimpíadas, se não todas, até agora, promoveu a especulação de terras e a consequente gentrificação para incorporadoras imobiliárias, proprietários de terras e construtoras, resultando em segregação urbana, exclusão, desalojamento, combinados com processos de remoção violentos". O comentário é de Jaeho Kang, doutor em Sociologia da Mídia pela Universidade de Cambridge e professor e pesquisador da Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres, em entrevista Goethe-Institut Brasil, 28-07-2016.

Eis a entrevista.

Você é especialista nos escritos de Walter Benjamin sobre mídia. Como podemos pensar os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro à luz da teoria benjaminiana?

Walter Benjamin (1892-1940), um dos mais originais e perspicazes críticos culturais alemães do século 20, propiciou uma visão única sobre o papel crucial das indústrias da mídia e do entretenimento na transformação da Modernidade ocidental. Megaeventos, como a Expo, por exemplo, desde sua criação em Londres em 1851, engendraram e espalharam formas dominantes da cultura capitalista em escala global. As Olimpíadas modernas desfrutam de um status seminal como ritual de massa e festival urbano moderno, ou seja, é “o sonho de Cinderela de transformação da nação anfitriã”. Vistos a partir da perspectiva benjaminiana, os Jogos Olímpicos, dirigidos pelo complexo mídia, esporte e entretenimento, representam as “casas de sonho do coletivo” (Traumhäuser des Kollektivs). Dessa forma, a análise crítica de Benjamin sobre megaeventos ajuda a entender como os Jogos Olímpicos do Rio de 2016 interagem com a formação do espetáculo urbano, a propagação da cultura popular e a construção nacional de identidade.

Você também tem uma pesquisa extensa sobre megaeventos esportivos vistos como espetáculo da mídia. Poderia compartilhar algumas ideias que esclarecem esse conceito?

Megaeventos esportivos referem-se a eventos esportivos globais de grande escala, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos modernos, que normalmente têm um caráter dramático e engendram apelo popular e participação de massa (M. Roche). Sendo assistidos e experimentados pela audiência da mídia local, nacional e global, os megaeventos esportivos se tornaram uma forma de evento de mídia articulado pelo espetáculo. Vale ressaltar que a noção de espetáculo cunhada por Guy Debord (1931-1994), teórico social francês e um membro-chave da Internacional Situacionista, indica não um “conjunto de imagens” ou “uma mera ilusão visual produzida pela mídia de massa”, mas “uma relação social entre as pessoas, mediada por imagens”. A produção e o consumo de espetáculo estão cada vez mais intrincados com as tecnologias de comunicação. O espetáculo da mídia enfatiza várias formas de produções de mídia tecnologicamente construídas, que são produzidas e disseminadas através de mídias sociais e de massa. A gravidade de megaeventos esportivos profundamente ligados à conectividade global só pode ser apreendida quando a dinâmica transnacional dos espetáculos de mídia é levada em conta de forma sistemática.

Como os megaeventos esportivos se relacionam com o espaço público? Como eles transformam o espaço? Quais são as consequências para as cidades que os recebem?

Organizar um megaevento esportivo leva a cidade anfitriã a conduzir transformações urbanas empreendendo estratégias e planejamentos de alto risco de mercado. A cidade e a nação anfitriã visam maximizar essa oportunidade, a fim de regenerar e reabilitar espaços urbanos (por exemplo, praças públicas, parques etc.) e melhorar a infraestrutura social (por exemplo, transporte público, casas populares, instalações comunitárias e esportivas etc.). No entanto, a maior parte das Olimpíadas, se não todas, até agora, promoveu a especulação de terras e a consequente gentrificação para incorporadoras imobiliárias, proprietários de terras e construtoras, resultando em segregação urbana, exclusão, desalojamento, combinados com processos de remoção violentos, como historicamente demostrado em Seul e Pequim, por exemplo. Não foram as populações anfitriãs, mas corporações e capitais transnacionais que se beneficiaram da transformação urbana gerada por fundos públicos. O espetáculo dos jogos tem servido para nutrir a acumulação de capital. Não seriam os Jogos Olímpicos nada mais que jogos imobiliários? No Rio, por exemplo, a Vila Olímpica e Paraolímpica foi construída pela Carvalho Hoseken e pela Odebrecht, através de um empréstimo de mais de 2,3 bilhões reais da Caixa. A Vila será convertida em casas populares para os cariocas depois dos Jogos? Ou em um condomínio de luxo, chamado Ilha Pura, que criará uma cidade dentro da cidade para a classe alta?

Como esses megaeventos esportivos impactam a construção de identidades e do nacionalismo?

As Olimpíadas unem esporte, nacionalismo e mídia numa tríade simbiótica. Esportes instigam habilmente o sentimento nacionalista. Megaeventos esportivos servem intensamente para promover a integração social da nação anfitriã, ao reforçarem um senso de solidariedade e pertencimento. Recentemente, a dinâmica do nacionalismo mudou significativamente de uma forma de ideologia política para um “nacionalismo banal”, desde que as experiências cotidianas de diversidade cultural penetraram no senso de identidade nacional. A cerimônia de abertura das Olimpíadas constitui um sinal de contestação social e cultural, ao encenar o espetáculo das conquistas nacionais e ideias predominantes para espectadores nacionais e globais (por exemplo, Civilização brilhante e Era gloriosa nas Olimpíadas de Pequim de 2008, dirigida por Zhang Yimou, e Ilhas da Maravilha nas Olimpíadas de 2012 em Londres, de Danny Boyle). Narrativas, slogans e retóricas expressas nos eventos (por exemplo, Um mundo, um sonho nas Olimpíadas de Pequim) são ativamente usados para engendrar um senso de unidade e para conciliar conflitos sociais e políticos. A experiência estética coletiva do espetáculo (reunir-se, assistir, torcer, cantar etc.), seja através da mídia ou em espaços públicos, provê bases sociais e culturais substanciais, sobre as quais um novo público de massa pode ser construído no contexto de identidades nacionais e transnacionais.

Outro foco de sua pesquisa é na estética do espaço urbano, visibilidade e espetáculo político. Os Jogos Olímpicos no Rio serão realizados em um país que está passando por uma crise política profunda. Como você acha que essas Olimpíadas irão impactar a situação política do Brasil e vice-versa?

Desde que o Rio foi anunciado como cidade anfitriã, em 2009, a mídia de massa brasileira e os partidos políticos têm procurado mobilizar as pessoas para o nacionalismo público com o slogan do evento: “um mundo novo”. Não está claro o que “um mundo novo” significa precisamente, mas incluiria “segurança" (juntamente com meio ambiente, sustentabilidade, cidadania), como descrito no Relatório de Sustentabilidade Rio 2016. Certamente, cada uma das cidades anfitriãs enfrentou críticas e controvérsias durante o processo de construção. O Rio não é uma exceção. No entanto, os desafios parecem muito maiores: uma série de escândalos financeiros e o impeachment da presidenta na política, recessão continuada e cortes orçamentários em questões econômicas e ambientais, a gentrificação e o desalojamento da população mais pobre, problemas de infraestrutura, para citar apenas alguns. A sustentabilidade aparece como um dos temas cruciais na Agenda Olímpica 2020, “o roteiro estratégico para o futuro do movimento Olímpico” proposto pelo IOC (Comitê Olímpico Internacional). As lições de sustentabilidade deveriam ser aprendidas a partir dos eventos calamitosos anteriores em Seul, Atenas, Pequim, entre outros. Para o Rio, uma pergunta simples mas crucial é: Olimpíadas para quem?


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