As origens da crise de abuso sexual clerical

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10 Junho 2016

"A perda de confiança na Igreja possui as suas contrapartes seculares: mais pessoas têm menos confiança em mais instituições – desde a Igreja, passando pela academia, até o governo – do que tinham em épocas anteriores. Por quê?", questiona Michael Sean Winters, pesquisador do Instituto de Pesquisa Política e Estudos Católicos da Universidade Católica da América, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 07-06-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

O fato de que nós, enquanto Igreja, ainda nos debatemos sobre como enfrentar o crime de abuso sexual contra menores convida-nos todo o tipo de resposta, emotiva e programática. A publicação feita neste fim de semana de um novo motu proprio sobre a responsabilização episcopal torna premente este convite.

Como sabemos, algumas pessoas abandonaram a Igreja: o aumento no número dos “sem religião” entre os católicos na parte nordeste dos Estados Unidos é amplamente atribuível à crise de pedofilia, embora esta causa tenha se fundido com o aumento da direita religiosa e o seu envolvimento com a política. Outros, incluindo algumas lideranças de grupos de defesa das vítimas de abuso sexual clerical, assumiram uma visão fatalista quanto às reformas: de forma compreensível, cada nova revelação de abuso sexual clerical e, mais ainda, cada revelação de acobertamento episcopal destes abusos apenas servia para alimentar, ainda mais, a suspeita destas lideranças de que os representantes eclesiásticos preocupam-se mais é com a autopreservação institucional – e não com a proteção dos menores e vulneráveis. Outros ainda pensam que a crise apenas confirma as suspeitas em torno da organização hierárquica da Igreja de maneira mais geral, ou seja, de que este assunto, como todos os demais, tem a ver, na verdade, com a questão do poder.

Não há dúvida de que a Cúria vaticana é uma subcultura singular. Lembro de um amigo que trabalhava aí muitos anos atrás. Ele me explicou que a Cúria não existia para ajudar o Santo Padre a governar a Igreja universal, mas para conseguir o barrete vermelho aos mais talentosos entre os seus funcionários, quer dizer, torná-los cardeais. Tenho minhas dúvidas de que existe, nesse ambiente, mais ambição do que se poderia encontrar em alguma cúpula de qualquer outra grande organização, porém ambição na Igreja tem menos competição. Por exemplo, os cardeais curiais não precisam se preocupar com as crianças, como fazem a maioria dos congressistas, nem precisam se preocupar com os avanços na área tecnológica, como o fazem os líderes do setor.

A Cúria vaticana, e o episcopado de maneira geral, também vem operando ativamente para esta cultura ambiente há séculos. O fato dominante da vida política nos últimos dois séculos tem sido a democratização, enquanto que a Igreja tem visto o enterro do galicanismo (o grande opositor ideológico da centralização romana) e a separação entre Igreja e Estado, o que gerou, no entanto, um maior controle sobre as Igrejas locais por parte de Roma do que se poderia imaginar épocas passadas. Enquanto monarquias iam à ruína, a Igreja abraçava a doutrina da infalibilidade papal.

As autoridades vaticanas não são os únicos que contam com um emprego arrebatador: os bispos de todo o mundo são as embarcações pelas quais o próprio Deus desce dos céus para se fazer presente no sacramento do altar, pelas quais os batizados recebem a vida nova, pelas quais também os pecados são absolvidos no confessionário e os sacerdotes são ordenados. “Você é sacerdote para sempre, segundo a ordem do sacerdócio de Melquisedec”, cantava o salmista, e alguns cleros, especialmente o alto clero, gostaram da ideia. Inúmeros bispos se esquecem de que são uma mera embarcação para a graça de Deus, que a relação deles com o Senhor é aquela que existe entre as taças de vinho e o vinho: elas não compõem o vinho, não são o vinho; são a taça e, como todas as taças, devem ser claras e translúcidas.

Finalmente, a incapacidade de os líderes eclesiásticos discutirem francamente temas sexuais e a supressão quase completa de um tal debate durante o longo pontificado do João Paulo II levaram a uma situação na qual todo mundo sabia, mais ou menos, que as pessoas não acreditavam mais nas coisas que a Igreja ensinava, fato que também ninguém queria admitir. Os pastores olhavam para as congregações e via famílias com dois ou três filhos, e mesmo assim não conseguiam tirar a conclusão óbvia ou, se a tiravam, não tinham onde desenvolvê-la. Os líderes eclesiásticos sabiam da realidade desumana da “vida no armário” que os gays viviam e vivem; na verdade eles conheciam muitas lideranças gays na Igreja, mas não poderiam admitir uma tal coisa, muito menos debatê-la. A recém estamos entrando em acordo quanto às necessidades dos fiéis divorciados e recasados, em que nem todos eles são moralmente culpáveis pelo rompimento do primeiro matrimônio.

Dito isso, muitos líderes católicos confrontaram-se com a crise de abuso sexual e assim o fizeram com uma preocupação para com as vítimas e com uma forte determinação em proteger os menores no futuro. Muitos bispos reuniram-se com as vítimas e tentaram – e encontraram – maneiras de compensá-las. No que concerne ao motu proprio, acho que todos concordam que ele jamais teria acontecido sem a liderança do Cardeal Sean O’Malley, liderança manifesta primeiramente em 1992, quando ele se deparou com o caso Porter, um dos primeiros casos épicos e públicos de abuso sexual, e depois em Boston, que se tornou o marco zero para a crise em 2002. Em minha diocese no estado de Washington, lidou-se rapidamente, e com justiça, nos casos de pedofilia. E, em Dallas, Dom Wilton Gregory fez a frente na Carta de Dallas quanto à adoção, apesar das objeções de muitos bispos.

Ao refletir sobre como a Igreja tem agido nesta crise, no entanto, voltei-me aos insights de um grande psicólogo cuja obra recentemente chamou a minha atenção. A perda de confiança na Igreja possui as suas contrapartes seculares: mais pessoas têm menos confiança em mais instituições – desde a Igreja, passando pela academia, até o governo – do que tinham em épocas anteriores. Por quê? Podemos apontar para um Nixon aqui ou a uma lei cardeal ali, mas existem um lugar para onde nós não gostaríamos de apontar – e este é nós mesmos. A seguir, reproduzo a passagem de uma leitura que, talvez, você tenha visto nos últimos dias também, como aconteceu comigo, tirada deste psicólogo cujos insights lançaram luz sobre a forma como tantos líderes eclesiásticos se mostravam relutantes – e ainda os são relutantes – em alcançar a raiz do problema:

Consideremos como pode ocorrer que alguém, muitas vezes, ouve algo desagradável e continua a sua vida como se nada tivesse acontecido, como se ele não tivesse ouvido nada; e, no entanto, às vezes esta mesma pessoa fica atrapalhada ou irritada tão logo ouve tais palavras. Qual a causa desta inconstância? Existe um motivo para isso ou existem muitos? Eu reconheço vários, mas um em particular é a fonte de todas os demais. Como alguém certa vez disse: tudo decorre a partir do estado de espírito da pessoa naquele instante.

Se a pessoa está envolta em oração e contemplação, ela pode facilmente ser repreendida pelo seu irmão e, mesmo assim, pode continuar imóvel. Ou, de novo, a sua afeição para com o irmão pode um motivo forte; o amor suporta todas as coisas com a máxima paciência. Todavia, um outro motivo pode ser um desprezo: se a pessoa despreza aquele que está tentando tirá-la do sério e age como se fosse a mais vil de todas as criaturas, considerando o caso como estando abaixo de sua dignidade, até mesmo para olhar para a outra pessoa, respondê-la ou mencionar a afronta e os insultos a alguém mais, então esta pessoa não será afetada pelas palavras ouvidas.

Em resumo, então, ninguém fica perturbado ou é incomodado caso despreze ou desconsidere o que lhe é dito. Mas, por outro lado, é também possível que alguém seja perturbado ou incomodado pelas palavras de seu irmão, seja porque não se encontra em um estado de espírito, seja porque o odeia. Há um grande número de outros motivos também.

Entretanto, o motivo para toda e qualquer perturbação, se olharmos em suas raízes, é que ninguém encontra falhas em si próprio, ninguém critica a si mesmo. Este é o motivo pelo qual nos tornamos furiosos e irritados, é este o motivo pelo qual às vezes não temos paz em nossa alma. Não deveríamos nos surpreender aqui, posto que os santos nos ensinam que não existe outro caminho para a paz se não este mencionado.

Percebemos que esta reflexão é verdadeira em muitas outras pessoas; e, no entanto, esperamos, em nossa indolência e em nosso desejo pela paz, ou mesmo cremos que estamos no caminho certo mesmo quando ficamos irritados por qualquer coisa e não conseguimos aceitar culpar a nós próprios.

Eis como as coisas são. Não obstante as tantas virtudes que um homem pode ter – elas podem ser inumeráveis, poderiam ser infinitas –, se abandonou o caminho da autoacusação, ele jamais irá ter paz: estará afligido pelos demais ou estará em aflito com eles, e todos os seus esforços serão em vão.

Quem é este perspicaz psicólogo? Estas palavras estiveram no breviário de domingo passado, o 9º Domingo do Tempo Comum e elas são de São Doroteu, monge do século VI fundador de um mosteiro no Egito. Não soam verdadeiras?

Muitos bispos chegaram a acreditar que, uma vez tendo a mitra sobre a cabeça, não precisavam prestar contas a ninguém mais. E, se você não precisa se justificar a ninguém, na verdade jamais será responsável por coisa alguma que aconteça de errado. Lealdade redunda em sicofantismo e tirania. Certamente estes fenômenos não se restringem aos bispos. Acha mesmo que os senadores Harry Reid e Mitch McConnell pensam que devam aceitar parte da culpa pelo fato de que os nossos políticos são tão incompetentes? Acha mesmo que os líderes da indústria extrativista estariam um pouco mais propensos a assumir alguma culpa pelas mudanças climáticas do que os líderes da indústria tabagista em aceitar serem culpabilizados pelo aumento no número de pessoas com câncer?

Então, antes de jogar pedras no Vaticano ou contra o seu bispo local, pense nas muitas maneiras que você, prezado leitor, abandonou o “caminha da autoacusação” e se tornou uma fonte de aflição, para você mesmo e para outros. É claro, devemos afirmar que os bispos não só devem ser responsabilizados diante de Deus, mas também diante das pessoas a que servem. Claro também está que os homens de Deus deveriam se manter num padrão mais elevado do que o resto de nós mortais. Da mesma forma, é evidente que acobertar práticas de pedofilia ou ser negligente em proteger os menores é um pecado grave, porém as suas raízes encontram-se no mesmo solo do pecado original a partir do qual brotam todos os nossos pensamentos e palavras pecaminosos, todas as nossas ações e inações. Não deveria ser motivo de surpresa para nenhum de nós, mas especialmente aos bispos, que todos somos necessitados de um salvador.

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