“O problema da Cúria é crer-se acima do Papa”

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04 Fevereiro 2016

A cúria vaticana é necessária. A Igreja universal não pode funcionar como o simpático grupo de Jesus com seus discípulos. O problema assoma quando alguém que deveria estar a serviço da Igreja se crê acima do Papa e do episcopado universal. Os meios de comunicação não cessam de falar da oposição que o Papa Francisco encontra entre os seus mais imediatos colaboradores, a Cúria vaticana. Francisco não suprimiu o Vaticano, como alguns desejariam, mas se instalou austeramente em Santa Marta, e ai leva uma vida simples e cordial, comunicando-se amavelmente com todo o mundo. Quão longe fica o cerimonial de Pio XII, segundo o qual, para aproximar-se e beijar-lhe a mão, era preciso fazer três vezes genuflexão, enquanto se avançava para sua augusta pessoa!

A opinião é do historiador e monge beneditino espanhol Hilari Raguer, em artigo publicado por OSB, 01-02-2016. A tradução é de Benno Dischinger.

Recentemente, o teólogo jesuíta Juan Masiá recordava em Religión Digital que, quando aos 25 de janeiro de 1959 o Papa João XXIII anunciou a convocatória do Concílio Vaticano II, disse que, com tal ocasião, rogava por “um amistoso e renovado convite a nossos irmãos separados das Igrejas cristãs a participarem conosco do banquete de graça e irmandade, ao que aspiram tantas almas em tantos rincões do mundo”. Mas, no texto oficial comunicado pelo Secretário de Estado, cardeal Tardini, se permitiram corrigir o Papa, como se simplesmente tivesse formulado um “convite às comunidades separadas para buscarem a unidade”, suprimindo a qualificação de “igrejas” e “irmãos” e o convite a “participar do banquete de graça e irmandade”, por medo que parecesse que ele autorizava a intercomunhão. Nos inícios do Vaticano II, quando se discutia a reforma litúrgica, João XXIII, visitando uma paróquia romana, falou a favor da língua do povo, e acrescentou (cito de memória): “Já veremos amanhã como reproduz minhas palavras o Osservatore romano”.

Péricle Felici foi o secretário geral do Concílio, e como tal favoreceu descaradamente a minoria conservadora. Inexplicavelmente, Paulo VI encarregou aquele homem anti-conciliar da editio typica (edição oficial definitiva) dos documentos conciliares. Para isso, teve que emendar grande quantidade de erros de maquina que, com a pressa, se haviam introduzido não só no Osservatore romano, mas até nas Acta Apostolicae Sedis, que é como que o BOE do Vaticano.

Mas, além daquelas emendas mecânicas, Felici atreveu-se a introduzir de seu próprio punho algumas modificações, como se ele fosse superior a um concílio ecumênico presidido pelo Papa. A emenda mais notável foi ter reintroduzido, na constituição Gaudium et spes, a expressão “doutrina social da Igreja”, que a comissão redatora havia estimado oportuno suprimir na última redação, que se submeteu à votação definitiva. O Padre Chenu, O.P., principal redator do documento, em seu livro La “doctrine sociale de l’Église comme idéologie (Cerf, Paris, 1979), chegou a qualificar de “fraudulenta” esta modificação.

A razão que dá Chenu é que a expressão “doutrina social da Igreja” está geralmente associada às encíclicas dos Papas modernos, e nem tudo o que se diz nestas encíclicas vem do Evangelho, senão também de certa ideologia. Por exemplo, a sacralização da vida privada. É contra o direito natural e a moral cristã que alguns povos primitivos creiam que a selva e o rio sejam comuns e não possam ser apropriados? Como se fosse pouco, Paulo VI o fez cardeal e Felici foi nomeado presidente da comissão para a interpretação dos textos conciliares e presidente da comissão redatora do novo Código de Direito canônico. Felici, em seus últimos anos, passava o mês de agosto num sítio do distinto povoado de veraneio de Can Toni Gros (Barcelona), propriedade de religiosas das quais era “cardeal protetor”. Pela festa da Assunção costumava ir a Montserrat. Não concelebrava, mas assistia vestido com trajes locais e no final da missa conventual dizia algumas palavras aos fiéis e dava a bênção apostólica.

Almoçava com a comunidade e no café gostava de contar coisas do Vaticano e responder às nossas perguntas. A última vez foi aos 15 de agosto de 1981. Estava seriamente doente do coração (morreria aos 22 de março seguinte). Fazia pouco mais de três anos que havia sido eleito Papa João Paulo II e, como após todas as eleições, se dizia que reformaria a cúria. Perguntado a respeito, disse que se poderiam fazer ligeiros retoques, mas que a cúria era absolutamente necessária para o bom funcionamento da Igreja. Nós lhe perguntamos logo o que lhe parecia o novo Papa, e ele se desfez em elogios dele, sobretudo por suas viagens. Então um monge disse: “Alguns criticam essas viagens”. Ao que Felici respondeu: “Como podem criticar suas viagens, quando têm um êxito avassalador e arrasta as multidões? É seu carisma!” E acrescentou (são palavras textuais, que me ficaram gravadas, e das quais somos ainda testemunhas todos os monges que formávamos então a comunidade de Montserrat): “Seu carisma é viajar, mas quem governa a Igreja, somos nós!”.

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