Argentina. "Nos bairros pobres se sente cheiro de tristeza". Entrevista com Eduardo de la Serna

Revista ihu on-line

Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

Edição: 540

Leia mais

Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

Edição: 539

Leia mais

Grande Sertão: Veredas. Travessias

Edição: 538

Leia mais

Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

Edição: 540

Leia mais

Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

Edição: 539

Leia mais

Grande Sertão: Veredas. Travessias

Edição: 538

Leia mais

Mais Lidos

  • Comunhão na Igreja dos EUA ''já está fraturada''. Entrevista com Massimo Faggioli

    LER MAIS
  • Vozes que desafiam. A vida de Simone Weil marcada pelas opções radicais

    LER MAIS
  • A disrupção é a melhor opção para evitar um desastre climático, afirma ex-presidente irlandesa

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

08 Junho 2016

Eduardo de la Serna foi ordenado padre em 1981 e integra o Grupo de Padres na Opção pelos Pobres. Antes de ser seminarista ele já havia colaborado como estudante do ensino médio no trabalho comunitário de Carlos Mujica, na Vila 31, no bairro portenho de Retiro. Conversava com o mais popular dos padres do Terceiro Mundo até que um grupo da Aliança Anticomunista Argentina (Triple A) o assassinou. Com o retorno da democracia, os sacerdotes que sobreviveram ao terror se reencontraram e formaram o Grupo, que mostra uma Igreja alheia à hierarquia. Desde a ascensão de Mauricio Macri, eles decidiram fazer-se escutar com cartas quinzenais de alerta sobre a situação social.

De la Serna falou com esta cronista no programa Notas Verdaderas, transmitido pelo canal QM Noticias, na província de Buenos Aires. Com ironia e frontalidade, o padre da paróquia Jesus El Buen Pastor, de Francisco Solano, fala sobre a coalizão política Cambiemos, o Papa, Hebe de Bonafini, Jorge Casaretto, Cristina Kirchner e Milagro Sala

A entrevista é de Nora Veiras, publicada por Página/12, 05-06-2016. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Eis a entrevista.

O Bispo emérito de San Isidro (bairro de Buenos Aires), Jorge Casaretto, disse que Francisco via nos bispos melhores 'informantes' do que Hebe de Bonafini, para saber o que acontece na Argentina. Como você analisa esta afirmação?

Não sei se Casaretto falou alguma vez com Hebe de Bonafini para saber o que ela pensa e pode dizer, mas suspeito que não. Hebe não é a rainha da diplomacia. Agora, isso não lhe retira absolutamente nada. Creio que a atitude de Casaretto revela seu preconceito.

Duvido que Casaretto, que tem sido assessorado por Eduardo Serantes, por Gabriel Castelli - pessoas ligadas à oligarquia da soja, aos bancos, aos presidentes de empresas -, conheça a realidade argentina.

Também é surpreendente que tenha recorrido à palavra "informante", um termo infeliz, sendo muito benevolente.

É quase tão infeliz quanto a ocasião em que Macri usou duas vezes a palavra processo no Dia do Exército. Se existem vítimas e algozes, coisas que muitas vezes os bispos negam, Hebe carrega a voz das vítimas. Tenho a sensação de que Casaretto carrega a voz dos algozes.

Alguns colocaram o destaque no pedido de desculpas de Hebe ao Papa, pelo que ela havia dito sobre ele, mas não seria melhor o Papa ter pedido desculpas a Hebe como representante das vítimas na Argentina?

Creio que a maioria dos bispos - salvo exceções como Novak, Devoto, Hesayne, Angelelli- foram presos ao lado dos perpetradores. Que eles estejam falando de reconciliação é uma ironia, sarcasmo ou zombaria. Acho que Jorge Mario Bergoglio teve algumas coisas que não foram suficientemente felizes durante a sua época de ditadura. Não vou te dizer que ele tenha sido cúmplice ou delator, não tenho tantos dados para afirmar isso, mas creio que sendo ele provincial dos jesuítas, no caso de Jalics e Yorio, os dois padres que foram sequestrados na Escola de Mecânica da Armada, ele não foi feliz. Conversei com Yorio, acreditei nele, e disse isto a Bergoglio há muitos anos. Eu acho que em muitas coisas Bergoglio tomou medidas para se reconciliar com esse passado. Geralmente dizem que as autoridades não se desculpam, mas fazem gestos que estão sendo pedidos. Talvez convidar Hebe soe como se ele também quisesse se desculpar.

O que você acha sobre quando Macri anuncia o objetivo de Pobreza Zero?

Marcos Peña disse: "Não há crise de emprego na Argentina". Esteban Bullrich disse: "Não há problemas nas universidades". Jorge Triaca disse: "Não há problemas de trabalho." Patricia Bullrich disse: "Não há problemas de segurança." Eles vão dizer "não há pobreza".

E os meios de comunicação vão reproduzir isso...

Vão dizer: "Não existe mais pobreza na Argentina". É a política de negação da realidade. Uma das coisas que funcionam no discurso oficial é que dizem coisas que não condizem com a realidade, mas repetem e repetem. Está claro que nos bairros pobres se sente cheiro de tristeza. Ao vizinho que cobravam 80 pesos pela luz, agora cobram 700. Na luz, no gás... Todos têm parentes, amigos, conhecidos ou eles próprios, que ficaram sem trabalho, filhos que têm de retornar submissos à casa dos pais. Todo esse tipo de coisa começa a cheirar. Eles podem fazer a cabeça das pessoas com duranbarbismos (ideias de Jaime Durán Barba) mas não serão capazes de enganar seus estômagos. Achei muito interessante, excelente, a frase da revista La Garganta Poderosa a partir da apresentação feita pelo programa ShowMatch: "Se pode entrar a Pampita (Carolina Ardohain), também pode entrar o SAME (Sistema de Atenção Médica de Emergências)" em alusão às denúncias de resistência do serviço médico da Cidade de Buenos Aires para entrar nas vilas, o que custou mais de uma vida. Isso só pode ser dito ou pensado por alguém que esteja lá.

A Vice-presidente Gabriela Michetti disse que a evidente tensão entre o governo e o Papa se deve ao fato de Macri não ter sido capaz de explicar "face a face" qual é sua política...

Está claro que eles têm que representar o papel de bobos, mas não se pode ouvir tal absurdo de uma vice-presidente que parecera ler e escrever com dificuldade. É o que eles dizem para não admitir que estão perplexos com as atitudes do papa em relação ao governo. Olhe para as fotos do Papa com Hebe, depois, as fotos dele com Macri. Você verá um sorriso em um encontro e no outro não; você verá duas horas de reunião frente a 22 minutos da outra. O Papa sabe o que é o capitalismo neoliberal.

Os Bispos argentinos têm dito, seguindo o que postula o Papa, que não acreditam na teoria neoliberal. Isto é um sinal de uma postura mais crítica à política econômica em prática?

Os Bispos são uma combinação difícil de unificar. Dos cem bispos existentes na Argentina, sessenta deles já eram bispos quando Bergoglio era arcebispo de Buenos Aires, e Bergoglio teve reuniões com bispos que o odiavam, mais por terem um posicionamento de direita. Bergoglio podia ser o conservador popular e os outros podiam ser meio nazistas ou algo parecido. Todo esse setor do Episcopado não quer saber de nada com Bergoglio, mas não podem falar mal do Papa, porque eles ficam deslocados depois que falaram durante séculos da obediência ao Papa, por que os papas anteriores estavam de acordo. É interessante porque uma pessoa dá ouvidos a jornalistas, como Jorge Fernández Díaz ou Joaquín Morales Solá, ou editoriais do jornal La Nación que falam contra o Papa, e nenhum bispo saiu a dizer, pelo menos, não ter entendido o papa, para usar as palavras de Michetti.

Agora, esta coisa de marcar seu desacordo com a teoria neoliberal...

O Papa fala explicitamente desse assunto na Exortação Apostólica sobre a Alegria do Evangelho.

Você disse que se Macri tivesse dignidade, teria que haver renunciado e alguns ficaram escandalizados.

Foi uma história inventada, porque me perguntaram o que eu diria se estivesse cinco minutos na presença do Presidente. Como vou pretender que muitos meios de comunicação saiam a falar criticamente dos Panama Papers se o La Nación e o Clarín estão nas páginas dos Papéis do Panamá. Se trata de resguardar suas próprias costas.

Agora praticamente há de se agradecer a Macri porque vai trazer ao país 18 milhões de pesos que não havia declarado.

Casualmente, também deu 18 milhões para as Scholas Occurrentes promovidas pelo papa. Tudo para o bem dos pobres aposentados que eles dizem que irão financiar com dinheiro de lavagem e qualificam como a maior política social nos últimos 20 anos. Eu havia jurado que gerar trabalho era uma política social.

O encontro de vocês com Cristina Kirchner reativou as críticas contra sacerdotes que fazem a política, como eles lidam com isso?

A nossa ideia era saber como ela pensava a sua Frente Cidadã (Frente Ciudadano em espanhol), não nos apresentamos como candidatos a nada. Eu não sabia que se encontrar com um político é fazer política. Por exemplo, um padre amigo próximo trabalha em Tigre, e por razões institucionais tem várias fotos com Sergio Massa. Ninguém nunca lhe havia dito nada, mas agora que apareceu na foto com Cristina, disseram-lhe de tudo um pouco. Há muitos padres que se reúnem com prefeitos e governadores. Os bispos podem se reunir com um presidente e eu não posso.

Dessa maneira, não se qualificam na teoria Casaretto.

Nós simplesmente queríamos falar com Cristina sobre a Frente Cidadã e se ela achava que, como sacerdotes, havia algo que poderia ser pensado nesta linha. Especialmente porque se baseava na igualdade e na liberdade, eixos que, ao que me parece, nem o bispo mais fechado se negaria a pensar que, a partir do nosso lugar de padres, poderíamos acompanhar as pessoas em sua direção. Aqueles que tomam uma postura opositora, que é uma postura política, foram criticados, e vários padres do nosso grupo sofreram com ações pouco cristãs dos outros sacerdotes. Eles, sim, querem seguir aprofundando o buraco.

No caso de Milagro Sala vocês também se pronunciaram imediatamente pela libertação de uma prisioneira política e o Papa gerou surpresa ao enviar-lhe um rosário. Como você analisa a indiferença de grande parte da liderança política?

O governador Gerardo Morales, um homem eloquente, disse que o Papa interfere na política da província, mas eu pensava que era o Poder Judiciário independente...O que temos muito claro é que todas as pessoas são inocentes até que se prove o contrário. Aqui diziam que Cristina queria ser deputada do Parlamento do Mercosul para ter privilégios e ao mesmo tempo aqui você tem uma deputada do Parlasul que ​​está presa ilegalmente. Enquanto não se comprova um crime, Milagro Sala havia de estar livre, diz a Constituição Nacional a partir da incorporação dos Pactos de Direitos Humanos. Penso que há aqui uma intolerância absoluta contra uma mulher que produziu obras absolutamente maravilhosas para as pessoas pobres da província, mais do que fez o governo anterior e, claro, este governo desgovernado de Morales. Está claro que não há igualdade ou justiça.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Argentina. "Nos bairros pobres se sente cheiro de tristeza". Entrevista com Eduardo de la Serna - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV