Argentina: Governo, Igreja e o casamento gay. Entrevista especial com Eduardo de la Serna

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04 Agosto 2010

A aprovação do casamento gay na Argentina deixou claro o quanto de influência a Igreja perdeu no país. Se antes, ela era consultada sobre leis e governantes, hoje precisa entender os novos tempos. A IHU On-Line entrevistou, por telefone, o padre Eduardo de la Serna, que falou sobre a forma como a Igreja lutou contra o casamento gay e suas relações com o governo Kirchner. “Este governo, estando em um espaço diferente do que ocupa a Igreja, era mais permeável às mobilizações do movimento gay. Outros governos buscavam estar bem ela, mas o atual governo busca estar bem com a sociedade”, apontou o sacerdote. Ele descreve o discurso da Igreja como fundamentalista, devido ao fato de se ter mantido, em relação ao casamento homossexual, “extremamente fechada e nada aberta ao diálogo”.

Eduardo de la Serna escreve para o jornal Página 12. Também é professor de Teologia no Instituto Superior de Estudos Teológicos de Buenos Aires e no Instituto de Formação Teológica da Diocese de Quilmes. É coordenador nacional do Grupo de Sacerdotes de Opção pelos Pobres, uma continuação do movimento de "Sacerdotes do Terceiro Mundo", dissolvido em 1973 pela repressão militar da Argentina.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em relação à aprovação do casamento gay, como o senhor analisa a questão de a Igreja ter ido à praça pública defender sua posição contra esse projeto e, ainda assim, sabendo que ela sempre teve muita influência no governo, ter perdido a questão?

Eduardo de la Serna – A Igreja Argentina sempre se caracterizou por ser tradicionalista e conservadora. E

Cardeal Jorge Mario Bergoglio, Arcebispo de Buenos Aires e Primaz da Argentina

quando o tema do casamento gay foi proposto, ela não soube atender aos desafios dos tempos e apenas respondeu com dogmas e citações bíblicas lidas de modo fundamentalista. No entanto, a repercussão não foi positiva entre a sociedade por que não sentiu que estivessem falando com ela. Acredito que a Igreja argentina escolheu, desta forma, perder.

Acredito que o projeto, neste momento, passou porque foi apresentado por um grupo de senadores de centro-esquerda que defendiam o direito dos homossexuais de se casar. Houve muitos casos em que estes foram renegados por seus familiares e, depois, foram morar com seus companheiros. E quando um deles morria, o outro não tinha direito à herança, principalmente quando a família requer seus bens. Essa é uma das questões que a sociedade tem levantado.

IHU On-Line – Podemos dizer que houve uma luta política entre o cardeal de Buenos Aires e o governo Kirchner?

Eduardo de la Serna – Não sei se há uma luta política, mas a sensação que tenho, e pode ser que eu esteja absolutamente equivocado, é que o cardeal de Buenos Aires, com toda a sua história, vem, aparentemente, da direita peronista. Já o governo atual está mais próximo da esquerda peronista. Então, parece que eles ainda não conseguiram superar os antagonismos dos cantos da década de 1970. O canto popular da direita peronista dizia: “Perón, Evita, la pátria peronista”. E “Perón, Evita, la pátria socialista” era o que cantava a esquerda peronista. Esses cantos causaram uma grande divisão que trouxe muitas lutas e mortes para o país. Penso que esse tipo de coisa faz parte da tensão que coloca o cardeal de um lado e o atual governo de outro.

IHU On-Line – Como que o movimento gay se articula na Argentina?

Eduardo de la Serna – Eu realmente não conheço o movimento gay em geral, nem conheço gente que profundamente conheça o mundo gay. Mas o que o movimento fez foi sensibilizar a opinião pública com respeito a um direito que consideravam poder conquistar nesse momento. Está claro que a pressão que exerce o episcopado sobre a sociedade e o governo é forte. Este governo, estando em um espaço diferente do que ocupa a Igreja, era mais permeável às mobilizações do movimento gay. Outros governos buscavam estar bem com a Igreja, mas o atual governo busca estar bem com a sociedade.

IHU On-Line – O senhor e mais um grupo de padres questionaram a Igreja em relação a sua posição intransigente sobre o tema do casamento gay...

Eduardo de la Serna – Nós não nos manifestamos a favor, apenas fizemos algumas perguntas porque nos parecia absolutamente pobre e insuficiente a pressão e as premissas que a Igreja fez utilizando uma leitura fundamentalista que não respeitava a consciência de deputados e senadores. A posição da igreja foi extremamente fechada e nada aberta ao diálogo. Uma das leituras fundamentalistas era de que Deus nos fez homens e mulheres com a necessidade de identificar o casamento com procriação da espécie. Nós questionamos os argumentos que foram colocados pela Igreja, porque eles não construíram um debate profundo sobre o tema.

Alguns bispos foram muito críticos em relação às nossas opiniões. Inclusive um padre de Córdoba [1] foi tirado de sua paróquia e se iniciou um processo canônico. Isso foi algo muito estranho por que há sacerdotes que foram condenados pela justiça civil por pedofilia ou pederastia ou ainda por participação nos crimes contra os direitos humanos durante a ditadura militar e, apesar disso, continuam celebrando missa.  

IHU On-Line – Como o senhor analisa a força política que a Igreja tem hoje na Argentina?

Eduardo de la Serna – Neste momento, a Igreja não tem uma grande força política. Os bispos têm nostalgia daquele tempo quando tinham poder em relação ao governo. Os bispos eram consultados antes de se aprovar leis, antes de indicar um ministro da educação. Parece-me que os bispos sentem falta do tempo em que falavam e a sociedade inteira os escutava.

IHU On-Line – E que outros temas colocam, neste momento, a Igreja em conflito com o governo?

Eduardo de la Serna – Há alguns temas que estão pendentes, como o caso do bispo castrense. Suas torpes declarações, feitas há algum tempo, fizeram com que o governo, quando o bispo se aposentou, não tivesse indicado outro para seu lugar e, até hoje, o bispado castrense está sem bispo. Este é um tema que também evidencia a distância que há entre o atual governo e a Igreja. Mas há muitas pessoas que estão de acordo com essa distância.

IHU On-Line – E qual é a posição de outras religiões na Argentina em relação ao casamento gay?

Eduardo de la Serna – Quando o casamento gay estava para ser votado, houve muitas manifestações das igrejas pentecostais que foram críticas. Eles organizaram uma marcha junto com a Conferência Episcopal Argentina, que foi realizada um dia antes da votação. A intenção da mobilização era pressionar os senadores, obviamente. Cerca de 50 mil pessoas participaram da manifestação, o que, pensando na população argentina, não é um grande número.

Houve uma participação, mais minoritária, do seminário islâmico e de muitos rabinos, ainda que alguns rabinos tomassem posição a favor do casamento entre homossexuais. Nesse sentido, houve atitudes que classifico como uma discussão entre o fundamentalismo e o não fundamentalismo.

Estamos vivendo um momento no qual a Igreja, e eu sou parte dela, em geral, tem que se acostumar que as coisas não são mais como antes. A Igreja precisa começar a propor ideias que nasçam a partir da credibilidade que tem diante da sociedade e não do poder que exercia sobre ela.

Notas:

[1] José Nicolás Alessio, 52 anos, é pároco de San Cayetano, no bairro Altamira da capital cordobense. Como é favorável ao casamento gay e afirmou abertamente tal posição, o arcebispo de Córdoba, monsenhor Carlos José Ñañez suspendeu o padre de forma cautelar do exercício público do ministério sacerdotal até a conclusão do processo eclesiástico movido contra José em função de sua defesa.

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