Em livro, FHC descreve pressão de Temer por cargos: algo “cheira mal”

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17 Maio 2016

Michel é discreto, tímido, não é uma pessoa de audácia”. Atualmente a frase soaria ingênua, tendo em vista todas as acusações de conspiração cercam o presidente interino do país após o afastamento de Dilma Rousseff pelo Senado. Mas foi assim, após uma conversa realizada em 18 de janeiro de 1997, que o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) descreve o deputado federal Michel Temer (PMDB-SP). Poucos meses depois, já eleito para a presidir a Câmara, o peemedebista mostra um perfil diferente: agressivo, ele e aliados pressionam FHC para tentar emplacar nomes em cargos do primeiro escalão do Planalto. Políticos do núcleo duro do atual Governo (como os recém empossados Geddel Vieira, secretário de Governo e Eliseu Padilha, da Casa Civil) também são personagens das tramas palacianas descritas por FHC no livro Diários da Presidência Volume 2 – 1997-1998 (Companhia das Letras), que será publicado na semana que vem. A avidez dos parlamentares do PMDB faz com que o presidente registrasse em suas memórias que algo “está cheirando mal”.

A reportagem é de Gil Alessi, publicada por El País, 17-05-2016.

Em um trecho do livro com data de 26 de abril de 1997, FHC descreve o modus operandi das negociações com Temer: “O PMDB entrou em nível de chantagem (...) o Michel Temer (...) parece que ele quer nomear esse rapaz [Eliseu] Padilha, por quem tenho simpatia, mas parece que está havendo aí um lobby muito forte, e isso já torna a nomeação mais perigosa”. Três dias depois, nova investida dos correligionários de Temer para emplacar Padilha no ministério dos Transportes, o que reforça a suspeita do presidente de que algo “cheira mal”: “O Sérgio Motta (PSDB) foi a uma reunião na casa do Michel Temer, numa festa, e lá o Geddel, o líder do PMDB [na Câmara], dizia que se o Sérgio quisesse [aprovar] o FEF [Fundo de Estabilização Fiscal] tinha que nomear logo o ministro, tem que ser o Eliseu Padilha, uma coisa explícita. Eu já tinha decidido que não vou nomear Eliseu Padilha, (...) porque esta pressão está cheirando mal. Até tenho simpatia pelo Eliseu, mas do jeito que as coisas estão se colocando isso está mau”.

Frustrado, FHC desabafa, e cogita botar “esse rapaz que o Temer quer [Padilha] na Justiça”. Pouco depois, o tucano emenda: “É o fim desse sistema político corroído. Se ele não está corrompido, está corroído”. Posteriormente, o PMDB vence a queda de braço com o presidente, e Padilha é empossado nos Transportes. A ‘fatura’ não tarda a chegar: “Tive uma reunião com Padilha para discutirmos o orçamento do ministério (...). Ficou bem claro que o PMDB não digo que se condicione, mas se motivará na votação da CPMF [que FHC tentava aprovar] (...) se houver uma aprovação neste tributo que garanta recursos ao ministério dos Transportes”.

Padilha não foi o único aliado que o grupo de Temer tentou emplacar. Em 17 de junho de 1997, FHC relata que um político próximo “foi procurado pelo Michel Temer, pelo Jader Barbalho e pelo Geddel, que querem mudar o diretor do departamento de presídios do Ministério da Justiça”. O presidente afirma então que o pedido lhe causou estranheza: “me pareceu um tanto estranho porque três dos principais líderes do PMDB queiram mudar um posto tão baixo e no qual existem licitações. Não quero me antecipar com maledicências, mas me deu uma ponta de preocupação”. Mais à frente, FHC descreve o método de barganha dos peemedebistas: “O Geddel e o PMDB fizerem uma espécie de imposição: ou se nomeava o diretor do DNER [Departamento Nacional de Estradas de Rodagem] de Minas ou não me dariam os votos. A coisa de sempre”.

Grampos de Cunha

Outro personagem importante do atual cenário político também é mencionado por FHC em seu livro. O deputado afastado pelo Supremo Tribunal Federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ), maior artífice do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, é acusado pelo mandatário tucano por ter orquestrado um esquema de grampos na presidência do BNDES. Foi um dos maiores escândalos ocorridos no Governo de FHC, revelado pelo jornalista Elio Gaspari em 8 de novembro de 1998. Agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) teriam instalado grampos telefônicos para monitorar conversas da cúpula do Banco às vésperas da privatização das empresas do Sistema Telebrás. Os áudios evidenciaram um esquema para favorecimento do consórcio organizado pelo banco Opportunity, de Daniel Dantas. Em algumas das gravações o próprio Fernando Henrique aparece conversando com o então presidente do BNDES, André Lara Resende.

“A Informação que me foi dada é que as tais fitas teriam sido gravadas pelo Eduardo Cunha, antigo presidente da Telerj no tempo do Collor”. Mais à frente, FHC, faz novamente a mesma acusação, com a ressalva de que “não há provas” para embasar sua afirmação. “Infelizmente o que eu sei não é transmissível, porque não há provas, mas há envolvimento até do serviços de informações [SSI e Abin] com aquele Eduardo Cunha e venda desse material ao interessado, que depois o usou para fazer o estrago que fez”.

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