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11 Abril 2016

"Em outro sentido, no entanto, Amoris Laetitia representa um avanço de grandes consequências, porque, pela primeira vez em um documento vaticano, o que foi enunciado não fora simplesmente o que diz a lei, mas também houve um espaço para a prática pastoral – que é onde entra em cena a capacidade há muito descreditada da Igreja quanto à compaixão."

O comentário é de John L. Allen Jr., jornalista, em artigo publicado por Crux, 08-04-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Um dos títulos das palestras que venho proferindo nos circuitos católicos foca-se na lacuna cultural entre o Vaticano e os EUA. Eu às vezes as intitulo “Roma é de marte, e os EUA são de Vênus”, pois eles parecem estar em planetas diferentes.

Uma área em que a lacuna cultural fica especialmente em evidência é no contraste das atitudes relativas ao direito e às leis.

Para os americanos, e talvez para os anglo-saxões em geral, o direito é o denominador comum da moralidade civil. É o que esperamos que todos façam, em todos os momentos, e se uma lei está sendo desobedecida amplamente, para nós ela está em crise – iremos ou revogá-la ou lançar uma nova ofensiva, mas não podemos continuar convivendo com as pessoas fazendo exceções à vontade.

Para as culturas mediterrâneas, que ainda moldam o pensamento mundial do Vaticano a um grau significativo, o direito se parece, pelo contrário, mais como um ideal. Ele descreve uma aspiração moral, mas na prática entende-se que muitas pessoas, na maior parte do tempo, ficarão aquém.

Uma frustração que há tempos vivo na qualidade de jornalista americano que cobre o Vaticano é que, quando o papa ou algum departamento vaticano emite uma nova lei, ela frequentemente aparece na cobertura da imprensa e na discussão pública como algo draconiano e severo. É difícil explicar que implicada dentro da legislação está a expectativa de que os bispos e pastores irão fazem uso do bom juízo na aplicação dela de modo que reflita as suas circunstâncias locais.

É difícil principalmente porque o Vaticano nunca diz explicitamente esta segunda parte: talvez pelo medo de que isso acabe levando à hipocrisia.

Eles normalmente não dizem isso, quer dizer, até agora.

Um ponto surpreendente em Amoris Laetitia, a exortação apostólica do Papa Francisco sobre a família lançada em uma coletiva de imprensa no Vaticano hoje (sexta-feira, 08-04-2016), é que ela traz esta capacidade católica de flexibilidade para a prática pastoral e a coloca diretamente ao lado do direito para a visão do público.

Ainda que o texto de 264 páginas trate de uma ampla variedade de tópicos, o interesse geral inicialmente focar-se-á sobre o que Francisco diz no capítulo oitavo a respeito da Comunhão para os divorciados e recasados no civil, visto que foi este o tema candente nos dois Sínodos dos Bispos, em 2014 e 2015.

Em outras palavras, o papa não cria nenhuma lei nova sobe o assunto tampouco ab-roga qualquer lei existente.

O que ele faz, no entanto, é pôr uma ênfase na prática pastoral da aplicação das leis, insistindo que os pastores devem se engajar em um processo cuidadoso de discernimento com respeito a casos individuais, que não são todos iguais, e ajudar as pessoas a chegar a decisões conscientes sobre o modo como a lei se aplica a suas circunstâncias.

Isso fica claro nas notas de rodapé do documento (para ser exato, na nota n. 336), em que o pontífice diz: “E também não devem ser sempre os mesmos na aplicação da disciplina sacramental”.

Com efeito, o que ele está dizendo é que podem existir casos em que um determinado fiel divorciado e recasado, após resolver as coisas junto a um sacerdote, poderia se justificar quanto à decisão de que ele não carrega a culpa que o exclui dos sacramentos, incluindo a Sagrada Comunhão.

Na verdade, isso pode não alterar muita coisa em termos práticos na Igreja.

Por um lado, esse tipo de adaptação pastoral, chamada às vezes de “foro interno”, já está acontecendo. Em muitas paróquias, pode-se encontrar fiéis divorciados e recasados que participam da Comunhão, e muitos pastores têm até mesmo encorajado-os, discretamente, a assim fazer ou, e pelo menos, não os têm abandonado, escolhendo respeitar a decisão que eles próprios – os fiéis – tomaram em consciência.

Por outro lado, a linguagem em Amoris Laetitia sobre a questão da Comunhão é suficientemente elástica a ponto de que ambos os lados no debate podem se consolar, quer dizer: aqueles sacerdotes e bispos inclinados a uma leitura mais restrita do direito canônico irão, provavelmente, se sentir compelidos a revisar o que pensam, e o mesmo acontece com os que fazem uma leitura mais flexível dele.

Em outro sentido, no entanto, Amoris Laetitia representa um avanço de grandes consequências, porque, pela primeira vez em um documento vaticano, o que foi enunciado não fora simplesmente o que diz a lei, mas também houve um espaço para a prática pastoral – que é onde entra em cena a capacidade há muito descreditada da Igreja quanto à compaixão.

Em outras palavras, o que o Papa Francisco fez é deixar o resto do mundo entrar em um dos segredos mais bem guardados da Igreja Católica: Sim, a Igreja possui leis, e ela as leva muito a sério. Mas, além de leis, ela tem pessoas de carne e osso, e ela leva a sério também as circunstâncias e lutas dessas pessoas.

A certa altura, Francisco escreve que os divorciados e recasados podem se encontrar em situações “que não devem ser catalogadas ou encerradas em afirmações demasiado rígidas, sem deixar espaço para um adequado discernimento pessoal e pastoral”.

Na prática, esse vem sendo o espírito das coisas na Igreja desde sempre, em maior ou menor grau dependendo da época e do lugar. Mesmo assim, de alguma forma soa como uma novidade – uma novidade importante – ouvir um papa dizê-lo em voz alta.

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