Igreja americana de olho no potencial do “foro interior”

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11 Janeiro 2016

No fechamento do Sínodo dos Bispos sobre a família no dia 24 de outubro passado, o National Catholic Reporter informou que o documento final do encontro “recomendava suavizar a prática católica para com os divorciados e novamente casados”.

A reportagem é de Elizabeth A. Elliott, publicada por National Catholic Reporter, 06-01-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Os três parágrafos no documento que lidam com esta questão “parecem mover, em níveis significativos, a tomada de decisão sobre como [os fiéis divorciados e recasados] podem participar na Igreja para diálogos privados nas dioceses ao redor do mundo”, lê-se na notícia publicada à época.

O próprio documento dizia: “O diálogo com o sacerdote, no foro interior, contribui para a formação de uma decisão acertada sobre o que está bloqueando a possibilidade de uma participação mais plena na vida da Igreja e sobre os passos que podem fomentar esta participação e fazê-la crescer”.

Ao fazer uso do “foro interior”, diz o documento, os sacerdotes podem ajudar os fiéis recasados a “tornarem-se cônscios da situação em que se encontram diante de Deus” e, em seguida, decidir sobre como seguir em frente.

A reportagem do National Catholic Reporter, no entanto, também salientou que a ambiguidade no texto final significava que interpretações diferentes poderiam igualmente surgir.

Foi isso o que encontramos ao entrevistar padres e funcionários da Igreja que trabalham junto aos fiéis casados e com aqueles que se divorciaram e casaram novamente.

Dependendo de quem responde:

• o foro interior pode não ser necessário se acaso o processo de anulação matrimonial for facilitado;

• outros estão à espera de o papa emitir um documento final;

• alguns retornam as dúvidas diretamente aos pastores;

• uma formação se fará necessária caso a implementação do foro interior começar a vigorar.

O Pe. James Coriden, professor aposentado de Direito Canônico na Washington Theological Union, descreve o foro interior como um “processo de tomada de decisão moral em vez de um processo canônico ou jurídico aos que vivenciaram a tragédia do divórcio e chegaram a um sentimento de arrependimento e desejo pelos sacramentos, a pesar do fato de que estão em um segundo relacionamento e que não podem ou não vão se valer do processo de anulação”.

O Pe. Robert Ruhnke, diretor do programa online Marriage Preparation Resources, acredita que o foro interior é uma ferramenta útil. Ele falou ao National Catholic Reporter sobre como seria um foro interior:

Carl e Elizabeth eram um casal na década de 1980 e quiseram que o seu divórcio fosse validado, pois já haviam sido casados anteriormente. Não havia nenhuma testemunha para se apresentar em um processo de anulação e Carl e Elizabeth receberam a garantia de que tudo ficaria bem. Conseguimos para eles um certificado de casamento católico e eles continuaram com suas vidas normalmente”.

Um outro exemplo que ele usa é o de Frank e Sue, que se divorciaram e se casaram com outras pessoas. Eles não tiveram um certificado de anulação. Frank e a sua segunda esposa se engajaram nos trabalhos da Igreja e queriam receber a Comunhão.

Falaram com um sacerdote sobre a situação. “Ele e a sua nova esposa estão recebendo a Comunhão e ninguém está fazendo perguntas”, disse Ruhnke. “Frank disse ficar em dúvida quanto à vinda de um novo padre e se isso não acabaria criando problemas. Eu lhe disse que tudo o que o novo sacerdote vai saber é que ele, Frank, é bastante envolvido na paróquia”.

Alguns afirmam que, se o processo de anulação for facilitado, o emprego do foro interior pode não ser relevante.

“Parece que uma das coisas que eles vão fazer é tornar o processo de anulação mais eficiente”, declarou Ruhnke.

Peg Hensler, diretora associada do Departamento de Juventude, Matrimônio e Vida em Família da Diocese de Trenton, Nova Jersey, falou que espera que o processo de anulação melhore. Segundo ela, “qualquer coisa que venha a auxiliar as pessoas a passar por este processo doloroso e difícil vai, no final, ser muito melhor para os próprios indivíduos”.

Kevin Eckery, porta-voz da Diocese de Sacramento, Califórnia, disse que a maioria das dioceses estão formulando diretrizes baseadas nos documentos vaticanos no que diz respeito às anulações, e não considerando o foro interior.

O Pe. Michael Ryan, pastor da Catedral St. James, em Seattle, durante 27 anos, tem trabalhado com casais lançando mão do foro interior. “Sempre tentei fazer o melhor uso das leis da Igreja, as quais podem ser úteis, misericordiosas e mesmo libertadoras aos que passam pelo processo externo de anulações. Mas, para alguns casos, é simplesmente um processo de punição e, por vezes, termina em nenhum”.

Dom George Murry, da Diocese de Youngstown, Ohio, participante do Sínodo 2015, contou ao National Catholic Reporter que tem “incentivado as pessoas em casamentos irregulares a utilizarem o processo de anulação inaugurado pelo Papa Francisco”.

Algumas dioceses contatadas por nossa equipe estão esperando o documento final do papa a respeito do assunto. Lisa Arriazola, assistente do diretor de tribunal na Arquidiocese de San Antonio, disse que o Mons. Terry Nolan, vigário judicial, não recebeu telefonemas sobre o foro interior.

“Esperamos receber telefonemas querendo falar sobre o assunto”, disse. “No entanto, até que o Santo Padre publique o seu documento, aqui não iremos dar nenhuma informação sem estarmos certos das mudanças”.

O mesmo é verdadeiro na Diocese de Brownsville, Texas, onde o Pe. Oliver Angel, diretor do Tribunal Diocesano e Jurídico, disse que estão igualmente esperando pelas orientações finais do Vaticano.

Na Diocese de Helena, Montana, o Pe. John Robertson, vigário judicial, informou que não recebeu telefonemas, mas que se tivesse recebido, “iríamos retorná-la ao pastor local”.

Independentemente das novas orientações a vir de Roma, será preciso um certo tempo para formar os sacerdotes e ministros. O assunto foi ensinado nos seminários no passado, ainda que Ruhnke suspeite que ele não vem sendo trabalhado ultimamente.

“Quando estávamos o seminário, aprendíamos um monte sobre o foro interior”, disse. “Há muito tempo atrás esse assunto era mais importante, quando não havia a opção pela anulação”.

Segundo ele, nas décadas de 1960 e 1970, as anulações estavam começando a acontecer e o bispo de Beaumont, Texas, escreveu uma carta incentivando os sacerdotes a olharem para as pessoas nessas situações e ajudá-las a se reconciliarem com a Igreja via foro interior.

“Num congresso nacional de orientadores de família, dois ou três anos atrás, um canonista afirmou que não tinha necessidade para o foro interior”, contou Ruhnke. “Ao mesmo tempo, ficou mais fácil abrir um processo jurídico”.

Coriden disse que o foro interior era ensinado em alguns seminários e não em outros, “já que era um daqueles processos morais disputados”, como se alguém confessasse usar métodos contraceptivos.

“Os ensinamentos em coisas como essa variam de lugar para lugar”.

Ryan declarou que os que foram ordenados nos últimos 30 anos têm uma mentalidade diferente e podem não estar dispostos a abraçar o foro interno. “Se acaso a Igreja for adotar essa prática, então deve dar a essas pessoas os passos para a compreensão de como ele funciona e abrir suas mentes”, disse.

“Se o foro interno é verdadeiramente algo que tem um lugar na vida da Igreja, e os bispos parecem estar dizendo exatamente isso. Então deveríamos ajudar a despertar as pessoas para isso”, acrescentou.

O Pe. Thomas McCarthy, sacerdote da Diocese de Warren, Ohio, contou ao National Catholic Reporter que os bispos locais podem preparar os pastores para usar o foro interno – reconhecendo que ele fez parte da prática durante anos – e falar sobre o assunto nos eventos clericais ou em grupos de apoio ao clero.

“O que se incentiva um clérigo a fazer é ele ajudar um casal a explicar a sua situação para eles e que é eles que precisam tomar uma decisão”, falou. “Trata-se de uma escolha individual e a pessoa precisa olhar conscientemente para o seu estado e a sua situação, ela precisa olhar para aquilo que escolher fazer e pensar ser o certo diante de Deus”.

Segundo Ryan, quando era jovem sacerdote, ele não teve formação sobre foro interno. “Esse assunto vinha sempre por parte dos canonistas com tendência pastoral, aqueles que percebiam as limitações do sistema”.

Ryan disse pensar que os sacerdotes de sua geração, formados no Concílio Vaticano II, “já têm os insights pastorais disso que está vindo do Sínodo. O que daí vem se adequa ao nosso modo de pensar. Está em consonância com o que pensamos ser o certo durante todo esse tempo”.

Ele disse que não é que eles estejam em falta com o que dizem os códigos legislativos, e sim que “tentamos é nos envolver com as pessoas e perceber que existe algo em torno da primazia da consciência quando tudo está dito e feito”.

Ao National Catholic Reporter, Hensler contou ter feito alguns trabalhos nessa área quando trabalhava em sua dissertação de mestrado, e que aprendeu de um sacerdote da diocese onde morava que lhe disse que “tudo tem de ser feito no foro externo. Não há nada como uma tal solução de foro interno reconhecido na sua jurisdição eclesiástica. Isso foi a poucos anos atrás e que nada de novo com este Sínodo mudaria esta situação”.

Hensler disse também que o seu objetivo, na qualidade de responsável pelos ministérios matrimoniais, é que “todos tenham condições de viver a alegria profunda do matrimônio sacramental e a graça que recebemos dele”.

“Não quero que ninguém esteja impedido de se casar ancorado no sacramento. O meu objetivo é ajudar as paróquias a identificar os casais em situações irregulares e convidá-los para o diálogo e ver o que acontece, se há alguma forma em que podemos ajudá-los a passar por este processo”.

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