Cardeal Pell, os abuso e a mentalidade a mudar

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04 Março 2016

Enquanto o merecido sucesso do filme "Spotlight" reacendia os holofotes sobre a triste história da cobertura recebida, por décadas, pelos padres pedófilos seriais, na diocese de Boston, uma das mais importantes dos EUA, o Cardeal George Pell, “ministro da economia” do Vaticano, continuava seu depoimento à distância, diante da Royal Commission do Governo Australiano.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 02-03-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Nas últimas horas, novas notícias do exterior: um relatório do júri afirmava que o bispo emérito de Altoona-Johnstown, Joseph V. Adamec, e seu antecessor, James J. Hogan, cobriram os abusos sofridos por menores nos últimos quarenta anos. Crimes de ao menos cinquenta sacerdotes ou religiosos teriam sido sistematicamente escondidos para proteger a imagem da Igreja.

Mais sombras inquietantes emergem do passado e relatam sempre a mesma história, a mesma que vai para o ar na videoconferência com a Royal Commission Australiana: bispos que sabiam e calaram, para não aumentar o escândalo. Padres pedófilos seriais transferidos de paróquia em paróquia, sem que os que deviam pará-los o fizessem.

Uma capa de silêncio, de cumplicidade, de geral subestimação. E o que é pior, uma total falta de sensibilidade com as vítimas destes “sacrifícios diabólicos”, como os definiu, sem meios termos, dias atrás, o Papa Francisco, no voo de retorno do México.

Ora, até agora, não apareceu nenhuma “pistola fumegante” contra o Cardeal Pell. Não há testemunhos irrefutáveis das quais emerja que o homem chave das finanças do Vaticano tivesse conhecimento dos abusos cometidos pelo padre pedófilo serial Gerald Ridsdale, e do fato que este viesse acobertado pelo bispo de Ballart, Ronald Austin Mulkearns.

Pell, como sacerdote e colaborador de Mulkearns, tomou parte numa reunião em 1982, durante a qual foi decidida a transferência, pela sexta vez, do pedófilo Ridsdale, mas continuou a sustentar que estava ao escuro das verdadeiras razões da transferência, porque o bispo as teria reservado para si.

“Não tinha razões para suspeitar do mal que Ridsdale perpetrava”, afirmou o Cardeal, suscitando reações indignadas das vítimas, “não tinha conhecimento das razões da transferência”. Os juízes da Royal Commission, a respeito disso, não parecem muito propensos em acreditar, e afirmam que “Pell não podia não saber”: afirmação que permanece fraca do ponto de vista jurídico.

Pell, que jurou sobre a Bíblia de dizer toda a verdade, repete de não ter tido conhecimento das responsabilidades de Ridsdade e, até agora, não apareceram evidências capazes de desmenti-lo.

Estes fatos e estas acusações não eram ignoradas pela Santa Sé. Não é mistério que Bento XVI tivesse chamado o purpurado australiano de Sidney para Roma já em 2010, como Prefeito da Congregação para os Bispos, o dicastério que colabora com o Papa na nomeação dos bispos das dioceses.

Mas, por causa destes fatos, foi colocado o canadense Marc Oullet, pois mesmo sem acusações comprovadas e precisas contra Pell, isto complicaria de qualquer jeito seu papel de selecionar novas hierarquias para a Igreja católica. A ausência até agora, de responsabilidades precisas não torna menos desconfortável o quadro, e vai bem além da pessoa do Cardeal Pell. Mais uma vez estamos diante de uma realidade tremenda.

Estamos diante de bispos, que como no caso de Mulkearns, e agora dos dois prelados estadunidenses, colocados sob acusação pelo grande júri, pois ao invés de proteger as vítimas – meninos e meninas inocentes, violados na alma, “consumidos”, selados por toda vida com pesos insustentáveis – protegeram os carnífices, permitindo que continuem com seus atos imundos.

É conhecido e repetido, nestas horas, que a Igreja tomou consciência do fenômeno, com bastante atraso, mas fez uma limpeza. Isto é verdade com relação a normas, a leis. Bento XVI, que como Cardeal teve que engolir alguns sapos, impossibilitado de agir, devido cobertura oferecida pela corte wojtyliana (o caso Maciel docet), depois de tornar-se Papa, estabeleceu uma legislação de emergência. Deste ponto de vista, como instituição, a Igreja católica, que embora nunca tenha tido a triste exclusividade, nem o triste primado sobre este problema, agiu com firmeza e determinação.

Mas tem mais coisas. Tem o que emergiu nos acontecimentos destes dias, que vai além da responsabilidade ou falta de responsabilidade pessoal deste ou daquele prelado. As leis e as normas não são suficientes, se não mudar a mentalidade. Se os bispos não compreenderem que devem ser e comportar-se como pais, antes de tudo com relação às vítimas.

Se não compreenderem que o bom nome da Igreja não se salva escondendo, minimizando, dissimulando. Salva-se agindo, colocando os acusados em situação de não mais causarem danos, enquanto esperam a verificação das acusações. Salva-se demonstrando paternidade, proximidade, acolhimento, assistência às vítimas e às suas famílias.

Não basta citar estatísticas, para afirmar que a maior parte dos abusos sobre menores ocorre na família e que o fenômeno, de todos os modos, interessa transversalmente tantas diferentes comunidades religiosas. O Papa Ratzinger, atraindo as críticas, até então submersas, de muitos que se diziam “ratzingerianos”, teve a coragem de mostrar o vulto de uma Igreja “penitencial”, consciente de que o mais grave e terrível ataque contra ela vinha de dentro, do pecado em seu interior, e não dos ataques externos.

Que a mentalidade ainda não mudou e que há muito trabalho ainda a ser feito, o demonstram os fatos de crônica. Para ficar na Itália, onde o clericalismo é mentalidade radicada e onde se gostaria de fazer crer que o fenômeno quase não existe, basta citar o caso ocorrido no último mês de dezembro – não dezembro de 1970! – numa diocese do Sul e divulgado nos jornais locais.

Um padre foi abordado pela polícia italiana com um jovem no carro. Descobriu-se que os abusos aconteciam há anos e que o sacerdote havia apresentado há muito tempo as demissões da paróquia. Foram divulgadas interceptações telefônicas nas quais se ouve o bispo, consciente das acusações e das investigações, tranquilizando o padre. É verdade, as normas existem. É preciso bispos que as apliquem.

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