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Nada há oculto que não seja revelado. Reflexões sobre o filme “Spotlight”

“É recomendável para os crentes assistir “Spotlight”, já que permite compreender o verdadeiro alcance da questão da pedofilia na Igreja católica. É verdade que para aqueles que se opõem à presença da fé na vida pessoal ou pública, o filme oferece amplos argumentos para confirmar seu posicionamento diante da corpulência dos fatos. Contudo, também oferece um exercício de purificação necessário para nós que vivemos a fé em Jesus Cristo, a partir da Igreja”, escreve Peio Sánchez Rodríguez, sacerdote e professor de teologia, com especialização em educação audiovisual pela Universidade Pontifícia de Salamanca e doutorado em teologia dogmática pela Universidade Salesiana de Roma, em análise publicada por Religión Digital, 01-02-2016. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.
 
“Nada há oculto que não seja revelado, e nada secreto que não venha a ser conhecido e descoberto” (Lc 8,17). “Spotlight” (no Brasil, Spotlight – Segredos Revelados) é um filme não só necessário como também imprescindível para os católicos – bispos, sacerdotes, religiosas/os e leigos –, nesta ordem de prioridade. Para o espectador crente tem um claro componente penitencial. Os casos de pedofilia são apresentados como um sintoma gravíssimo de outra enfermidade fundamental que supõe a morte do Evangelho, a associação da Igreja com o mal através do poder.

No cinema, os casos de pedofilia na Igreja tinham sido tratados recentemente por diversos filmes. “Deliver Us from Evil” (Livra-nos do mal), da diretora Amy Berg, sobre o padre Oliver O’Grady, um predador sexual que chegou a ser entrevistado para o documentário. O sugestivo e complexo filme “Dúvida” (2008), de John Patrick Shanley, que conta a suspeita de uma rigorosa religiosa, diretora de um colégio, a respeito do capelão do mesmo, que pode ter abusado de um menor. “Na procura do mal, distancia-se um passo de Deus, mas se aproxima um a mais de seu serviço”. O documentário “Mea Maxima Culpa: Silêncio na Casa de Deus” (2012), de Alex Gibney, examina os crimes do padre Lawrence Murphy, que abusou de mais de 200 crianças surdas em uma escola. Recentemente, o mais ideológico “O Clube” (2015), de Pablo Larraín, uma ficção chilena, conta como quatro sacerdotes vivem afastados em uma espécie de casa de penitência, após terem cometido diferentes crimes – incluindo pedofilia – pelos quais não foram julgados civilmente.

Spotlight” supõe um salto qualitativo. Pertencendo ao terreno da ficção, baseia-se em fatos reais, contando a história do trabalho da unidade de investigação do jornal Boston Globe, chamada “Spotlight”, que escancara um número elevado de abusos sexuais perpetrados por diferentes sacerdotes de Boston e que supôs um salto qualitativo no desmascaramento dos casos de pedofilia nas dioceses dos Estados Unidos e em outros lugares do mundo. Com essa motivação, o Globe ganhou o Prêmio Pulitzer pelo Serviço Público, no ano de 2003.

Além disso, estamos diante de um filme que do ponto de vista comercial contou com uma grande aceitação, tanto por parte do público como da crítica, e que está indicado ao Oscar em cinco categorias, entre elas ao de melhor filme, diretor e roteiro.

Um dos valores do filme do diretor e roteirista Thomas Joseph McCarthy – a respeito do qual precisamos recordar o roteiro de “Up” (2009) e a direção do excepcional “O Visitante” (2008) – é a impressão de veracidade e equilíbrio. O processo de desvelamento dos casos de pedofilia por parte do grupo de jornalistas resulta convincente. O acesso à primeira vítima e as dúvidas sobre o seu equilíbrio, o temor dos advogados defensores diante da dificuldade de que as denúncias prosperem, a confirmação progressiva nas dolorosas declarações de outras vítimas, cada vez e maior número, as pistas sobre o apartamento e transferências de sacerdotes denunciados, as intervenções do cardeal Law, próximo das famílias para manter os casos ocultos, os advogados da Igreja chegando a acordos econômicos particulares para impor o silêncio, a pressão social de diferentes setores eclesiais sobre os jornalistas, em uma cidade onde todos e tudo são conhecidos, a existência de investigações policiais e judiciais que chegam ao ponto morto e desaparecem até conduzir o espectador à progressiva certeza do grande número de vítimas e das enormes consequências do sofrimento para as pessoas que são chamadas de sobreviventes.

A narração é articulada com equilíbrio e administra para o clímax as emoções. É assustador assistir as confissões das vítimas, cresce a indignação ao se comprovar os mecanismos de pressão da Igreja no ocultamento da verdade, permite tomar consciência da luta interior dos crentes que veem a forma como aqueles que representam a bondade e a fé agridem os mais fracos – crianças e famílias pobres -, enaltece o valor daquele jornalismo que não se curva diante da injustiça e que se coloca do lado das vítimas. O roteiro, em seu posicionamento incisivo de denúncia, estabelece contrastes interessantes como a confissão de autojustificação doentia do único sacerdote abusador ao qual se consegue brevemente entrevistar, a descrição da cumplicidade de uma sociedade na qual, no fundo, todos estão envolvidos no silêncio (policiais, educadores, advogados, juízes...) ou o respeito e apreço pela experiência religiosa, para além dos desmandos institucionais.

É recomendável para os crentes assistir “Spotlight”, já que permite compreender o verdadeiro alcance da questão da pedofilia na Igreja católica. É verdade que para aqueles que se opõem à presença da fé na vida pessoal ou pública, o filme oferece amplos argumentos para confirmar seu posicionamento diante da corpulência dos fatos. Contudo, também oferece um exercício de purificação necessário para nós que vivemos a fé em Jesus Cristo, a partir da Igreja.

Apontemos algumas questões necessárias. Quando a instituição oculta o Evangelho, esquecendo a prioridade das vítimas e pobres, o sentido da Igreja se dissolve, ainda que sua imagem social prevaleça. O acesso de pessoas desequilibradas ao celibato e ao ministério, que assumem responsabilidades e depois as traem. O perigo que a Igreja corre ao se converter em um poder social que prioriza seus interesses em detrimento ao anúncio do Evangelho e o serviço aos mais fracos.

“A corrupção do melhor engendra o pior”. A importância dos casos de pedofilia na Igreja desvenda uma forma de articulação institucional que exige uma profunda conversão. As maquinações fechadas de proteção de interesses esquecem a missão de Jesus Cristo aberta a toda a humanidade e especialmente aos mais fracos. A tentação dos mecanismos de poder sempre podem se deslizar para o mal e a exigência de desprendimento e humildade é um corretivo imprescindível. Por isso, a penitência que significa assistir “Spotlight” é necessária.

 

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