O levante de Junho de 2013 e a ocupação de escolas

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Por: Cesar Sanson | 18 Fevereiro 2016

Articulação em rede torna movimentos sociais mais eficientes para pressionar governos exigindo dos Estados que ampliem participação no jogo político.

O levante de Junho de 2013, iniciado pelo Movimento Passe Livre contra o aumento de passagens nas metrópoles brasileiras e, mais recentemente, as ocupações das escolas, promovidas por estudantes secundaristas em São Paulo e Goiás, contra o projeto de reorganização dos governos estaduais refletem, aqui no Brasil, o que a Primavera Árabe e o Occupy Wall Street (EUA) mostraram para o mundo em 2011: que os governos terão, cada vez mais, dificuldade de implementar ações a contragosto das massas.

A reportagem é de Lilian Milena e publicada por jornal GNN, 17-02-2016.

Na história da criação do Estado moderno, o que justifica o surgimento dos movimentos sociais é a quebra do pacto social, quando determinados grupos, dentro do estado de direito democrático, são preteridos do jogo político e da redistribuição de recursos.

O tema foi abordado em edição do programa Brasilianas.org e aqui você acompanha os principais pontos desta discussão.

“As relações sociais não funcionam quando não se conseguem assimilar ou superar as desigualdades, a marginalidade, portanto tem uma parcela significativa que não se sente acolhida na lógica [democrática]”, explicou o filósofo e coordenador do curso de especialização em Psicologia Política na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, Alessandro Soares da Silva, convidado para o debate.

As manifestações organizadas por grupos que se sentem excluídos são, portanto, instrumentos para pressionar partidos e governantes, “dentro de uma lógica da democracia representativa”, frisou o professor.

Para Silva, ao olhar para a composição dos partidos é possível verificar a força que os movimentos sociais ganharam na história recente do Brasil, obrigando os partidos a abraçarem pautas distantes de suas raízes ideológicas.

“As pautas LBGT e racial, por exemplo, são pautas que os partidos ainda têm resistências, porque isso depende da aceitação do seu nicho eleitoral”, destacou o docente, por outro lado, ele lembrou que essas frentes, abraçadas primeiro por partidos como o PT e o PSOL, tem hoje representantes no PSDB e, até mesmo, no DEM. Mais recentemente o ator transexual Thammy Gretchen se filiou ao Partido Progressista (PP), legenda do deputado federal Jair Bolsonaro.

Contudo ainda não é possível afirmar que os partidos políticos representam adequadamente a diversidade de grupos sociais no país. “Os partidos assumem uma determinada parcela da agenda [social] segundo o limite da própria ideologia partidária”, destacou Silva.

Participação política na web

A disseminação do uso das redes sociais, via internet, é sempre destacada quando se discute o aumento do poder de pressão dos grupos sociais contra os governos. Entretanto Alessandro Silva afirmou que é preciso ser cuidadoso ao relacionar o uso das ferramentas virtuais à ampliação da participação de pessoas em manifestações de rua.

Sem dúvida nenhuma os novos meios de comunicação ajudam, mas o professor destaca que, muitas vezes o potencial da internet é sobrevalorizado, citando o historiador Charles Tilly, autor de “Os movimentos sociais – das origens ao Fecebook”. Ou seja, a ferramenta virtual é inócua sem a materialização da ação. “Se você não vai pra rua, não faz mudança social”, pontuou.

De fato a participação virtual não tem se refletido nas ruas onde, frequentemente, apenas uma parcela dos que se mobilizaram nas redes sociais efetivamente ocupam os espaços públicos em protestos.

Um facilitador de educação política ou um aglutinador de pessoas que pensam da mesma forma?

Para Silva, as duas coisas. “[A internet] é uma ferramenta, um instrumento. Em algumas ocasiões o sujeito vai refletir e ao mesmo tempo aglutinar pensamentos, ideias e posicionamentos de [determinados] grupos sociais. O que não é mal”. Portanto as críticas feitas ao uso das redes sociais não podem ser simplistas.

“[A web] é importante para você criar massa crítica e capacidade mobilizatória, mas, ao mesmo tempo, as pessoas não estão alheias ao que está acontecendo. Elas geram pensamentos”, concluiu.

Sombras daquele junho de 2013

Thiago Aguiar, porta-voz do movimento Juntos, que participou também dos debates, destacou que a internet melhorou a atuação em rede dos movimentos sociais e lembrou que as manifestações de Junho (2013) e, mais recentemente dos secundaristas nos estados de São Paulo e Goiás, surgiram da pulsão por mais participação no debate político em uma sociedade onde os grupos organizados rechaçam a “linguagem tecnocrata que tenta o obscurecer os reais interesses”, deixando de fora a participação coletiva.

“A lição que esses jovens [secundaristas] trouxeram são várias, mas a principal é que se os governos continuarem funcionando na mesma lógica de antes de Junho [de 2013] vão enfrentar grandes resistências sociais”, disse.

Hoje, por exemplo, Aguiar acredita que o governo Dilma paga um pouco do preço das escolhas de 2013, quando políticos, incluindo os do Planalto, criticaram as manifestações de serem pulverizadas. “Ali, ao meu ver, existia dois sentidos. Um que era o de rechaçar esses acordos que o Congresso faz, que a velha casta política faz, ao redor dos seus interesses, e o outro pela disputa do orçamento para que os serviços públicos tivessem mais qualidade”, completou.

Não se sabe ao certo a velocidade das mudanças que irão surgir do embate político entre a velha forma de governar das elites políticas, presas ao modelo de representação política que não representa a diversidade do país, e os movimentos sociais que surgem com as novas ferramentas de comunicação.

Com isso o professor Alessandro Silva considera difícil compatibilizar hoje a ansiedade dos movimentos sociais que, muitas vezes, explode nas ruas, e o sistema de representação política atual no Congresso, “que garante determinados benefícios a determinadas oligarquias”.

Para ele Lula e Dilma perderam a oportunidade de emplacar essa discussão nos mandatos anteriores, quando uma reforma política poderia ser implementada de forma mais segura. O docente destacou também que a sociedade brasileira, quando não organizada em movimentos sociais, ainda está presa à “lógica da democracia delegada”. Votamos e esperamos os quatro anos para os políticos cumprirem o que prometeram, ao invés de tomar iniciativa.

Porém, esse tipo de postura, começa a mudar para uma parcela da população que, graças às ferramentas digitais se aproximam de movimentos sociais aderindo às manifestações para pressionam os governos.

É na internet que os diversos movimentos sociais também enfrentam suas divergências e, em alguns casos, chegam a uma questão comum que se torna base de protestos que desaguam nas ruas. Essa é a chamada atuação em rede.

A filósofa Djamila Ribeiro, presente na discussão, destacou o conceito de interseccionalidade, "que é pensar como as opressões se entrecruzam, agem de forma combinada e não tem como a gente eleger qual delas é mais importante [para lutar]". Por isso ela compreende que os atores dentro de cada movimento social devem ter um olhar para as especificidades estruturais de cada causa.

Djamila faz parte do quadro das Blogueiras Negras que nasceu justamente da crítica ao feminismo quando deixava de lado a causa racial. O grupo, portanto, reúne discussão tanto do feminismo como de racismo. "Percebemos que nós, como mulheres e negras, não podemos escolher contra qual opressão lutar", completou.

A seguir, veja o debate na íntegra, apresentado por Luis Nassif. A filósofa e feminista do movimento negro, Djamila Ribeiro, entra no segundo bloco do programa.

 

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