Pontos centrais da entrevista do Papa Francisco à revista francesa Paris Match

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Por: Jonas | 19 Outubro 2015

A revista francesa Paris Match publicou uma extensa entrevista realizada no Vaticano com o Papa Francisco. Entre outros temas, o Santo Padre se refere às razões pelas quais escolheu se chamar assim, sua relação com Santa Teresa de Lisieux, os motivos para a canonização de seus pais, neste domingo, no marco do Sínodo da Família, o papel da Santa Sé e o seu na mediação para os processos de paz no mundo. Na sequência, acompanhe amplos trechos da entrevista realizada pela jornalista Caroline Pigozzi, da revista Paris Match.

A reportagem é publicada por ACI Prensa, 15-10-2015. A tradução é do Cepat.

O Santo Padre inicia a entrevista afirmando que está “bem, mas sabe, as viagens são bastante cansativas e, neste momento, com o Sínodo dos Bispos, isto me deixa pouco tempo”.

Em referência ao fato de nunca antes ter ido aos Estados Unidos até o momento de sua recente visita em setembro, Francisco destaca que “as viagens que fazia eram motivadas por reuniões em lugares onde era responsável por noviços, provincial, reitor de faculdades de filosofia e teologia, como bispo. Nenhuma destas reuniões (congressos, sínodos) ocorreu nos Estados Unidos e essa é a razão pela qual nunca tive a oportunidade de visitar esse país”.

Os motivos da canonização dos pais de Santa Teresa de Lisieux: “Louis e Zélie Martin, os pais de Santa Teresa do Menino Jesus, são um casal de evangelizadores que, enquanto viviam, testemunharam a beleza da fé em Jesus. No interior de sua casa e no exterior. Sabe-se muito bem que a família Martin era acolhedora e que abriam suas portas e seu coração. Então, nessa época, certa ética burguesa, tomando a desculpa de decoro, desprezava os pobres e eles dois, com seus cinco filhos, consagraram a energia do tempo e o dinheiro para ajudar os necessitados. Certamente, eles são um modelo de santidade e de vida em casal”.

Sua relação com Santa Teresa de Lisieux: “É uma das santas que mais nos falam da graça de Deus. A forma como Deus vem a nós, nos estende a mão e nos permite escalar facilmente a montanha da vida, com a condição de que não o abandonemos totalmente, que nos deixemos ‘conduzir’ por Ele.

A pequena Teresa entendeu em sua existência que é o amor reconciliador de Jesus que impulsiona os filhos de sua Igreja. Isso é o que Teresa de Lisieux me ensinou. Também gosto do que propõe contra o ‘espírito de curiosidade’ e as fofocas.

Com frequência, peço a ela, que simplesmente se deixou alimentar e conduzir pela mão do Senhor, que tome em suas mãos um problema que tenho, um assunto que não vejo com clareza, uma viagem que devo empreender. Então, imploro-lhe que aceite cuidar disso, que se encarregue e que me envie como sinal uma rosa. De fato, muitas vezes recebo uma...”.

Por que escolheu se chamar Francisco?. “Nunca havia pensado nisso antes. O que me determinou, naquele momento, não foi tanto a mensagem de São Francisco sobre a criação, mas, ao contrário, sua forma de viver a pobreza evangélica. Durante o conclave, enquanto esperávamos a contagem dos votos para a eleição do Papa, meu amigo, o cardeal Claudio Hummes, que estava ao meu lado, segurou em meu braço e pediu para não me esquecer dos pobres.

Em seguida, pensei em um mundo afetado por tantas guerras e violência, pois, com seu testemunho, São Francisco de Assis foi um homem de paz. A encíclica Laudato Si’ começa com as palavras do “Cântico das criaturas”. Eu queria mostrar esse nexo profundo que existe entre o compromisso pela erradicação da pobreza e o cuidado da criação. Devemos deixar para nossos filhos e netos uma terra viável e nos comprometer em construir uma paz verdadeira e justa no mundo”.

A mudança climática e o que pode se fazer diante dela: “O sistema mundial é insustentável. Espero verdadeiramente que esta cúpula possa ajudar a tomar decisões concretas, compartilhadas, para o bem comum, a longo prazo.

A humanidade deve renunciar idolatrar o dinheiro, deve colocar no centro a pessoa humana, sua dignidade, o bem comum, o futuro das gerações que povoarão a terra depois de nós. Renunciar ao egoísmo, avidez e cobiça para que todos vivam um pouco melhor”.

Os extraterrestres existem? “Na verdade, não sei como começar a lhe responder. Até agora, o conhecimento científico sempre descartou que haja rastros de outros seres pensantes no universo. Dito isto, até a descoberta da América não se imaginava que existisse!

Acredito, de qualquer modo, que se deve dar a palavra aos sábios, tendo sempre em conta que o Criador é infinitamente maior que os nossos conhecimentos. Disto, sim, estou seguro, que o Universo e o mundo no qual vivemos não são fruto do azar, do caos, mas, sim, de uma inteligência divina, do amor de um Deus que nos ama, nos criou, nos quis e nunca nos deixou sozinhos. Também estou seguro de que Jesus Cristo, o filho de Deus, encarnou-se e morreu na Cruz para nos salvar do pecado, e que ressuscitou e venceu a morte”.

Cristãos perseguidos no Oriente Médio: “não podemos aceitar que estas comunidades, hoje minoritárias no Oriente Médio, sejam obrigadas a abandonar suas casas, suas terras, suas tarefas cotidianas. Estes cristãos são cidadãos de pleno direito em seu país e estão presentes como discípulos de Jesus há 2.000 anos, totalmente inseridos na cultura e na história de sua gente. Diante da urgência, temos o dever humano e cristão de atuar”.

Continuar “trabalhando concretamente nas causas estruturais da pobreza. Comprometendo-nos para construir modelos de desenvolvimento econômico que coloquem a pessoa humana no centro e não o dinheiro”.

Capitalismo diabólico?: “O capitalismo e o proveito não são diabólicos, caso não sejam convertidos em ídolos. Não são, caso sejam mantidos como instrumentos. Se, ao contrário, é a ambição desencadeada do dinheiro que domina, se o bem comum e a dignidade dos seres humanos passam para um segundo ou terceiro plano, se o dinheiro e o proveito a todo custo se tornam fetiches de adoração, se a cobiça está na base de nosso sistema social e econômico, então, desse modo, nossas sociedades correm para a ruína. Os homens e toda a criação não devem estar a serviço do dinheiro: as consequências do que pode acontecer estão diante dos olhos de todos!”.

Por que um Jubileu da Misericórdia? “Desde Paulo VI, a Igreja pôs um grande acento na referência à misericórdia. Durante o pontificado de São João Paulo II, este acento se expressou ainda com mais força: com a encíclica “Dives in misericordia”, a instituição da festa da Divina Misericórdia (no domingo após a Páscoa), a canonização de Santa Faustina Kowalska (religiosa polonesa, 1905-1938). Como prolongamento desta linha, refletindo em oração, pensei que seria muito bom proclamar um ano santo da misericórdia, o jubileu da misericórdia”.

O papel do Papa e da Santa Sé como mediadores em conflitos: “Sobre estes assuntos delicados, a ação do Papa e da Santa Sé é mantida independente do grau de simpatia ou entusiasmo que suscita em um momento ou outro nas personalidades. Buscamos estimular com o diálogo a solução para os conflitos e a construção da paz. Buscamos incansavelmente as vozes pacíficas e negociadoras para resolver as crises e os conflitos.

A Santa Sé não possui interesses próprios para defender no cenário internacional, mas procura usar todos os canais possíveis para estimular as reuniões, os diálogos, os processos de paz, o respeito pelos direitos do homem. Com minha presença em países como Albânia, Bósnia-Herzegovina, procurei apresentar exemplos de coexistência e de colaboração entre os homens e mulheres que pertencem a diferentes religiões para que curem as feridas sempre abertas que as recentes tragédias provocaram.

Não faço um projeto, não me ocupo da estratégia e nem da política internacional: sou consciente que, em múltiplas circunstâncias, a voz da Igreja é uma voz que clama no deserto. No entanto, acredito que é justamente a fé no Evangelho que exige que sejamos construtores de pontes e não de muros.

Não se deve exagerar o papel do Papa e a Santa Sé. O que acaba de acontecer com os Estados Unidos e Cuba é um exemplo: nós só procuramos favorecer a vontade de diálogo dos responsáveis dos dois países e, principalmente, rezamos”.

Como mantém sua simplicidade? “Quando um sacerdote celebra a Missa, está seguro que está diante dos fiéis, mas, sobretudo, diante do Senhor. Além disso, quando se está diante de uma multidão, deve existir a consciência de nossa pequenez e do fato de que somos “servos inúteis”, assim como Jesus nos pede.

Todos os dias, eu imploro a graça de poder ser quem conduz à presença de Jesus, ser testemunha de sua misericórdia quando nos tem em seus braços. Por isso, todas as vezes que escuto ‘Viva o Papa!’, eu convido os fiéis a gritar ‘Viva Jesus!’.

Quando era cardeal, Albino Luciani (João Paulo I) ouvia aplausos e observava com fineza: ‘Acreditam que o pequeno burro sobre o qual Jesus entrou em Jerusalém pensava que as exaltações da multidão eram para ele? Assim também o Papa, os bispos e os sacerdotes poderão cumprir sua missão, caso saibam ser como esse burrinho e ajudem a dar luz ao verdadeiro Protagonista, olhando sempre para o espírito de que essas exaltações de hoje podem ser substituídas amanhã por um ‘crucifique’”.

Esqueceu a China? “Nunca! Não! A China está em meu coração. Ela está aí. Sempre”.

Iria a uma pizzaria romana? “Não abandonei completamente minha roupa preta, nem o clergyman sob a sotaina branca. Gostaria de poder caminhar nas ruas de Roma, uma cidade muito bela. Sempre fui um padre da rua. Os encontros mais importantes e sua pregação ocorreram na rua. É certo, também gostaria de comer uma boa pizza com os amigos, mas sei que não é fácil, é quase impossível.

O que nunca me falta é o contato com as pessoas. Encontro-me muito com o mundo, muito mais que em Buenos Aires, e isso me dá muita alegria. Quando amparo aos fiéis nos braços, sei que Jesus me tem nos seus”.

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