“Relançar a aliança homem-mulher em diálogo com o mundo”. Entrevista com Pier Angelo Sequeri

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15 Setembro 2015

“A família não a inventou a Igreja, sobre ela a Igreja até se apoia e edifica, o fato é que hoje a família não vai mais em frente por si só, ela necessita ser pensada”. E, para fazer isto, não devemos transmitir uma ideia puramente romântica do amor que nasce como encantamento e dura toda a vida. É necessário falar aos jovens do amor “em termos realistas”, de um amor em condições de construir algo que dura, além das paixões dos primeiros tempos. E nisto a fé pode fazer muito. Mas é, sobretudo, relançada a aliança entre homem e mulher entendida como união em condições de ‘governar’ o mundo além das escolhas individuais de cada um. Num semelhante terreno o diálogo com a cultura contemporânea já deu frutos importantes. Por isso, o Sínodo não deve concentrar-se sobre duas-três questões específicas que, todavia serão enfrentadas, mas deve procurar voar mais alto, embora algumas atualizações [aggiornamenti] sejam – em todo caso – feitas para não permanecer prisioneiros do passado.

São estas algumas das reflexões realizadas por Pierangelo Sequeri – diretor da Faculdade Teológica da Itália setentrional – a quem entrevistamos por ocasião da apresentação dos volumes “Famiglia, um ospedale da campo” (Queriniana) e “Famiglia e Chiesa, un legame indissolubile” [Família e Igreja, um elo indissolúvel] (Libreria Editrice Vaticana), que se realizou na sede da Civiltá Cattolica.

Do encontro participaram padre Antonio Spadaro, diretor da revista, D. Vincenzo Paglia, presidente do Pontifício conselho para a família, a socióloga Chiara Giaccardi e o psicanalista Massimo Recalcati.

A entrevista é de Francesco Peloso, publicada por Vatican Insider, 13-09-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis a entrevista

Monsenhor Sequeri, por que é crítico com a ideia do amor romântico, embora ensinado com frequência por tantos sacerdotes?

Dado que o cristianismo crê na vida eterna, também crê na beleza dos elos de amor que existem. Consequentemente, não pode ensinar ao povo que um dia encontrará este encantamento como os jovens de dezesseis anos, deve ensinar que aquilo se transformará, que aquilo será diverso, caso contrário um dia pensarão somente que são velhos, enfermos que são fascinados... Esta é a ideia de um amor vaporoso, romântico, e quando acaba as pessoas dizem: deves esfalfar-te e basta, porque no final a família se torna isto, um resistir para não ceder. E então os rapazes dizem não, aquela canseira não a quero mais, porque tu me disseste que o amor é outra coisa, é um encantamento. Esta é a partida verdadeira que nos espera além de todas as atualizações que devemos fazer para alinhar-nos com a realidade que deve ser resguardada no mundo de hoje e não como se estivéssemos nos tempos da vovó. Mas, a verdadeira partida é aquela de mostrar que o amor gera elos insubstituíveis, pessoais, indissolúveis que se espera resistam até a vida eterna; este amor joga sua melhor partida e, enquanto o amor-encantamento, o amor-sonho é como o motorzinho de arranque: vai muitíssimo bem mas não terá mais permanência e então se enganam os jovens. Neste sentido, a meu ver a fé faz a diferença porque naquela famosa promessa está a vida eterna, enquanto o encantamento vai e vem; no elo de amor está, ao invés, a vida eterna; se conseguirmos ensinar isto nós resgataremos a família de sua mortificação – vale dizer, há o sonho e depois a família que é a realidade, uma ideia duríssima – e ao mesmo tempo ensinamos algo sobre o amor do qual o nosso tempo perdeu a cognição. Quando nós dizemos o amor eterno, não devemos dizer somente a fórmula, devemos procurar explicá-la, e explicá-la significa isto: a iniciação ao amor eterno é um amor capaz de gerar elos que resistem além do impossível.

É então rejeitada uma leitura puramente romântica do amor?

Literalmente e na metáfora: é um encantamento feito para gerar a vida porque, se goza simplesmente de si mesmo se exaurirá e deixará fora as pessoas e as pensará somente como uma ocasião para este encantamento e quando não está mais nos jornais dizem: o amor acabou.

Serve, em suma, também à Igreja, uma onda de realismo, sair da fábula...

A Igreja deve explicar o amor em termos concretos, em termos de paixões e de afeições concretas, aquelas que o romanticismo conta não são tão concretas como parecem, há uma sapiência do amor que já em partida é capaz de fazer apreciar o elo familiar. As formas fundamentais do amor cultivam um elo que faz nascer algo em ti e então eu mesmo serei feliz. Se ambos, ao invés, procuramos adquirir algo através da relação com o outro, a certo ponto o outro não nos parecerá mais à altura de dar-nos nada. Trata-se de um princípio que, a meu ver, está escrito no Credo: nós, no Credo, todos os domingos, na Missa, dizemos ‘gerado’, nós ‘cremos’ a primeira palavra de Deus na própria eternidade de Deus é geração, e amor, até mesmo Deus nós temos pensado tendencialmente como amor, como geração – parece quase um pouco estranho e assim fizemos que Deus também se torne um pouco narciso, um pouco romântico. O gerar é aquilo que dá ao amor uma paixão que não tem ocaso, uma emoção que, não sendo mais ligada ao encantamento, mas à beleza daquilo que dela nasce, não só os bebês, também o mundo, tem o seu confronto. E então a paixão se agarra a algo real e tem sustentação, se permanece sendo um sonho a realidade parece sempre que permaneça ali, por trás da esquina, para abatê-la.

Um ponto central de sua proposta é aquele da aliança entre homem e mulher; o que significa isso?

Devemos repensar homem e mulher em termos fundamentais. Isto nos impediria permanecermos fechados no túnel das polêmicas. A aliança entre homem e mulher é importante para todos, para o mundo, para o planeta, para o gênero humano. Independentemente de que alguém se case ou não, que faça amizade om tício ou caio. Por isso digo: ergamos o nível, aquele elo é fundamentalmente para a regia do mundo e é desenvolvido enquanto tal, em qualquer condição em que se encontre, então, a meu ver, será também mais maneável mesmo para a Igreja partir não imediatamente da família, mas deste princípio da criação de Deus. A família é, depois, a forma tipicamente intensiva desta aliança, aquela que nos permite apreciá-la dia por dia. Mas, temos também outra vantagem: se a aliança entre homem e mulher envolve a inteira vida do mundo – o trabalho, a técnica, a política, a forma das cidades – sob o signo de uma boa relação entre estes dois que depois podem individualmente fazer suas escolhas, nós teremos um tipo de sociedade no qual cada um aprenderá em todo caso a proteger o bem desta aliança. E, portanto não tolerará nem que a mulher seja aviltada submetida ao homem, nem que o macho seja auto-referencial, nem que seja identificado como predador. Em suma, será preciso sair destes lugares comuns: todos devem algo de bom se o homem e a mulher continuarem a falar-se e decidirem juntos a regia do mundo.

A aliança homem-mulher como fundamento do mundo?

Sim, além das escolhas individuais de relação, este duplo registro homem-mulher, entendido como bênção fundamental sem a qual o homem é mutilado, tem o seu ponto de condensação e continuidade histórica na família, para que esta permaneça como o lugar pelo qual passa o ser humano que deve vir ao mundo e onde aprende a gramática desta bênção. E isto só lhe pode fazer bem. Se todos cuidarem do fato de que, independentemente de suas escolhas individuais, a aliança do homem e da mulher funcione e solicitam àquela aliança que guie o mundo, digamos, a meu ver, mantenhamos da mesma forma os nossos princípios modernos de cidadania, de individualidade, cada um faça as suas escolhas, com quem estar e não estar, nós procuraremos dar à qualidade da convivência social um salto decisivo. Ao meu ver, o cristianismo é neste momento um recurso estratégico. Porque tem dentro de si, no coração de sua palavra revelada, esta realidade: a terra é confiada à aliança do homem e da mulher.

Todavia, o debate em torno ao Sínodo se concentra, por ora, em algo diverso.

Esperamos que este debate seja superado. Se o Sínodo superar o escolho do fechar-se na casuística de um problema ou de outro que seja enfrentado mas não deve representar o todo, se nos fosse dito: pois não, resolvemos esta questão mas a premissa fundamental para relançar positivamente o tema da família é precisamente relançar o tema da aliança entre homem e mulher, seria possível desencalhar-nos da casuística.

Em suma, o sínodo poderia ter este tema como centro e outros aspectos como colaterais, consequentes?

Seria maravilhoso se este fundo fosse valorizado por si mesmo. Nós necessitamos de uma teologia da família concreta, a qual enfrente os seus problemas e seus dramas e assim por diante. Para poder torná-la concreta e apreciável além da concentração ideológica sobre alguns problemas específicos, poderemos mostrar que esta teologia é compartilhável por uma antropologia como aquela de hoje, a qual há algumas décadas se está batendo pela importância da diferença, da paridade, da autonomia, da não suprafacção recíproca, pela afirmação de uma liderança na sociedade na qual as mulheres não sejam excluídas. Seria uma boa aliança e também uma sugestão à cultura estritamente contemporânea. Porque se esta está circulando em torno de algumas questões – os divorciados, os homossexuais, as uniões civis – pois bem, suspendamos por um momento o juízo, mas pode-se dizer, não é que assim corra o risco de lançar-te os últimos cinquenta anos da cultura ocidental que em todo caso nos impõem levar para casa resultados fundamentais? Como aqueles relativos à importância da diferença, do elo da diferença que constrói cooperação, da plena titularidade do homem e da mulher a representarem o humano somente se juntos acedem aos lugares do governo e da representação da sociedade humana. Tudo isto não conta mais nada?

É, todavia, a hipótese de um sínodo que se põe em diálogo com o mundo...

Um sínodo que dialoga com o mundo e não só com a sua crônica, com a parte melhor da cultura moderna e contemporânea, uma parte na qual nós mesmos, lendo a Bíblia, nos descobrimos alinhados porque o cristianismo veio subitamente ao encontro desta sensibilidade, embora historicamente se andasse por trás de certos lugares comuns antropológicos. Quando compareceram estes temas da reciprocidade entre o homem e a mulher, da dignidade e da cooperação, o cristianismo nos pôs de imediato a reconhecer que, além das deformações ideológicas, na substância havia uma sintonia com sua mensagem originária e isso também foi bastante fácil.

A contemporaneidade não é, portanto, inimiga da Igreja?

Seria lindo se o próprio Sínodo pudesse dizer: pois bem, procuramos um diálogo com a contemporaneidade, mas já temos a possibilidade de assimilar os frutos de um diálogo que ocorreu e foi bastante exitoso, há um patrimônio comum em termos de importância da relação homem-mulher, e isto pode ser útil também para enfrentar de modo não casuístico nem politicista outras questões, pelo menos no que diz respeito à sua dimensão antropológica. Porque às vezes parece que os padres do sínodo se encontrem numa situação na qual devam ir à batalha sobre duas questões sobre as quais nos encontramos, por assim dizer, separados relativamente aos tempos: o mundo vai numa direção e nós noutra. Seria preciso recordar que, ao invés, com o mundo já fizemos um trabalho bastante fatigoso, mas também bastante rentável; seria, em definitivo, útil que nos recordássemos a nós mesmos e recordássemos ao mundo: não te agites, porque já fizemos um ótimo trabalho, e também tu deves explicar-me aonde vai acabar aquilo que foi construído.

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