O caráter franciscano de Laudato Si’

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26 Junho 2015

"Dentre os muitos temas franciscanos que surgem em Laudato Si’, pelo menos três merecem destaque: deixarmos para trás o 'romantismo ingênuo'reconhecer o valor inerente de toda a criação e enxergar a conexão entre pobreza extrema e degradação ambiental", comenta Daniel P. Horanfrade franciscano, colunista da revista America e escritor, em artigo publicado na revista America, 18-06-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo. 

Fonte imagem: americamagazine.org

Talvez não seja por acaso que, depois de abrir a Laudato Si com uma citação do famoso Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis, o Papa Francisco mencione Pacem in Terris (1963), do Papa São João XXIII, como o modelo para o público da sua nova encíclica, formado por “todas as pessoas” (n. 3).

Pouco depois que Pacem in Terris foi publicado, o monge trapista e renomado autor Pe. Thomas Merton escreveu um artigo comentando o texto, onde afirmava que “todo o clima da encíclica [Pacem in Terris], no seu amor do homem e do mundo e em sua esperança radiante, é franciscano”. Agora temos o privilégio de testemunhar a publicação de outra encíclica poderosa, um documento que, sem dúvida, é ainda mais “franciscano” e de autoria de um papa chamado Francisco!

O que marca este ensinamento particularmente “franciscano” é algo mais substancial do que as meras referências ao santo de Assis. O Papa Francisco claramente “capta” tanto a escrita quanto o espírito da tradição teológica e espiritual franciscana. Dentre os muitos temas franciscanos que surgem em Laudato Si’, pelo menos três merecem destaque: deixarmos para trás o “romantismo ingênuo”, reconhecer o valor inerente de toda a criação e enxergar a conexão entre pobreza extrema e degradação ambiental. O que ofereço aqui é apenas uma resposta preliminar, pois a riqueza desta carta encíclica ultrapassa os limites de um comentário inicial.

Deixando para trás o “romantismo ingênuo”

Na seção inicial de Laudato Si’, subintitulada “São Francisco de Assis”, o Papa Francisco chama a comunidade cristã e as pessoas que admiram a história e o legado de São Francisco a levarem a sério as convicções profundamente teológicas do santo medieval sobre o relacionamento da pessoa humana dentro e entre o resto da comunidade de criação. Lemos: “A [reação de São Francisco] ultrapassava de longe uma mera avaliação intelectual ou um cálculo econômico, porque, para ele, qualquer criatura era uma irmã, unida a ele por laços de carinho. (…) Esta convicção não pode ser desvalorizada como romantismo irracional, pois influi nas opções que determinam o nosso comportamento” (n. 11). Ao passo que algumas pessoas viram no Cântico das Criaturas e nas descrições românticas que se fazem de seu autor apenas um amante da natureza, o Papa Francisco entende que seu homônimo medieval reconheceu uma verdade profunda da revelação: que você e eu estamos profundamente interligados e intrinsecamente relacionados com tudo o que existe. Queiramos admitir ou não, somos parte de uma família da criação, e não reis ou rainhas que reinam por sobre a criação não humana.

Perto do fim da Laudato Si’, o Papa Francisco insta-nos a seguir o exemplo de Francisco de Assis, cuja própria experiência de “conversão ecológica” ajudou a abrir-lhe os olhos para esta realidade. “Convido todos os cristãos a explicitar esta dimensão da sua conversão, permitindo que a força e a luz da graça recebida se estendam também à relação com as outras criaturas e com o mundo que os rodeia, e suscite aquela sublime fraternidade com a criação inteira que viveu, de maneira tão elucidativa, São Francisco de Assis” (n. 221). Esta visão da criação está longe de ser associada com a caricatura excessivamente romântica e facilmente descartável do “santo que amava os animais”. Em vez disso, ela chama a atenção para a real complexidade do discipulado cristão que se estende para além da comunhão com Deus e com os outros seres humanos para incluir todos da criação.

O valor intrínseco de toda a criação

O Papa Francisco destaca muitas das maneiras em que a criação não humana tem sido – e continua sendo – avaliada de acordo com o valor instrumental ou utilidade. Os debates, cristãos e seculares, têm avançado no sentido da conservação, a fim de abastecer as gerações futuras. Entretanto, como o Papa Francisco observa em vários momentos, “não basta pensar nas diferentes espécies apenas como eventuais ‘recursos’ exploráveis, esquecendo que possuem um valor em si mesmas” (n. 33). Mais adiante, em um parágrafo invocando o trabalho de Teilhard de Chardin, Francisco afirma que “o fim último das restantes criaturas não somos nós” (n. 83), sugerindo que, assim como os seres humanos têm sua origem e seu destino em Deus, o mesmo acontece com o resto da criação.

Além do respeito, do valor e da dignidade com que Francisco de Assis abordava todos os aspectos da ordem criada, desde a mais pequena larva até a maior das montanhas, existem outras ressonâncias franciscanas presentes na afirmação do valor intrínseco de toda a criação encontrada em Laudato Si’. Por exemplo, é o filósofo medieval e teólogo franciscano João Duns Scotus – desenvolvedor do princípio de individuação (popularmente conhecido como Haecceitas [hecceidade], que significa algo como “a qualidade de ser isso”, em latim) – quem sugeriu que todos os aspectos do cosmos são amados individualmente dentro existência por Deus e sua particularidade não é por acaso ou secundária, mas coextensiva com o seu próprio ser.

Além disso, o Papa Francisco baseia-se muito no pensamento de São Boaventura, teólogo franciscano e Doutor da Igreja que afirmou a dignidade inerente de toda a criação, devido ao fato de cada criatura ser um vestígio do criador e espelho da Trindade. Como um vestígio (do latim Vestigio, que literalmente significa “pegada”), cada aspecto da criação carrega uma impressão ou marca do seu criador. Como um espelho, toda a criação reflete a Trindade. O Papa Francisco referencia este último ponto quando diz que o “santo franciscano ensina-nos que toda a criatura traz em si uma estrutura propriamente trinitária, tão real que poderia ser contemplada espontaneamente, se o olhar do ser humano não estivesse limitado, obscurecido e fragilizado” (n. 239). O Santo Padre nos convida a seguir o exemplo de São Boaventura, em termos de contemplação, chegando a “encontrar [Deus] em todas as coisas” e continua, observando: “São Boaventura [nos ensina que] ‘a contemplação é tanto mais elevada quanto mais o homem sente em si mesmo o efeito da graça divina ou quanto mais sabe reconhecer Deus nas outras criaturas’” (n. 233).

A conexão entre pobreza e a criação

Uma das dimensões mais marcantes, e aparentemente mais polêmicas, de Laudato Si’ é a conexão explícita que o Papa Francisco faz entre pobreza abjeta e degradação ambiental. A verdade é que esta não é uma ideia nova, mas remonta tão distante no tempo como a Francisco de Assis, se não antes. Já de início o Papa Francisco escreve que “a pobreza e a austeridade de São Francisco não eram simplesmente um ascetismo exterior, mas algo de mais radical: uma renúncia a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio” (n. 11). Esta declaração aponta para o centro do abraço da pobreza evangélica de São Francisco como um meio para aprofundar a solidariedade. O que o santo de Assis reconheceu em sua época era que não somente coisas, mas também as mulheres e os homens começaram a ser valorizados em termos financeiros. O valor de alguém vinha a ser determinado pela quantidade de dinheiro de que dispunha, e não pelo valor inerente decorrente do fato de ter sido amorosamente criado por Deus. A recusa de Francisco de jogar pelas regras da economia comercial crescente levou-o a abraçar uma pobreza voluntária que lhe permitiu aproximar-se de todas as pessoas e, por fim, de toda a criação.

Há inúmeras lendas que testemunham o chamado de Francisco de Assis aos frades em particular – e à sociedade em geral – para cuidar de seus irmãos e irmãs animais e de outras criaturas que eram, muitas vezes, ignorados ou desprezados. Eles, como os leprosos do seu tempo ou os pobres e indesejados desta nossa época, não eram considerados segundo o padrão econômico de avaliação. O Papa Francisco chama a atenção para a inter-relação entre a realidade das mudanças climáticas globais (em grande parte causada pelos ricos e poderosos do nosso tempo) e os pobres que sofrem os efeitos devastadores de forma desproporcional. O pontífice afirma: “Provavelmente os impactos mais sérios recairão, nas próximas décadas, sobre os países em vias de desenvolvimento” (n. 25). A categoria de “os marginalizados” se estende para além da espécie humana para incluir o nosso próprio planeta, ou como Papa Francisco diz: “Entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada” (n. 2).

Para a mudança radical no estilo de vida de Francisco de Assis foi necessário seguir, de modo autêntico, o Evangelho. Abraçar a pobreza evangélica como uma forma de protesto contra as injustiças sociais e como um meio para se aproximar da solidariedade levou-o a estar entre os pobres e marginalizados de seus dias. Ao mesmo tempo, a sua renúncia dos sistemas de poder da sociedade em que vivia lhe permitiu – como permitiu a São Boaventura – ver Deus em todas as coisas e a tornar-se um místico. Hoje, também nós somos chamados a transformarmos as nossas vidas para seguir o homem pobre de Assis, que tanto tem inspirado o atual Bispo de Roma a nos ensinar com autoridade e clareza raramente vistas antes.

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