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''O nexo entre natureza e esfera social é decisivo na Laudato si'.'' Entrevista com Jean-Marie Pelt

Entre os nobres pais do pensamento ambiental europeu, graças ao conceito de "ecologia urbana" e a obras como L'Homme renaturé (1977), o francês Jean-Marie Pelt, presidente do Instituto Europeu de Ecologia em Metz, é uma figura de destaque no panorama científico e intelectual, não só francês.

A reportagem é de Daniel Zappala, publicada no jornal Avvenire, 20-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nascido há 81 anos, com estudos em biologia, botânica e farmácia, também é professor emérito da Universidade de Lorraine. Sobre a ecologia urbana, Pelt trabalhou com um cargo oficial para a prefeitura de Metz entre os anos 1970 e 1980. A filosofia dessa abordagem é a de uma maior integração entre o homem e o ambiente na cidade. Em Metz, Pelt promoveu a realização de grandes áreas verdes em torno dos rios, no encontro entre "água e pedra".

"É uma encíclica circular, em que se percebe bem a mão do papa, a sua força intuitiva e afetiva. E nos conteúdos, é uma texto holístico e de síntese, que visa a captar os nexos dentro da totalidade do desafio ecológico."

Pelt leu em um só fôlego a Laudato si', também como crente, desde sempre atento à dimensão espiritual do ambiente, aprofundada, por exemplo, no intenso Dieu en son jardin (2004): "O humano está no centro da encíclica, que nos convida a uma relação renovada com a nossa casa".

Eis a entrevista.

Professor, o que mais chamou a sua atenção na primeira leitura?

É um texto que aponta diretamente para o coração do problema, ou seja, o vínculo do ambiente com a esfera social e econômica, com uma atenção especial à pobreza. É uma abordagem que eu compartilho, porque vivemos hoje uma crise sistêmica que pede que a nossa inteligência não ignore nenhum aspecto. Ao lado do clima e da biodiversidade, o papa ampliou assim, oportunamente, a análise à ecologia da vida cotidiana e à ecologia cultural, ainda tão ignoradas muitas vezes.

O mundo pode ser compreendido como uma "trama de relações", destaca a encíclica. Como você qualificaria essa orientação?

Para o papa, essa visão se reconecta diretamente à Trindade como relação entre Pessoas atravessadas por amor recíproco. Com efeito, pode-se captar na encíclica esse primado do relacional, tão coerente com o funcionamento global da natureza, que pode ser claramente definida como o conjunto das inúmeras relações entre os seres vivos dentro dos ecossistemas. O mundo animal, assim como o vegetal, só pode funcionar graças a essas relações que, erroneamente, foram entendidas como exclusivamente conflituais. Ao contrário, as cooperações e associações são inúmeras.

Para o papa, é preciso "investir muito mais na pesquisa" sobre os ecossistemas. Chama-lhe a atenção essa peroração em favor das ciências naturais?

Sim, muito, porque demonstra um profundo conhecimento dos desafios atuais da ecologia. Ainda há muito para se entender sobre o funcionamento da natureza. Sabemos que nós a agredimos e constatamos o dano disso, mas, na realidade, ainda temos conhecimentos limitados sobre o funcionamento detalhado dos ecossistemas. Em particular, não sabemos bem quanto cada espécie contribui para o equilíbrio global. Porém, como a encíclica sublinha, podemos razoavelmente pensar que cada uma é útil para as outras.

O convite necessariamente não vai agradar certos cientistas refratários à fé...

Talvez. Mas estou convencido de que essa encíclica também contribuirá para libertar as nossas sociedades desse impasse, na realidade coberto de mofo, que alguns ainda veem entre ciência e fé. Para a maior parte das gerações mais jovens, além disso, já soa como águas passadas.

Ao contrário, a tecnologia é lida em uma chave dupla: ligada à criatividade humana, mas também como instrumento de poder dificilmente controlável...

A propósito dos medicamentos, já compreendemos que é preciso fazer um bom uso deles. Mas precisaríamos adquirir a mesma consciência sobre as tecnologias, capazes hoje de fazer trotar nos espíritos projetos prometeicos inéditos, como o trans-humanista do chamado "homem aumentado". Por isso, o convite da encíclica a uma maior humildade chega no momento certo. Até porque as tecnologias podem, às vezes, se afastar ainda mais da natureza, da sua dimensão sensorial e corpórea. Um problema que se torna crucial para os jovens.

Entre excessos de poder e natureza, a Laudato si' parece estabelecer uma relação antitética. O que você acha?

O poder das finanças e da economia pode relegar a política a um estado de sujeição, como o papa ressalta. Justamente por isso, os grandes eventos da ONU sobre a ecologia geralmente tendem a se atolar. E há um risco real de que as consciências individuais também possam acabar esmagadas por esses rolos compressores. Pedindo uma conversão ecológica abrangente, o papa nos convida a reencontrar caminhos alternativos já inscritos profundamente na nossa própria natureza. Precisamos de uma mudança radical de paradigma, e a encíclica capta plenamente esse ponto, por exemplo, evocando o necessário afastamento das "falsas dialéticas dos últimos séculos".

O que você achou das passagens sob a insígnia da esperança?

Oportunas para os anos que vivemos, marcados pela tentação constante do derrotismo ou do catastrofismo. Nesse sentido, é esplêndido especialmente o fim da encíclica, que nos leva ao céu evocando o face a face com Deus que nos espera. Portanto, a dissolução dos mistérios do Universo. Para os fiéis, poderá se tornar um autêntico encorajamento, assim como a evocação da felicidade dos cristãos capazes de viver sem a obsessão do consumo.

A encíclica lhe parece possuir potencialidades ecumênicas?

Certamente. A propósito, acho muito comovente a referência ao Patriarca Bartolomeu, já que pude apreciar pessoalmente, por muito tempo, a visão ecológica dele, quando fui convidado para Istambul, para uma cúpula sobre monoteísmo e ecologia. Fiquei estupefato com a força das suas convicções ecológicas. As mesmas, eu diria, de um perfeito discípulo de São Francisco de Assis.

Para a fibra ecológica de muitos cristãos, era preciso um documento desses?

É preciso confessar humildemente que os cristãos ainda têm um longo caminho a percorrer, porque a sensibilidade ecológica no mundo cristão permaneceu por muito tempo frágil. Ainda há uma década, raramente viam-se símbolos cristãos nos grandes eventos sobre o ambiente. Tínhamos esquecido a natureza, talvez influenciados também pelos fantasmas panteístas de alguns teólogos, às vezes prontos, no passado, até mesmo a teorizar uma natureza sem Deus. Agora, com essa encíclica, o redespertar que começou nos anos 1970 poderá ser fortemente acelerado. A interpenetração constante entre homem e natureza vai se tornar mais clara para muitos fiéis, escancarando para eles as janelas da beleza do mundo.

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