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19 Maio 2014

"Capital no Século XXI" ocupou o centro do debate econômico nos Estados Unidos nos últimos meses. Além da proeza de alcançar o topo da lista dos mais vendidos da Amazon, o livro de Thomas Piketty tem sido objeto de uma onda de análises em jornais, revistas e blogs americanos, num momento em que a preocupação com a desigualdade ganhou espaço no debate público no país. Não parece exagero dizer que nunca um livro foi tão resenhado por tantos economistas importantes em tão pouco tempo.

A reportagem é de Sergio Lamucci, publicado pelo jornal Valor, 16-05-2014.

Entre os ganhadores do Nobel, Paul Krugman colocou a obra nas alturas, enquanto Robert Solow fez elogios, mas num tom mais comedido. Dani Rodrik e Kenneth Rogoff destacaram as qualidades do livro, mas enfatizaram o que consideram os problemas da obra. Tyler Cowen foi mais crítico, questionando, como outros, os prognósticos de Piketty de que as taxas de retorno sobre o capital não devem diminuir no futuro. Segundo o francês, a "contradição central do capitalismo" é que a taxa privada de retorno sobre o capital pode ser significativamente mais elevada do que a taxa de crescimento da renda e da produção, por longos períodos.

Krugman, da Universidade de Princeton, não poupou elogios ao livro, em resenha para o "The New York Review of Books". Segundo ele, Piketty escreveu um "livro verdadeiramente soberbo", por combinar "grande abrangência histórica - qual foi a última vez que você ouviu um economista invocando Jane Austin e Balzac? - com detalhada análise de dados". Na opinião de Krugman, o livro vai mudar tanto o modo de se pensar sobre a sociedade como a maneira de fazer economia. O economista voltou ao assunto várias vezes em seu blog, com a tradicional contundência. Num dos posts, disse que o "pânico" que Piketty tem provocado mostra que a direita ficou sem ideias.

"Este é o ponto principal de Piketty, e sua contribuição nova e poderosa para um assunto antigo: enquanto a taxa de retorno (sobre o capital) superar a taxa de crescimento, a renda e a riqueza dos ricos vai crescer mais rápido do que a renda típica do trabalho", escreveu Solow, do Massachusetts Institute of Technology (MIT) no artigo "Thomas Piketty está certo". No texto, porém, o Nobel fez ponderações, sugerindo a necessidade de um pouco de ceticismo. "Por exemplo, a historicamente estável taxa de retorno de longo prazo tem sido o resultado equilibrado entre retornos decrescentes e o progresso tecnológico; talvez uma taxa de crescimento mais fraca no futuro puxe para baixo drasticamente a taxa de retorno. Talvez."

Professor da Universidade de Harvard, Rogoff destacou que "o livro brilhante de Piketty" documenta a desigualdade dentro dos países, com o maior foco no mundo rico. "Boa parte da onda cultural envolvendo o livro vem de pessoas que se veem como classe média, mas que são classe média alta ou mesmo ricos pelos padrões globais." Rogoff contrapõe a obra de Piketty ao livro "The Great Escape", de Angus Deaton, segundo quem, nas últimas poucas décadas, alguns bilhões de pessoas no mundo em desenvolvimento, especialmente na Ásia, escaparam de condições "verdadeiramente desesperadoras" de pobreza. "A mesma máquina que aumentou a desigualdade nos países ricos nivelou a situação globalmente para bilhões."

Rogoff notou ainda que, se Piketty está certo ao argumentar que o retorno sobre o capital aumentou nas últimas décadas, dedica pouca atenção ao amplo debate entre os economistas sobre as causas desse fenômeno. "Se o principal motor é o fluxo maciço de trabalho asiático nos mercados comerciais mundiais, o modelo construído por Robert Solow sugere que, no fim, o estoque de capital vai se ajustar e a taxa dos salários vai subir", escreveu, observando que aposentadorias de uma força de trabalho em processo de envelhecimento também deve elevar os rendimentos.

Um dos autores do influente blog Marginal Revolution e professor da Universidade George Mason, Cowen escreveu o post "Por que não estou convencido pelo argumento de Thomas Piketty", resumindo os motivos para as suas críticas ao livro do francês. Segundo Cowen, a versão crua da obra do francês é que as taxas de retorno sobre o capital não vão diminuir. "Isso é realmente uma previsão tão poderosa?", questiona. Para ele, é difícil ter uma ideia de quais fatores terão retornos decrescentes e quais não terão" daqui a 50 ou 100 anos.

"Em resumo, o principal argumento se baseia em duas (falsas) afirmações. A primeira é que os retornos sobre o capital serão altos e não decrescentes em relação a outros fatores, e com certeza suficientes para apoiar a ideia de que r $> g (o retorno sobre o capital é maior que o crescimento da economia) como um ponto dominante da história econômica daqui para a frente. A segunda é que isso pode ocorrer sem aumentos significativos nos salários reais", diz Cowen. Apesar das críticas, ele considera que o livro é muito importante e merece ser lido e estudado.

Em geral, o trabalho de documentação da evolução da riqueza e da renda nos últimos três séculos feito por Piketty é muito elogiado. Já sua projeção de que o retorno sobre o capital continuará a superar a taxa de crescimento da economia é questionada, ao passo que sobram reparos às suas sugestões para enfrentar o problema. "A ideia de um imposto global sobre a riqueza está repleta de problemas de credibilidade e de como ser cumprida, além de ser politicamente implausível", escreveu Rogoff. Para ele, um imposto progressivo sobre o consumo seria relativamente eficaz e não distorceria decisões de poupança como os tributos sobre a renda. O economista também critica a sugestão de Piketty de uma taxa marginal de 80% sobre a renda nos EUA.

Professor da Universidade do Texas, em Austin, James Galbraith também mostrou insatisfação com as propostas de Piketty, a partir de um ponto de vista à esquerda. "Se o coração do problema é uma taxa de retorno sobre ativos privados que está muito alta, a melhor solução é reduzi-la. Como? Aumente o salário mínimo! Isso diminui o retorno do capital que se apoia no trabalho mal remunerado. Apoie os sindicatos! Taxe os lucros das empresas e os ganhos pessoais de capital, incluindo dividendos!" Para Galbraith, a obra é um livro de peso, cheio de boa informação sobre os fluxos de renda, transferência de riqueza e a distribuição dos recursos financeiros em alguns dos países mais ricos do mundo. Mas, "apesar de suas grandes ambições, o livro não é o trabalho acabado de grande teoria que seu título, extensão e recepção (até o momento) sugerem."

Para o conservador analista James Pethokoukis, do American Enterprise Institute (AEI), Piketty acredita que Karl Marx estava certo - só errou o "timing". Segundo Pethokoukis, o francês considera que a visão essencial do pensador alemão, de que a acumulação privada de capital inevitavelmente provoca a concentração de riqueza em poucas mãos, levou mais tempo para se concretizar porque houve um hiato na metade do século passado, devido ao efeito da depressão e das guerras sobre as fortunas dos mais abastados.

Rodrik, hoje no Instituto para o Estudo Avançado, em Princeton, fez uma das melhores sínteses dos motivos que levaram o livro de Piketty a provocar tanta discussão. "'Capital no Século XXI' reacendeu o interesse dos economistas pela dinâmica da riqueza e de sua distribuição - assunto que preocupou economistas clássicos como Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx. Ele trouxe para o debate público detalhes empíricos cruciais e um arranjo analítico simples, mas útil. Quaisquer que sejam os motivos para seu sucesso, ele já fez uma contribuição inegável, tanto para a profissão dos economistas quanto para o discurso público", afirmou Rodrik num artigo intitulado, não por acaso, "Piketty e o espírito da época", publicado pelo Valor na quinta-feira.

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