O sagrado direito de alimentar-se: uma excomunhão do deus Mercado.

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08 Mai 2014

“Quando se redescobre a gratuidade dos alimentos da terra, chega-se à comunhão com os esfomeados da história e do mundo. Idosos, mulheres, crianças, homens... Toda a variedade humana que, sob o jugo do mercado, mesmo habitando terras férteis não encontram o que comer”, escreve Renato Ferreira Machado, ao comentar os trabalhos do XVI Simpósio Internacional IHU – Alimento e Nutrição no contexto dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

Renato Machado, téologo, é autor do artigo O desencantamento da experiência religiosa em House: "creia no que quiser, mas não seja idiota, Cadernos Teologia Pública, no. 84.

Eis o comentário.

O Mercado é um deus ciumento e possessivo. Senhor de exércitos, estende seu senhorio a todos os âmbitos da vida de seus fiéis. De todos os seus domínios, porém, dois são os que norteiam mais diretamente sua igreja: o tempo e o prazer. Aliás, o deus Mercado é bastante astuto e, em suas exigências de fidelidade, oferece aquilo que é exatamente o oposto destas exigências. O tempo se torna lugar a ser ocupado pela produtividade, que terá como fruto o crédito financeiro, que pode comprar o prazer oferecido por esta mesma divindade. Das mãos do deus Mercado nada sai de graça. Tudo tem um preço e o valor deste preço revela os filhos prediletos desta divindade. Estes filhos, porém, dissolvem-se em um vazio desolador, de onde nada mais volta e para onde tudo parece estar destinado.

Trabalho e prazer são searas bastante amplas nas vinhas do deus Mercado. Esta amplidão busca abranger os confins da Terra, para que todos possam reconhecer a salvação por ele oferecida. Neste contexto encontramos o trabalho realizado com aquilo que é mais necessário à pessoa: a produção e consumo de alimentos. Na conversão ao deus Mercado, a produção de alimento destina-se, primeiro, ao lucro, pois na religião mercadológica, a multiplicação do lucro garante a vida no futuro – para os fiéis que puderem comprar este futuro, claro.

Uma forma de fazer este propósito se concretizar é através da uniformização do alimento e de sua promoção midiática. Ao ser massivamente divulgado como prazeroso e nutritivo, o alimento mercantilizado se torna eucarístico, pois ao ingeri-lo, o fiel está comendo exatamente a mesma coisa que todos os outros fiéis, fortalecendo-se para o trabalho exigido por seu deus. É absolutamente anátema, por isso, a ingestão de alimentos diferenciados, pois eles levarão o fiel a se perguntar se não existiriam outros sabores e saberes, além daqueles oferecidos por sua crença. Não interessa, nesse sentido, se milhares de anos de tradição alimentar são desprezados ao redor do mundo, pois a salvação já foi anunciada e ela é uma só para todas as gentes. Fora do Mercado não há salvação. Fora do Mercado morre-se de fome.

Ateus, hereges e pagãos, porém, insistem em resistir ao Evangelho do Mercado. Em muitos lugares do mundo, mesmo sob constante ataque de cruzadas globalizantes, pequenos grupos e comunidades insistem em plantar seus próprios alimentos e, pior, junto a estes alimentos, continuarem fomentando suas próprias tradições, culturas, linguagens e rituais. Nada mais pecaminoso!

Aquele que não sente o gosto das hóstias mercadológicas acaba se deixando levar por outras propostas: redescobre os sabores e saberes gratuitos da terra e, alimentando-se disso, multiplica sua fome. O anátema mercadológico, ao invés de enfarar-se com o fast food sagrado, compreende que o gosto de cada alimento cultivado guarda uma sabedoria antiga, nascida antes de seus ancestrais e que continuará para além de seu último descendente.

Este herege sentirá seu próprio corpo respondendo a este alimento e perguntando se todo o labor exigido pelo deus Mercado realmente guarda algum sentido ou se trabalho não seria algo bem diverso daquilo que ele conhece. A estética dos pratos preparados com estes alimentos despertarão outros encantos, únicos e universais, diferentes da fascinação pasteurizada das grandes redes de alimentos. É uma situação de excomunhão. Há, porém, uma consequência mais séria neste rompimento.

Quando se redescobre a gratuidade dos alimentos da terra, chega-se à comunhão com os esfomeados da história e do mundo. Idosos, mulheres, crianças, homens... Toda a variedade humana que, sob o jugo do mercado, mesmo habitando terras férteis não encontram o que comer. A comunhão com estes deserdados pelos mercados despertam fome e sede sem fim, levando à busca por alternativas e à descoberta de outras comunidades e redes de debate, reflexão, resistência e ação contra a ditadura do monoteísmo mercadológico, em luta pela libertação do próprio planeta, que deseja oferecer seus frutos e alimentar seus habitantes.

De certa forma, este tem sido o tom das palestras e debates presentes no XV Simpósio Internacional do IHU – Alimento e nutrição no contexto dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Em um tempo no qual a gastronomia se tornou moda midiática, chefs se tornaram superstars e a fome é vista como algo acidental, que acontece com populações que não chegaram ao nível de desenvolvimento dos grandes detentores do capital global – segundo o discursos mercadológico – a abordagem da alimentação como sagrado direito da pessoa, se não é inédita, é muito importante.

Por esta razão, o Instituto Humanitas Unisinos - IHU reafirma sua comunhão com estas frentes de resistência que, de diversas maneiras podem estar descortinando o futuro de uma questão que não tem nada de acidental e que é responsabilidade de todos.

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