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Entrevistas

Para além dos dados. Observatórios de Segurança Alimentar no Brasil e em Cabo Verde. Entrevista especial com Rumi Regina Kubo

“Na análise quantitativa, uma família é mais um número dentro de um todo. O cálculo da média de produção pode dar a entender que existe alimento suficiente para todos. No entanto, disponibilidade não é o mesmo que acesso”, ressalta a bióloga. 

Em 2012, a partir das articulações de diversos grupos de pesquisa, surge a proposta da criação de um Observatório Socioambiental em Segurança Alimentar e Nutricional.

Coordenadora do projeto, a bióloga e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Rumi Regina Kubo, explica que a proposta foi, logo após o desenvolvimento de uma metodologia inicial, expandir a proposta para outras regiões do país (como Piauí e Pará).

“No Brasil, temos uma série de dados para consulta, disponibilizados pelo IBGE ou outros institutos”, explica a pesquisadora. “Mesmo assim, estes dados são insuficientes para se pensar políticas públicas mais específicas.” Outra articulação que está sendo viabilizada é a criação de um Observatório também no Cabo Verde. No entanto, devido a uma série de articulações necessárias, a proposta ainda está em seus estágios iniciais.

“Nós tivemos que dar um passo atrás, pois pensamos que haveria dados disponíveis, mas eles não estão disponíveis, nem foram coletados. Mas isso é sempre um aprendizado”, esclarece. Devido às próprias dificuldades estruturais identificadas no país, de acordo com a professora, em Cabo Verde, a proposta é pensar um Observatório de Políticas Públicas, abraçando questões mais amplas também análogas à fome.

Rumi Regina Kubo apresentou os resultados iniciais de sua experiência durante o XV Simpósio Internacional IHU. Alimento e Nutrição no contexto dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. O evento, que ocorre na Unisinos, congrega o debate sobre a importância de se pensar a segurança alimentar para o desenvolvimento dos povos.

Em entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line, Kubo esclarece que a proposta do observatório veio a partir de anos de trabalho e pesquisa diretamente com grupos vulneráveis. “No entanto, nos demos conta de que, ainda que seja importante permanecer atuando junto às populações, as instâncias decisórias que envolvem esses grupos partem de patamares e escalas mais amplos”, esclarece, como em nível de Estado e das organizações estatais. Formar esta ponte representa parte da tentativa do Observatório.

Rumi Regima Kubo é professora do Departamento de Ciências Econômicas e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Possui graduação em Ciências Biológicas e em Artes Plásticas, mestrado em Botânica e doutorado em Antropologia Social, também pela UFRGS. Ela é integrante do Núcleo de Estudos em Desenvolvimento Rural Sustentável e Mata Atlântica - Desma, do Núcleo de Antropologia Visual - Navisual e do Núcleo de Estudos em Segurança Alimentar e Nutricional - Nesan.

Confira a entrevista.

Rumi Regina Kubo. Foto: Andriolli Costa

IHU On-Line - Você faz parte de um projeto de pesquisa que envolve populações tradicionais e segurança alimentar no Brasil e no Cabo Verde. Quais as semelhanças e diferenças identificadas no âmbito da alimentação nesses dois países?

Rumi Regina Kubo – Esse é um projeto que ainda estamos iniciando. Temos, no Brasil, mais especificamente no Rio Grande do Sul, uma proposta de um Observatório Socioambiental em Segurança Alimentar e Nutricional. A proposta foi estender e utilizar a experiência da montagem deste observatório para estabelecer um sistema de acompanhamento também em Cabo Verde. No entanto, nesse caso, mais do que segurança alimentar, foi preciso pensar em um observatório de políticas públicas.

No momento, estamos revisando os bancos de dados disponíveis em Cabo Verde, mas a coleta e o conjunto de dados é completamente diferente da que é feita aqui. Esta está sendo uma grande dificuldade: estabelecer uma dinâmica adequada. O aparato estatal, que dá apoio à coleta de dados para pesquisas, é completamente diferente e, pode-se dizer, bem menos estruturado que o brasileiro.

IHU On-Line – Poderia dar algum exemplo destas diferenças?

Rumi Regina Kubo - Por exemplo, o banco de dados referente à agricultura. No Brasil, temos uma série de dados para consulta, disponibilizados pelo IBGE ou outros institutos.

Mesmo assim, estes dados são insuficientes para se pensar políticas públicas mais específicas. Esmiuçar dados em nosso Observatório pode ajudar a responder a questão de quais regiões estão ou não em segurança alimentar. No Cabo Verde não conseguimos acesso a estes dados. Eles nunca fizeram este levantamento. Tanto que, este ano, estão realizando mais um senso, e temos a possibilidade de sugerir algumas questões para tornar o levantamento análogo ao nosso e dar sequência à coleta dos dados.

Neste momento, é preciso muito mais fazer esta coleta do que fazer comparações. No entanto, percebemos que, grosso modo, existem semelhanças em relação ao nosso modo de vida. Claro que lá há toda uma condição de aridez que aqui no Rio Grande do Sul nós não temos, mas essa condição de pequeno agricultor, do autoconsumo, das limitações e da própria dificuldade de se inserir em um mercado mais amplo por restrições legais traz muitas semelhanças. Nós tivemos que dar um passo atrás, pois pensamos que haveria dados disponíveis, mas eles não estão disponíveis, nem foram coletados. Mas isso é um aprendizado.

"Estes dados são insuficientes para se pensar políticas públicas mais específicas"

IHU On-Line – Há quanto tempo existe esta proposta de Observatório no Brasil?

Rumi Regina Kubo – Lançamos a proposta do Observatório em 2012. Estamos em um momento de montagem, os resultados iniciais vão ser apresentados aqui no evento em uma das mostras de trabalhos do Seminário. Estamos no momento de coletar os dados secundários, sobretudo. Há várias fontes consideráveis de dados secundários, mas que não foram necessariamente coletados para responder, por exemplo, questões de segurança alimentar. O que nós queremos é disponibilizar para os gestores públicos algumas respostas objetivas. Assim, por exemplo, o prefeito pode olhar seu município no Observatório e verificar a situação de insegurança alimentar na região, identificando grupos de risco e podendo pensar em projetos sociais para atender esta população. Isso é algo que almejamos como meta, mas, para chegar lá, ainda temos muito caminho para trilhar.

IHU On-Line – Pensando nos temas análogos à segurança alimentar, como a fome e a pobreza, como as pesquisas podem colaborar para a mudança da realidade dos grupos vulneráveis?

Rumi Regina Kubo – Como trajetória de pesquisa, no Núcleo de Estudos e Pesquisas em Segurança Alimentar e Nutricional – Nesan, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e no Núcleo de Estudos em Desenvolvimento Rural Sustentável e Mata Atlântica – DESMA, iniciamos os trabalhos que deram origem ao Observatório atuando diretamente com os grupos vulneráveis. Começamos na base, interagindo com as populações, principalmente na perspectiva de conservação, de uso dos recursos naturais e da sustentabilidade.

Nessa interlocução com esses grupos, temos tentado, na medida do possível, desenvolver pesquisas que possam promover uma intervenção no sentido de contribuir para a mudança da realidade destas pessoas. No entanto, nos demos conta de que, ainda que seja importante permanecer atuando junto às populações, as instâncias decisórias que envolvem esses grupos partem de patamares e escalas mais amplos, em nível de Estado e das organizações estatais. Formar este ponto foi um pouco da tentativa do Observatório.

O resultado agregado de um Observatório muitas vezes mascara a realidade de grupos, famílias ou indivíduos que passam necessidade, que estão no limite de sua segurança alimentar. São escalas diferentes de avaliação.

IHU On-Line – Mesmo porque a experiência de vivenciar a fome é diferente daquela de analisar dados sobre a fome, certo?

IHU On-Line – Sim, porque na verdade uma família é mais um número dentro desse todo. O cálculo da média produzida pelo número de pessoas pode dar a entender que existe alimento suficiente para todos. No entanto, a disponibilidade de produção não é o mesmo que acesso. Por isso, cruzando dados de distribuição e da própria circulação dos alimentos, vamos perceber, por exemplo, se grande parte desse alimento não está sendo destinado ao mercado externo, à exportação, em vez de à população local. Esses dados agregados respondem muito genericamente ainda, mas a meta é justamente disponibilizá-los para propiciar a análise adequada aos gestores. No entanto, não vamos perder de vista o trabalho junto à população local, porque é outro parâmetro.

O caso dos indígenas é um bom exemplo. Nós trabalhamos com estas populações, e posso dizer que os parâmetros utilizados para determinar sua segurança alimentar são inadequados, tendo em vista os seus hábitos alimentares e seu modo de vida. A pergunta que nos fazemos enquanto Observatório é como desenvolver parâmetros especificamente voltados para as populações indígenas, a partir do olhar deles. Esse é um grande limitante do Observatório, pois se você analisar apenas os dados vai excluir elementos importantes no final das contas.

Assim, realizamos este trabalho multiescala. Em um âmbito mais amplo, com o Observatório, mas junto às populações indígenas e quilombolas temos grupos de estudantes e pesquisadores, com pesquisas mais específicas a partir de metodologias para acompanhar esses grupos. É nesta relação de complexidade que tentamos chegar a uma conclusão de se, afinal, estamos ou não em segurança alimentar. E não sei nem se essa pergunta é respondível. Mas é isso que os gestores querem, objetivamente falando.

"Estes dados são insuficientes para se pensar políticas públicas mais específicas"

IHU On-Line – Quais parâmetros ainda precisam ser levantados pensando em uma questão de gestão?

Rumi Regina Kubo – Se formos analisar toda a política nacional de segurança alimentar, temos várias metas a serem alcançadas em determinado período, com monitoramento. Nós seguimos esse plano. Ainda assim, uma das conclusões de grande parte dos indicadores, com os dados disponíveis por nossas fontes, como o IBGE e o PNAD, mesmo pesquisas feitas com profundidade não conseguem responder, para fins de monitoramento, a esta política. Essa é outra conclusão que já tiramos: alguns parâmetros não são respondíveis. Pelo menos não com o que está disponível.

Existem dados macro sobre produção e disponibilidade alimentar, de forma bastante precisa e objetiva. Mas, como disse, a disponibilidade dividida pelo consumo não diz muita coisa. Como pensar, por exemplo, a partir de uma perspectiva nutricional? Um dos parâmetros que precisam ser preenchidos diz respeito à “participação relativa de macronutrientes no total de calorias determinadas por aquisição alimentar domiciliar”. Outro é o “teor de iodo no sal”. Isso é difícil de saber a partir das análises feitas hoje pelo IBGE ou pela ANVISA. Inclusive, eles indicam as fontes, e nós estamos acessando, porém muitos chegam nesse limite.

IHU On-Line – Deseja acrescentar mais alguma coisa?

Rumi Regina Kubo – Estamos, neste primeiro momento, buscando os dados, coletando para disponibilizar no Observatório, mas é um trabalho de médio a longo prazo. Enquanto equipe, essa busca e limpeza de dados, como a própria adaptação à planilha, torna-se necessária.

Mas está sendo um trabalho multidisciplinar muito interessante, que nos faz dialogar bastante com o pessoal da informática, com as áreas da saúde, da economia, da sociologia... No início, inclusive, o diálogo era difícil em função da própria linguagem, então já foi um aprendizado. Da mesma forma em Cabo Verde. Acho que muito mais do que apontar diferenças, foi possível iniciar um diálogo em que nós conseguimos nos avaliar e eles também conseguiram se avaliar, em termos da estrutura de governo, informações e pesquisas adequadas para responder e atender uma questão tão ampla como a segurança alimentar.

 

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