Um sistema alimentar que produz famintos e obesos. Entrevista especial com Esther Vivas

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03 Maio 2014

“O problema da fome tem a ver com a falta de democracia. Temos alimentos suficientes no mundo, mas não há acesso a eles para todas as pessoas”, pondera a ativista

"O problema, hoje, quando falamos de alimentação, não tem a ver somente com a fome, mas também com a má nutrição. Porque vivemos num mundo de famintos, mas também de obesos. O sistema alimentar atual não satisfaz corretamente as necessidades de comer das pessoas. É um sistema que produz simultaneamente pessoas que passam fome e pessoas que são obesas, fruto também de uma má alimentação. E este paradoxo de viver num mundo de famintos e de obesos mostra como o sistema alimentar atual não satisfaz as necessidades alimentares das pessoas. Fundamentalmente, o que o move é a lógica do capital, do dinheiro, do benefício econômico", afirma a ativista Esther Vivas.

Nesta entrevista, concedida por telefone à IHU On-Line, Esther Vivas enfatiza que o problema da fome é, fundamentalmente, político. Segundo ela, apesar de produzirmos uma quantidade de alimentos suficiente para alimentar uma população adicional de mais 5 bilhões de pessoas no mundo, temos hoje um bilhão de pessoas passando fome entre os 7 bilhões de habitantes do planeta — ou seja, um a cada sete habitantes passa fome. “Há um problema de democracia no sistema agrícola e alimentar. A resposta à pergunta de por que há hoje fome num mundo de abundância de alimentos, a encontramos quando analisamos quem determina as políticas agrícolas alimentares, quem sai ganhando com este modelo. O atual sistema agroalimentar está pensado basicamente para que umas poucas empresas ganhem dinheiro, mesmo que para isso muitas pessoas tenham que passar fome”, frisa.

A ativista lembra que a chamada revolução verde resultou na privatização da agricultura, já que os insumos agrícolas (todos aqueles elementos, entre bens e serviços, necessários para a produção de alimentos) são controlados por poucas empresas. Em consequência, a capacidade de decidir sobre o que e de que forma plantar, que antes era exercida pelo agricultor, agora é retida pela indústria alimentar. “Atualmente, não sabemos o que comemos, não sabemos o que está por trás do que consumimos. Alimentamo-nos com produtos quilométricos, que vêm do outro lado do mundo. Perdemos a capacidade de decidir sobre aquilo que levamos à boca”, adverte, ressaltando que essas políticas resultaram na perda da diversidade agrícola e alimentar e em uma sociedade que contrai doenças a partir daquilo que ingere.

Esther Vivas é ativista política e social, posicionando-se a favor da soberania alimentar e do consumo crítico. É jornalista e mestre em Sociologia. Participou dos movimentos altermundialistas, em várias edições do Fórum Social Mundial e nas campanhas contra as mudanças climáticas. É autora de diversos livros, entre os quais Resistencias globales. De Seattle a la crisis de Wall Street (Madrid: Editorial Popular, 2009, com JM Antentas), Del campo al plato (Barcelona: Icaria Editorial, 2009, com X. Montagut), En pie contra la deuda externa (Barcelona: El Viejo Topo, 2008) e Supermercados, no gracias (Barcelona: Icaria Editorial, 2007, com X. Montagut).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quando falamos de fome, a que estamos nos referindo exatamente? Por que ainda há fome no mundo?

Esther Vivas - Atualmente, vemos que o problema da fome é um problema político. Dados do ex-relator especial das Nações Unidas sobre temas da fome, Jean Ziegler, indicam que, no mundo, produzem-se alimentos que poderiam dar de comer a 12 bilhões de pessoas. Somos atualmente 7 bilhões de pessoas no mundo. Apesar desta abundância em que vivemos, uma de cada sete pessoas passa fome. O problema é, em consequência, a existência de fome num mundo de abundância. O problema da fome tem a ver com a falta de democracia. Temos alimentos suficientes no mundo, mas não há acesso a eles para todas as pessoas. Há um problema de democracia no sistema agrícola e alimentar. A resposta à pergunta de por que há hoje fome num mundo de abundância de alimentos a encontramos quando analisamos quem determina as políticas agrícolas alimentares, quem sai ganhando com este modelo. O atual sistema agroalimentar está pensado basicamente para que umas poucas empresas ganhem dinheiro, mesmo que para isso muitas pessoas tenham que passar fome.

IHU On-Line - A fome afeta todo o planeta ou regiões específicas?

Esther Vivas - A fome afeta hoje todo o planeta. Ainda que, evidentemente, as situações mais severas da fome ocorram principalmente em países do Sul e em territórios como o chifre da África [nordeste africano] ou a América Latina — temos visto fomes periódicas no Haiti. Mas, além de ocorrer nos países do Sul, a fome está presente também em países ocidentais. Atualmente, no Estado espanhol, calcula-se que mais de um milhão de pessoas passem fome. Entretanto, o problema, hoje, quando falamos de alimentação, não tem a ver somente com a fome, mas também com a má nutrição. Porque vivemos num mundo de famintos, mas também de obesos. O sistema alimentar atual não satisfaz corretamente as necessidades de comer das pessoas. É um sistema que produz simultaneamente pessoas que passam fome e pessoas que são obesas, fruto também de uma má alimentação. E este paradoxo de viver num mundo de famintos e de obesos mostra como o sistema alimentar atual não satisfaz as necessidades alimentares das pessoas. Fundamentalmente, o que o move é a lógica do capital, do dinheiro, do benefício econômico.

IHU On-Line - O sistema capitalista gera riqueza a partir da desigualdade nas sociedades humanas e do desequilíbrio na relação entre o homem e a natureza. A fome é inerente ao funcionamento do capitalismo?

Esther Vivas - Fizeram-nos crer que as pessoas compartilham os valores inerentes ao sistema capitalista. Quando nos falam da natureza, nos dizem que na natureza o que impera é a lei da selva, a lei da competição. Na realidade, quando olhamos a natureza, vemos que o que impera é a lei da cooperação. Querem nos fazer crer que a pessoa e a natureza por si mesmas têm os valores do capitalismo, os valores da competição, do individualismo. Mas, na realidade, não é assim. Hoje, entre as diferentes crises múltiplas que afetam o sistema atual, uma crise importante é a crise dos valores. Entendemos que é preciso apelar para outras relações entre as pessoas, para outras relações com a natureza, para fazer frente às relações antagônicas impostas pelo sistema capitalista, relações antagônicas ao individualismo, à competição, à busca do benefício acima de tudo. Temos que romper com esta lógica do capitalismo que nos impõem e apelar para outra lógica, a lógica da cooperação, da solidariedade, dos bens comuns. Este é um desafio que temos pela frente.

IHU On-Line - Entender a alimentação como um produto comercial resulta em que consequências?

Esther Vivas - As consequências são claramente a fome num mundo em que diariamente, nos supermercados, oferecem toneladas de alimentos. Mas a lógica que impera é o modelo agrícola e alimentar atual. A lógica de fazer negócio com os alimentos é a mesma que vemos em outros âmbitos da vida cotidiana. Atualmente, vemos como se faz negócio com o direito à saúde, o direito à educação, o direito à moradia digna. Aqueles que ostentam as políticas atuais e aqueles que se beneficiam destes âmbitos ganham dinheiro com a privatização da saúde, com a privatização da educação e também com a fome no mundo. É urgente, pois, mudar este modelo de agricultura e alimentação e colocar no centro a necessidade das pessoas, o campesinato e o respeito à natureza.

IHU On-Line - A partir da chamada revolução verde, a decisão sobre o que e como cultivar foi retirada do camponês e transferida para as grandes companhias de alimentação. Os agricultores passaram a depender destas empresas para plantar as sementes e comercializar os alimentos. Que consequências este modelo, que opta pelas prioridades e necessidades da indústria, e não das pessoas, traz para os consumidores?

Esther Vivas - A revolução verde significou a privatização da agricultura, que foi entregue — os insumos agrícolas, as sementes — nas mãos de poucas empresas. Além disso, tirou dos camponeses a capacidade de decidir sobre aquilo que produzem. Em relação aos consumidores, estas políticas agroindustriais reservaram para si também o direito de decidir sobre o que comemos. Atualmente, não sabemos o que comemos, não sabemos o que está por trás do que consumimos. Alimentamo-nos com produtos quilométricos, que vêm do outro lado do mundo. Perdemos a capacidade de decidir sobre aquilo que levamos à boca. E as consequências para a população em geral foram muito negativas. Essas políticas significaram o desaparecimento do campesinato, a perda da diversidade agrícola e alimentar. Além do mais, é um modelo que nos deixa doentes, deixa doentes os camponeses que trabalham a terra, muitas vezes em decorrência do impacto do uso intensivo de agrotóxicos. Há cada vez mais doenças vinculadas àquilo que comemos. Neste modelo de agricultura e de alimentação, o grande beneficiário é a indústria, e não as pessoas.

IHU On-Line - Em nossa sociedade, há basicamente duas maneiras de ter acesso aos alimentos: pela compra ou pelo cultivo da terra. Neste sentido, como a fome e a desnutrição estão relacionadas com a ausência da reforma agrária e da demarcação das terras indígenas?

Esther Vivas - O acesso aos direitos naturais — à terra, à água, às sementes — é essencial para poder decidir o que comemos; que o campesinato tenha direito aos bens comuns é fundamental para recuperar esta capacidade de decisão sobre aquilo que se cultiva e aquilo que comemos. Deste ponto de vista, a reivindicação da reforma agrária e a reivindicação das terras dos povos indígenas para que estejam nas mãos das suas comunidades é essencial. Hoje, ao contrário, notamos como a atual crise econômica provocou um aumento da privatização dos bens comuns, gerou uma nova onda de monopólio e privatização de terras. Vemos como no contexto atual de crise econômica o capitalismo se veste de verde, e a economia verde busca fazer negócio com bens que são essenciais para a humanidade, para a vida e para a nossa alimentação. Deste ponto de vista, a reivindicação do direito à terra é essencial para que se alcance uma mudança de modelo.

IHU On-Line - O aumento do sobrepeso e da obesidade na população mundial se deve à alimentação uniforme imposta pelo modelo econômico atual?

Esther Vivas - A obesidade e o sobrepeso, a má nutrição, é o resultado, por um lado, da pobreza. Vemos como o sobrepeso e a obesidade afetam em geral, nas sociedades, aqueles que têm menos recursos econômicos. Há uma construção de classe social ligada ao que comemos e a uma má alimentação. Aqui, no Estado espanhol, por exemplo, do total de famílias que são expulsas de suas casas no atual contexto de crise, calcula-se que 45% (destas famílias) têm dificuldades para comprar alimentos. E há relatórios que assinalam — aqui no Estado espanhol — que aquelas comunidades autônomas com os índices mais elevados de desemprego são também aquelas nas quais os índices de sobrepeso e obesidade são maiores.

Ao mesmo tempo, não é apenas um problema de pobreza vinculado ao sobrepeso e à má nutrição. Muitas vezes há também um problema de desinformação. Vivemos em sociedades em que não há uma educação para aquilo que comemos, como devemos comer, como devemos nos alimentar. Deixamos a nossa alimentação nas mãos de grandes agroindústrias, de grandes empresas da distribuição de alimentos que, basicamente, buscam fazer negócio com os alimentos. Aqui se difundiu um modelo de alimentação fast food homogeneizada, que está submetido ao lucro e ao dinheiro, mas que, ao contrário, não leva em consideração a saúde das pessoas. A desinformação sobre o que comemos faz com que muitas pessoas comam mal, acabem comendo alimentos que podem ter um impacto negativo sobre a sua saúde, mas que os comem porque é o modelo alimentar que se impôs por parte destas grandes empresas.

IHU On-Line – Neste sentido, sendo os alimentos ricos em calorias e em açúcar oferecidos a preços mais baixos que os alimentos saudáveis, até que ponto, para a população em geral, manter uma dieta saudável é mais uma questão econômica do que educativa?

Esther Vivas - Em relação àquilo que comemos, há uma questão econômica — em países da União Europeia afetados pela crise, há pessoas que não têm dinheiro para comprar alimentos. Evidentemente, os ingressos econômicos determinam em parte o que podemos consumir, mas há também o elemento vinculado à informação. Felizmente, há cada vez mais pessoas que questionam o que está por trás dos alimentos que consumimos, o que está por trás do que comemos. E estão nascendo alternativas ao modelo dominante de produção, distribuição e consumo. Estão emergindo alternativas baseadas na agroecologia, na produção e consumo de alimentos locais, num modelo de agricultura ecológica. Há também iniciativas que buscam combater a pobreza estrutural que as pessoas sofrem.

Surge uma série de iniciativas que buscam que as pessoas que mais sofrem a situação de crise econômica possam alimentar-se bem, alimentar-se dignamente. Nos Estados Unidos, há territórios chamados de desertos alimentares, porque as pessoas não têm onde comprar alimentos frescos, locais estes em que se está começando a fazer hortas urbanas. Presenciamos também aqui no Estado espanhol casas ocupadas por pessoas que foram expulsas das suas residências e que estão fazendo suas hortas urbanas. Vincular as lutas por uma vida digna, por um trabalho digno e pela boa alimentação, creio, é um passo adiante muito importante. Alimentar-se bem não é um privilégio de alguns poucos que economicamente se podem permitir isso. Deve ser um direito para todos.

IHU On-Line - Por que a alimentação saudável enfrenta tanta resistência para ser prioritária na agenda de um projeto político coletivo?

Esther Vivas - Porque os vínculos entre aqueles que se beneficiam deste modelo agroindustrial e aqueles que ditam as políticas atuais são muito estreitos. Há uma dinâmica clara de portas giratórias: aqueles que hoje estão no governo, amanhã, quando saem do governo, passam a ocupar cargos em conselhos de assessores das principais empresas do país, e vice-versa. Na Europa, por exemplo, em Bruxelas, existem milhares de lobbies que pressionam a União Europeia para que aprove leis que os beneficiem.

No Estado espanhol, por exemplo, temos um exemplo clássico do que estamos falando. A Agência Espanhola de Segurança Alimentar, que, como diz seu nome, tem que cuidar da nossa segurança alimentar, tem como sua atual diretora a sra. Ángela López de Sá, que, antes de ocupar o cargo nesta agência pública, era uma das principais diretoras da Coca-Cola. Trabalhou durante 20 anos nessa empresa. Deste ponto de vista, há um conflito de interesses claro. Este caso não é anedótico; poderíamos encontrar vários exemplos de como executivos de empresas privadas ocupam hoje cargos públicos. Isso acontece no Estado espanhol, mas acontece também em muitos outros países. Este fato explica a orientação das atuais políticas agrícolas e alimentares a serviço das principais empresas do setor.

IHU On-Line - O que as pessoas podem fazer para apoiar ações alternativas de alimentação?

Esther Vivas - Podem fazer muitas coisas. O importante é assinalar que há alternativas e que elas estão se desenvolvendo. Em muitos países emerge o que poderíamos chamar de novo campesinato, pessoas que voltam ao campo e que começam a trabalhá-lo de outra maneira, apostando em uma agricultura local, uma agricultura ecológica, uma agricultura estacional, uma agricultura camponesa; em síntese, numa lógica contrária à da agroindústria. Cada vez mais há cidadãos que questionam aquilo que comem, que optam por consumir de outra maneira, comprando diretamente do produtor, em mercados de camponeses, através de grupos de cooperativas de consumo. Também as hortas urbanas vão se multiplicando, assim como as campanhas ou iniciativas que buscam reciclar alimentos descartados pelos supermercados e reutilizá-los, além da organização de “comedores populares”, etc.

Tudo isso demonstra que há alternativas. Mas, para além destas alternativas a título pessoal ou coletivo, são imprescindíveis as mudanças políticas. Necessitamos de uma reforma agrária, que a terra seja para quem nela trabalha e que tenha uma finalidade social e não especulativa. Necessitamos também que se proíbam os transgênicos, que têm um impacto muito negativo sobre o meio ambiente e sobre o consumo. O fundamental hoje é introduzir democracia neste modelo de agricultura e alimentação, construindo-se um sistema que esteja a serviço das pessoas e da satisfação das suas necessidades alimentares.

 (Por Luciano Gallas / Tradução: André Langer)

Veja também:

Nota: As fontes das imagens acima são, respectivamente, www.crn8.org.br e seminario10anosdepois.wordpress.com