500 anos antes de Francisco, o C8 de... Paulo III

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Por: André | 08 Mai 2014

A história gosta das piscadas de olho e isso é, no mínimo, divertido. Assim como o Papa Francisco cinco séculos mais tarde, quando Paulo III decidiu, em 1536, reformar a Cúria, criou uma comissão de oito conselheiros presididos por um diplomata italiano, o cardeal Contarini.

 
Fonte: http://bit.ly/1rQdglO  

A reportagem é de Marie-Lucile Kubacki e publicada no sítio da revista francesa La Vie, 24-04-2014. A tradução é de André Langer.

Naquela época, a situação era explosiva. No século XVI, a Igreja católica encontrava-se diante de um grande desafio: como reagir às críticas dos reformadores protestantes à depravação do clero, em meio a escândalos financeiros, e como responder à sua teologia da salvação pela graça? O desafio era duplo: disciplinar e doutrinal.

Em um clima de tensões políticas e religiosas extremas, marcado pelo confronto entre Carlos V e Francisco I, Paulo III encara o problema de frente e engata uma séria limpeza da cúria, assessorado pela famosa comissão de oito jovens conselheiros, cardeais ou futuros cardeais, sob a liderança do cardeal Contarini. Eram oito, mesmo número de pessoas na arca de Noé, de acordo com a Primeira Carta de Pedro (3,16a).

Dos oito, alguns muito próximos dos humanistas e de Erasmo, sete serão criados cardeais pelo próprio Paulo III entre 1536 e 1542: Gian Pietro Caraffa, o futuro Paulo IV; Reginald Polé, o último arcebispo de Canterbury da Igreja católica romana e conselheiro da Mary Tudor; o escritor Jacopo Sadoleto; Girolamo Aleandro, núncio apostólico e inimigo de Lutero; Frederico Fregoso, arcebispo de Salerno; o beneditino Gregorio Cortese e o dominicano Tommaso Badia. Junta-se à lista Gian Matteo Giberti, cardeal bispo de Verona.

Sua missão: trabalhar na reforma preparatória do Concílio e identificar os abusos. "A primeira reunião foi realizada no final de novembro 1536 com um discurso inaugural de Sadoleto. Os prelados, geralmente leves, atacaram violentamente a corrupção na Igreja, jogando a culpa sobre os papas anteriores e conclamando Paulo III, que estava ausente, para romper com as formas perniciosas de seus antecessores. Sadoleto pintou um retrato dos males que corroem a Igreja, que ele atribuiu, em grande parte, à ganância do clero", escreveu Elisabeth G. Gleason em sua biografia Gasparo Contarini (University of California Press, 1993 – em inglês).

O diagnóstico é introduzido, quatro meses depois, em um relatório feito em 1537 e publicado em 1538, o Consilium Emendanda Ecclesia. Balanço vitríolo. A Igreja é um corpo doente cujo centro nervoso, a cúria, está gangrenado de corrupção. O problema está na má concepção da autoridade papal, o que cria um sistema de servilismo. Este espírito de corte abre as portas para todos os tipos de práticas venais. Assim, a cúria, em vez de infundir dinamismo, mata as iniciativas pastorais pela raiz por causa de procedimentos muito pesados.

Metodicamente, em 26 seções, o C8 de Paulo III enumera os abusos e propõe remédios que não demoram a fazer ranger os dentes no Vaticano. Entre as ideias mais impopulares encontramos a proposta de suprimir as comissões auferidas pelos cardeais além do seu tratamento.

Provavelmente muito à frente do seu tempo, a maior parte permanece letra morta, salvo aquelas partes relativas à necessidade de ter sacerdotes devidamente formados. Para Paulo III, com efeito, este balanço, que reflete a capacidade da Igreja de fazer sua autocrítica no plano disciplinar, é também uma maneira de defender a doutrina católica. Isso valerá uma resposta impertinente de Lutero. Para ele, as medidas são superficiais e não abordam o problema de fundo.

Cinco séculos mais tarde, enquanto Francisco se dispõe a reformar a Igreja e a cúria com o seu C8 versão 2013, em meio a denúncias de clericalismo e de luta contra a lavagem de dinheiro, o texto do Consilium, que apela para uma "purificação" do papado, parece atravessar o tempo. Se ele é datado em muitos pontos, sua conclusão ressoa com uma espantosa modernidade: "Nós não perdemos a esperança de que podemos, sob o seu governo, ver a Igreja de Deus limpa, bela como uma pomba, e em paz consigo mesma, unificada, em memória eterna de seu nome. Você escolheu o nome de Paulo; você deve imitá-lo, assim esperamos, na caridade”.

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