"Teólogos, revisitem a parábola do filho pródigo"

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11 Junho 2011

Neste momento, a Igreja é o filho pródigo. Ela está tomando o tesouro dos teólogos – sua formação, talento, reputação, contribuição – e desperdiçando-o, dando-a de alimento aos porcos. O Espírito de Jesus chama os teólogos a serem o pai dessa parábola, não rejeitando, mas acolhendo de volta o filho pródigo. Os teólogos serão capazes de perdoar a Igreja?

A reflexão é de Camille D`Arienzo, religiosa norte-americana das Irmãs da Misericórdia, ex-superiora de sua comunidade, no Brooklyn, em Nova York, e ex-presidente da Leadership Conference of Women Religious, conferência das religiosas de vida apostólica dos EUA. A tradução é de Moisés Sbardelotto e revisada pela IHU On-Line.

Eis o texto.

Há momentos em que o passado parece o prólogo. A história, contida no seu contexto específico, quebra as fronteiras do tempo e assume uma reencarnação imprevista. Essa parece ser a situação da nossa irmã, Elizabeth Johnson.

Como principal conferencista da assembleia da Leadership Conference of Women Religious no dia 2 de agosto de 2008, Johnson, Irmã de São José, falou sobre a necessidade universal de estender e aceitar o perdão. Sua graça de cura, afirmou, enriquece a comunidade.

Ela descreveu uma situação que ocorreu em 1986, envolvendo seu colega na Universidade Católica da América, o padre Charles Curran. Estava em questão a sua discordância da Humanae Vitae, a encíclica do Papa Paulo VI que condena o uso da contracepção artificial. Na época da sua promulgação, há 18 anos, Curran, teólogo moral, havia criticado a eclesiologia e a metodologia da encíclica.

Ele alegou ainda que "os cônjuges podem decidir responsavelmente de acordo com a sua consciência que a contracepção artificial, em algumas circunstâncias, é permitida e de fato necessária para preservar e fomentar o valor e a sacralidade do matrimônio". Seiscentos teólogos assinaram essa declaração. Como resultado, Curran foi demitido da Universidade Católica. No entanto, depois de cinco dias de protesto dos professores, ele foi reintegrado.

O Vaticano, entretanto, não deixou esquece a opinião divergente de Curran. Dezoito anos mais tarde, o cardeal Joseph Ratzinger, então chefe da Congregação para a Doutrina da Fé e hoje Papa Bento XVI, convocou Curran a Roma. O teólogo saiu desse encontro sabendo que não havia conseguido convencer Ratzinger de sua posição. A divergência acabaria gerando um desastre pessoal e profissional para Curran. Seus escritos seriam condenados, ele não poderia manter um posto de professor de teologia e, além disso, sua humilhação iria abranger outros teólogos que compartilhavam seus pontos de vista. Tudo isso, de fato, aconteceu.

Johnson descreveu a forma pela qual Curran foi encorajado a chegar a um acordo com a sua humilhação:

O dia seguinte era um domingo. Bernard Häring, o influente teólogo moral que lecionava em Roma e era um antigo professor e mentor de Curran, celebrou a missa em uma capela na Alphonsianum para Curran e seus seis conselheiros universitários. O Evangelho era o do filho pródigo. Olhando para Charlie, a homilia de Häring foi algo como isto: neste momento, a Igreja é o filho pródigo. Ela está tomando o teu tesouro – a tua formação, talento, reputação, contribuição – e desperdiçando-o, dando-a de alimento aos porcos. O Espírito de Jesus te chama a ser o pai dessa parábola, não rejeitando, mas acolhendo de volta o filho pródigo. Tu perdoas a Igreja?

Ela concluiu: "Häring dirigiu-se face-a-face a Curran, agarrando-os pela gravata ou pelo casaco e olhando-os nos olhos com essa questão. A missa não poderia continuar até que eles lutassem com a sua raiva e permitissem que o Espírito os movesse a um lugar diferente".

Johnson defendeu a necessidade de que os indivíduos feridos pela Igreja entendessem que o perdão não significa desculpar. Ela disse: "O perdão significa tocar em uma fonte de compaixão, que engloba a dor e suga o veneno, de forma que possamos seguir em frente, fazendo uma contribuição positiva, sem ódio".

Curran levou suas pérolas à arena acadêmica não católica. Desde 1991, estudantes e docentes da Southern Methodist University, em Dallas, o reverenciam. Um recente comunicado de imprensa disse sobre Curran: "Ele é considerado por colegas teólogos como um dos maiores teólogos morais do século XX".

Esse elogio vem de várias frentes. O professor de ética Robin Lovin disse: "Curran é certamente um dos principais professores e estudiosos de ética cristã na América do Norte. Por meio de seus muitos livros e obras como professor, ele fez com que toda uma geração de protestantes se tornasse mais consciente sobre as tradições morais católicas e introduziu estudiosos católicos a uma abordagem mais ecumênica".

As contribuições de Curran têm sido aclamadas para além da fronteira do Texas. Ele atuou como presidente de três associações acadêmicas nacionais: a Sociedade Teológica Norte-Americana, a Sociedade Teológica Católica dos Estados Unidos e a Sociedade de Ética Cristã. Ele também foi nomeado o "Homen nas Notícias" pelo The New York Times e a "Pessoa da Semana" pela ABC TV. É autor e editor de mais de 50 livros na área da teologia moral.

Perdoar a Igreja

Agora, um quarto de século mais tarde, Johnson pode ter que ponderar a questão que Häring pôs a Curran. A circunstância – embora não sendo tão terrível nem tão punitiva quanto a de Curran – é dolorosa. Desta vez, não é o Vaticano, mas sim a Comissão de Doutrina da Conferência dos Bispos dos EUA que criticou a sua teologia, após uma investigação sobre o seu livro de 2007, Quest for the Living God.

Apesar de suas duras críticas, os bispos não exigiram que Johnson seja demitida da Fordham University, ou proibida de continuar falando e publicando. Mas seu ataque repentino, emitido sem aviso, processo ou convite para discutir o livro, denunciou que o livro está marcado por "imprecisões, ambiguidades e erros" e "mina completamente o Evangelho e a fé daqueles que creem no Evangelho".

O conselho de diretores da Sociedade Teológica Católica dos Estados Unidos emitiu um comunicado criticando a Comissão de Doutrina por ignorar as próprias diretrizes estabelecidas pelos bispos para a avaliação do trabalho de teólogos proeminentes. A declaração do conselho caracteriza a avaliação doutrinal como "deficiente", porque deturpa as opiniões e explicações da religiosa. O conselho manifesta a sua surpresa de que os bispos não compreenderam o desejo de Johnson de encontrar novas formas de expressar a beleza e o mistério do divino.

Desde o anúncio das críticas dos bispos ao trabalho de Johnson, as vendas do seu livro têm aumentado, e apoiadores e estudantes de todo o país têm manifestado sua admiração pela sua pessoa e pelas suas contribuições teológicas.

Johnson sente-se triste pelo fato de os bispos não terem discutido suas preocupações com ela. No entanto, ela está respondendo a eles com um respeito muito maior do que o que lhe foi oferecido.

Esse caso infeliz continua atraindo atenção. Johnson vai ter tempo para contemplar uma questão familiar: "Tu podes perdoar a Igreja?".

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