Ciência e cultura digital: eis onde a Igreja está atrasada. Entrevista com Gianfranco Ravasi

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13 Novembro 2018

Gianfranco Ravasi também estava entre as batinas circulando por aí, fotografadas por Mario Giacomelli, uma imagem indelével para a Il Mondo, de Mario Pannunzio, a revista semanal da “terceira força”, um caruncho crítico encravado nas duas Igrejas, a católica e a comunista, não se esquecendo das laicistas, reduzidas?

A reportagem é de Bruno Quaranta, publicada em La Stampa, 11-11-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, o cardeal Ravasi recebeu nesse sábado, 10, em Turim, o Prêmio Pannunzio, ao lado de figuras como Montanelli e Mila, Abbagnano e Rigoni Stern, Ronchey e Spadolini.

Eis a entrevista.

Pannunzio e Il Mondo: que eles representam na sua biografia intelectual?

Eles sublinham a dupla vocação que me acompanha. Por um lado, defrontar-me com quem, em relação ao seguimento humano, se coloca em angulações diferentes. Por outro, o fato de eu ser eclético, aceso por uma vasta curiositas. Por exemplo, lendo Il Mondo, descobri Flaiano, que se destacará entre os meus autores. Um texto, em particular. Cristo, retornando para a terra, encontra um homem que, mostrando-lhe seu próprio filho destroçado, vocifera com ele: “Não quero que tu o cures, mas que tu o ames”. Cristo não hesita em se espelhar nele: “Tu me pediste aquilo que eu posso dar”.

O leigo Pannunzio quis como viático para a viagem extrema uma cópia de “Os noivos”. Como avalia essa escolha?

Há figuras, como Pannunzio, como Flaiano, com uma forte carga de espiritualidade, assistidos pela consciência de que o conhecimento humano é poliforme, que pode ser adquirido não apenas pela razão. Da arte ao amor, os caminhos que conduzem a ele são múltiplos.

A secular Il Mondo, uma academia de diálogo. Entre os seus colaboradores, o liberal-católico Jemolo e o “popular” Sturzo, antes de crentes pensantes, como diria Bobbio (e Martini).

A revista Il Mondo nos leva de volta a tempos diferentes dos nossos. Hoje, o que domina é o choque, a superficialidade, a indiferença. Em todos os campos. Não a reflexão, não o estudo, não o conhecimento de que a realidade é complexa e complicada. Da política à religião, passando pela esfera digital.

A Igreja de Francisco, “hospital de campanha”, não entra em conflito com a reflexão, teológica ou não?

Cada pontificado tem uma identidade. Passamos da abordagem fortemente doutrinal de Ratzinger ao passo nitidamente pastoral de Francisco. Componentes igualmente essenciais, que misteriosamente se desdobram na história da Igreja. Porque – Ecclesiaste docet – há um tempo para tudo.

Doutrina e pastoral. Há meio século, a controversa encíclica Humanae vitae, de Paulo VI, a doutrina em primeiro lugar. Na Amoris laetitia, de Francisco, a pastoral está acima de tudo.

Há um equilíbrio a se buscar. Entre a verdade objetiva, um dado de fé e a encarnação da verdade. A verdade é absoluta, mas não totalmente. A verdade é relativa: para mim, não em si mesma. O supremo tribunal é a consciência, como afirma o Concílio, como se recorda na própria Humanae vitae.

Uma lembrança de Montini, recentemente santo?

Ele se informou sobre a minha sensibilidade cultural. Para ele e para mim, a França é muito crucial.

Entre os franceses que o senhor prefere, está Julien Green. Um dos seus personagens defende: “Tornando-se cristão, deixou de ser católico”. Como interpreta?

Green, que nasceu protestante, era agostiniano. Queria que o católico não perdesse a alma cristã. Porque o católico pode ser – um risco real – ateu.

Assim como um ateu pode se tornar naturaliter cristão...

Abramos novamente a “Apologia” de Justino, filósofo do Lógos, Padre da Igreja. O Lógos que se derrama no mundo, habitando e permitindo que se reconheçam como cristãs personalidades como Sócrates e Heráclito.

O Pontifício Conselho dirigido pelo senhor foi desejado por Montini...

A mudança de nome foi estabelecida por João Paulo II. Paulo VI, por sua vez, referiu-se explicitamente ao “diálogo com os não crentes”.

Entre os não crentes, muitas vezes, encontram-se os artistas (em sentido lato: poetas e homens das letras, pintores, escultores...). Thomas Mann afirmava: “Tu crês no engenho que não tem nada a ver com o inferno? Non datur”.

A teologia nasce como teodiceia: para justificar a existência de Deus e do Mal, um problema tão indelével quanto evitado. Mas não pelos “porteiros das trevas”, como Guitton, em diálogo com Montini, que "batizou" Dostoiévski, Bernanos, Gide.

Martini denunciou o atraso da Igreja, quantificando-o em 200 anos. Em que ela está mais atrasada?

Em dois setores. As ciências, que tendem a caminhar por conta própria, evitando ou subestimando as perguntas éticas. E a cultura digital: um jovem que passa seis horas por dia na frente do computador é uma questão antropológica, nasce um ser humano diferente.

O senhor também é hebraísta. Barth afirmava que o único problema ecumênico é a relação com os judeus.

Não. A teologia da substituição decaiu. A nova Aliança não substituiu a Antiga. No ambão, Antigo e Novo Testamento estão juntos. O próprio Paulo, na Carta aos Romanos, adverte quem dos irmãos israelitas, “provém Cristo segundo a carne”.

Quais são as marcas de Turim na sua formação?

Milão, especialmente, contém as minhas raízes. É claro que não posso deixar de lembrar o magistério do Pe. Pellegrino (Nota de IHU On-Line: como cardeal arcebispo de Turim, participou do Concílio Vaticano II, onde teve uma atuação muito importante. Foi o grande arcebispo de Turim, apoiando decididamente, p. ex., os padres operários), que, no Concílio, defendeu uma liberdade cristã de pesquisa e de pensamento, tanto para os leigos quanto para os clérigos.

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