“Nossa sociedade tem medo das diferenças, mas a Igreja não deveria ter medo”. Entrevista com Timothy Radcliffe

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17 Outubro 2018

Depois de uma pausa forçada por motivos de saúde, o padre Timothy Radcliffe, o dominicano inglês Mestre da Ordem dos Frades Pregadores, retornou à sua missão de conferencista em todo o mundo. De 22 a 26 de outubro, ele estará na Itália para uma série de encontros que passarão, em sucessão, por Vicenza, Brescia, Milão, Bergamo e Parma.

E justamente nestes dias chegou às livrarias pela editora Missionaria Italiana, o último texto em italiano que leva sua assinatura: é uma coleção de discursos apresentados em diferentes eventos intitulada Alla radice la libertà. I paradossi del cristianesimo (Na raiz da liberdade. Os paradoxos do cristianismo - em tradução livre -, p. 160, € 15,00). Entre os temas abordados também a sua luta contra o câncer ("eu estava quase como aqueles personagens dos desenhos animados que continuam a andar e de repente percebem que o chão desapareceu debaixo deles ...") e a questão dos migrantes ("o estrangeiro abre um pouco da nossa identidade para toda a humanidade, nos tornamos mais católicos, mais universais").

Encaminhamos a ele algumas perguntas sobre a situação do cristianismo hoje com referência especial à Europa.

A entrevista é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada por Settimana News, 15-10-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.


Eis a entrevista.

Padre Radcliffe, no passado o senhor falou e escreveu sobre o papel da fé na Europa: o que mudou hoje? O que significa ser cristão na Europa de 2018?

A Europa hoje é muito variada e só posso referir-me à minha limitada experiência. Duas coisas que eu diria que se destacam. Em primeiro lugar, os jovens estão à busca de um sentido para sua vida. Muitos são céticos quanto ao consumismo da geração anterior. Eles bebem menos, têm menos desejo de sexo e estão mais conscientes das ameaças que afligem nosso planeta. Existe um novo idealismo. Muitos jovens, no intuito de dar sentido a tudo isso, olham para o cristianismo com novos olhos e eu posso constatar isso em Oxford.

Ao mesmo tempo, no entanto, registra-se um sentimento de vergonha pela crise decorrente dos abusos sexuais e o grande dano que ela causou aos jovens mais vulneráveis. Isso realmente desacreditou a Igreja aos olhos de muitos. Então, como pode resplendecer a beleza da nossa fé? Eu acho que é possível. Um jovem estudante me disse há poucos dias: "Nós crescemos sabendo dos escândalos dos abusos: é terrível dizer isso, mas isso não abalou a nossa fé".

A Europa, ou melhor, todo o mundo ocidental, está fechando suas fronteiras cada vez mais, quase rejeitando a mesma globalização que construiu. O que o cristianismo poderia fazer para contribuir a reverter essa tendência?

O desafio é descobrir o estrangeiro como irmão ou irmã. Para fazer isso, devemos reconhecer que a globalização é tanto uma bênção quanto uma maldição. Coloca-nos em contato com toda a humanidade. Abre as nossas mentes. O papa Bento XVI escreveu com muita clareza sobre o fato de que essa nova conectividade possível via web também possa remeter à nossa conexão em Cristo. Mas, ao mesmo tempo, é também uma fonte de desagregação e enfraquece as comunidades locais na raiz. Na Grã-Bretanha, talvez menos na Itália, às vezes acaba sendo subvertido o sentido de pertencimento a algum lugar, alimentando a rejeição dos imigrantes.

A Igreja tem algo maravilhoso para oferecer: é a instituição mais global que já existiu e está ligada à humanidade do mundo inteiro, mas também é a instituição mais local que existe, pois, quase em toda parte, articula-se em uma paróquia local, ou está ligada a uma comunidade religiosa local ou a um mosteiro. A Igreja é um lugar onde é possível pertencer em nível local. Por isso a Igreja deveria ajudar as pessoas a ter uma forte identidade local, enraizada nas tradições e na língua de um determinado lugar, mas, ao mesmo tempo, ter também uma identidade global, sentindo-se à vontade ao acolher o estrangeiro.

O senhor nasceu no Reino Unido, uma ilha que também foi um grande império colonial. Hoje o Reino Unido escolheu o Brexit. O que pode nos dizer sobre esses sentimentos de fechamento e separação que invadem a Europa (entre nacionalismos e soberanismos) que nos fazem retornar ao clima do século passado?

Primeiro, deixe-me dizer que estou profundamente triste pelo Brexit. 70% dos jovens, com menos de 25 anos, votaram em permanecer na UE. E estou convencido de que ainda existe a possibilidade de não sairmos!

Aqueles que votaram no Brexit, assim como aqueles que votaram no presidente Trump nos Estados Unidos e em muitos partidos populistas na Europa, são frequentemente aqueles que se sentem deixados para trás. Os trabalhadores das antigas indústrias forçadas a fechar e que costumavam votar em partidos progressistas, muitas vezes se voltaram abruptamente para a direita porque não se sentiam mais respeitados. Eles perderam toda a confiança no establishment político. Percebem a desigualdade radical que está dividindo a nossa sociedade e se sentem excluídos. É um grande grito de raiva e desespero.

Portanto, a Igreja precisa ser acolhedora com os imigrantes, estar próxima daqueles que já não se sentem mais em casa dentro de seus próprios países. Como alguém pode acolher o estrangeiro em sua casa, se ele não se sente em casa?

Até mesmo os cristãos de diferentes confissões parecem se afastar: a distância entre ortodoxos, anglicanos e luteranos está se ampliando. As Igrejas Ortodoxas estão se separando, como na Ucrânia. Que explicação dá a tudo isso?

Quando visitei a Ucrânia pela primeira vez, há um quarto de século, já havia divisões claras entre as diferentes Igrejas Ortodoxas. Nada de novo. As tensões entre Istambul e Moscou sobre quem seria o centro do mundo ortodoxo acabam por se chocar na Ucrânia.

Se olharmos para as outras Igrejas cristãs, é verdade que às vezes as divisões estão se ampliando. A ordenação das mulheres pelos anglicanos significa que o sonho da unidade se afasta. Mas de alguma forma, as diferentes Igrejas também estão mais próximas. Na prática, lemos os mesmos livros, compartilhamos as nossas liturgias, falamos nas igrejas uns dos outros. Acabei de transcorrer uma semana conversando com 500 pessoas que trabalham nas catedrais anglicanas da Grã-Bretanha e eu mesmo sou um cônego da Catedral Anglicana de Salisbury.

Mesmo que o objetivo da unidade institucional pareça mais distante, os laços de amizade são certamente mais fortes. Se houver amizade, quem poderá dizer o que acontecerá no futuro? O Papa João Paulo II disse ao Arcebispo de Canterbury: "se tivermos uma colegialidade de tipo afetivo, depois vira também uma colegialidade efetiva".

Existe um novo papel para o papa nessa situação difícil? O papado gastou (infelizmente, em vão) muitas palavras para evitar as duas guerras mundiais do século XX: qual é o papel do papa hoje? O que poderia ser, na sua opinião, sua contribuição para ajudar a Europa?

O papa Francisco é uma grande autoridade moral. É verdade que, recentemente, foi de certa forma afetado pela crise dos abusos sexuais por parte do clero. Ele é percebido como não tendo reagido com uma adequada decisão. Pessoalmente acredito que isso não seja verdade e que ele está fazendo todo o possível. Apesar disso, ele continua sendo a pessoa mais respeitada em todo o mundo. Ainda ontem, um amigo ateu me disse que gostava do papa Francisco! Ele nos chama a todos para nossa vocação para a bondade. Sua generosidade de coração também toca a nossa. Seu apelo é nos tirar de nossos mundos estreitos para estarmos abertos a toda a humanidade. E nos lembra que a santidade é possível para todos nós.

Hoje a questão migratória divide as sociedades europeias, mas também divide a Igreja Católica no seu interior: como é possível? Todos nós temos o mesmo evangelho ...

A Igreja está profundamente dividida em quase todos os assuntos. Todos nós sofremos de uma dramática polarização não só na sociedade, mas também na Igreja. Talvez seja pior nos Estados Unidos, mas também está muito presente na Europa. No entanto, o cristianismo sempre abraçou as diferenças! Você diz que temos o mesmo evangelho, mas, graças a Deus, temos quatro Evangelhos, cada um diferente. O Novo Testamento abraça as diferenças sem nenhuma concorrência! Temos o Antigo Testamento e o Novo Testamento em uma única Bíblia.

Nossa sociedade tem medo das diferenças, mas a Igreja não deveria ter medo. As mídias sociais, blogs, sites, etc. nos levam todos às pessoas com quem concordamos! Mas nessa fase em que a sociedade está tão dividida, a Igreja deveria testemunhar a beleza da diversidade. A diversidade é fecunda, literalmente, tanto com os homens como com as mulheres! Se não concordo com alguém, significa que temos algo a ensinar um ao outro, no momento em que buscamos uma verdade mais universal, isto é, mais católica.

Em suas viagens ao redor do mundo, o quanto se sentiu envergonhado de ser um cristão europeu e o quanto se sentiu orgulhoso?

Fui muitas vezes ao Iraque e ali senti vergonha de ser um cidadão ocidental, especialmente porque a Grã-Bretanha era aliada dos EUA nas guerras iraquianas que levaram a consequências tão terríveis. Em todos os lugares vi os resultados desastrosos de interferências estúpidas e ignorantes ocidentais nas políticas internas de outros países, criando o caos que alimentou o crescimento do ISIS.

Por outro lado, sinto-me orgulhoso do corajoso testemunho dos religiosos europeus na Argélia, que muitas vezes levou ao martírio. Acho que os monges das montanhas do Atlas (os monges de Tibhirine, ndr) e o bispo Pierre Claverie, dominicano, que serão beatificados em dezembro e permaneceram onde estavam para estar perto de seus amigos muçulmanos em um momento de grave perigo, embora lhes tenha custado a vida.

Neste momento, os jovens já não têm mais confiança no futuro: não confiam nos políticos ou na Igreja, especialmente depois dos escândalos e dos testemunhos contrários ao Evangelho, os discursos fora de tempo, as liturgias incompreensíveis ... No Ocidente já perdemos outra geração?

É sem dúvida verdade que muitos jovens estão deixando a Igreja. Mas, como eu disse em resposta à primeira pergunta, muitos também são aqueles que permanecem e também há novos convertidos. Quando vejo os jovens que se juntam à nossa Ordem na Grã-Bretanha, estou confiante de que esta crise atual purificará a Igreja e algo novo nascerá. Talvez, como acontece com todos os recém-nascidos, a Igreja renovada será menor, mas tenho certeza de que ela crescerá novamente.

Não devemos ter medo das crises. Elas também podem ser fonte de novo entusiasmo. A Eucaristia nos recorda da pior crise da história da Igreja, quando Jesus foi ao encontro da paixão e da morte e todos os seus discípulos estavam prestes a fugir. Foi então que algo novo e maravilhoso teve início.

O senhor é um frade dominicano, cujo lema é "Laudare, benedicere, praedicare" (2016 foi o " Jubilæum 800 Ordo Ppraedicatorum"): qual é a tarefa dos religiosos e das mulheres na Europa e no mundo?

Os religiosos fazem votos que hoje parecem uma loucura, mas eu também acredito que sejam um caminho para a liberdade.

O voto de obediência não nos chama a sermos robôs desprovidos de inteligência que simplesmente fazem o que nos é dito. A obediência é a nossa promessa de confiar a nossa vida à comunidade e à pregação do Evangelho. É uma forma de liberdade. Como em Isaías 6, dizemos: "Eis-me aqui, envia-me a mim".

O voto de castidade é a liberdade de amar com um coração destituído da vontade de possuir: possibilita uma maravilhosa intimidade com muitas pessoas. É uma liberdade difícil de adquirir e certamente erros são cometidos ao longo do caminho, mas é lindo quando chegamos a esse ponto.

A pobreza é outra forma de liberdade: estamos livres do peso dos bens individuais (mesmo às vezes tenhamos o peso de construções antigas!). Somos livres de nos encaminhar pela estrada. Minha esperança é que, em uma sociedade como a atual que é tentada pelo fatalismo, como religiosos possamos ser um sinal da liberdade dos filhos de Deus.

Há alguns meses o senhor gosta de lembrar em público a experiência de sua doença. Recentemente, foi publicada a edição italiana do diário de Michael Paul Gallagher sj (escrito quando aguardava a morte): o que limita o homem moderno ao pensar em sua morte? Refletir sobre o fato de que nossa vida terá um fim poderia ajudar os europeus a evitar fechamentos e egoísmos e a tornar-se uma única família?

A experiência da minha mortalidade, quando tive câncer, revelou-me que a vida é um presente. Minha existência não é indispensável! Deus doa a mim a minha existência em cada momento. Se eu abraçar essa intuição, posso ver que a vida de todos é um dom que vem de Deus e é um dom para mim. Eu poderia até aprender a me alegrar pelo dom de um irmão dominicano que está me deixando louco! Além disso, se a minha vida atual é um dom, então eu devo aproveitar e vivê-la plenamente. Viver bem agora é a melhor preparação para viver na eternidade. De fato, a vida eterna inicia toda vez que eu me dirijo aos outros com sentimentos de amor e de alegria.

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