Beatificação dos monges de Tibhirine: testemunho exclusivo do último sobrevivente

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31 Janeiro 2018

O Vaticano anunciou, na manhã do último sábado, 27 de janeiro, a beatificação dos sete trapistas franceses assassinados em 1996 na Argélia, bem como de outros doze religiosos que morreram durante a guerra civil neste país.

A reportagem é de Nicolas Ballet, publicada por Le Progrès, 27-01-2018. A tradução é de André Langer.

Le Progrès obteve neste sábado a reação exclusiva do padre Jean-Pierre Schumacher, ex-seminarista em Lyon, 91 anos, que escapou do sequestro. Ele mora no Mosteiro de Nossa Senhora de Atlas, herdeiro de Tibhirine, em Midelt no Marrocos. “Quero ir à cerimônia de beatificação”, anuncia aquele que não deixou o Marrocos durante mais de 10 anos.

O prior deste mosteiro, o padre Jean-Pierre Flachaire, também compartilha com o nosso jornal sua “grande alegria”. Uma entrevista quase milagrosa: a conexão telefônica foi de péssima qualidade com o Haut Atlas marroquino neste sábado de manhã.

“Magnífico!” Quando o irmão porteiro, José Luis Navarro, atende o telefone, no sábado de manhã, às 11h15 (10h15, horário de Marrocos), nós lhe contamos a notícia. E sua voz treme de emoção. Nenhum dos monges do mosteiro de Notre-Dame de l’Atlas sabia da decisão do Vaticano de beatificar os sete trapistas de Tibhirine, bem como de outros doze religiosos, que morreram durante a guerra civil na Argélia, há mais de 20 anos.

Nós pedimos para falar com o prior, o padre Jean-Pierre Flachaire, responsável por essa comunidade herdeira de Tibhirine implantada há 17 anos no Haut Atlas marroquino, em Midelt. E ainda está vivo o padre Jean-Pierre Schumacher, com quase 92 anos e ex-seminarista em Lyon, que escapou do sequestro em 1996 com o padre Amédée (Jean Notto), já falecido. Jean-Pierre Schumacher encontra-se acamado neste sábado, por causa de um torcicolo.

Com alguns remanescentes do seu sotaque [ele é oriundo do departamento francês de Drôme], muito cantado, o prior, Jean-Pierre Flachaire, pega o aparelho na cabine de telefone que se encontra perto dos quartos e exclama: “Então é isso? O papa assinou?”

Nós o pegamos um pouco desprevenido, mas este homem de temperamento geralmente mais reservado, deixa seu coração falar: “Esta é uma alegria muito grande para nós, porque esta beatificação mostra que nossos irmãos deram suas vidas por amor a esse povo argelino. Nós esperávamos por isso, mas é algo muito extraordinário. Isso mostra que é possível viver com os outros e inclusive de se amar mesmo tendo crenças diferentes”.

E os outros doze religiosos beatificados? “Todos eles nos transmitem a mesma mensagem: a de um amor que é maior que as diferenças. É o Evangelho vivido até o fim. Não há amor maior do que dar a vida por aqueles que amamos”.

É um momento de extrema intensidade

E imaginar que no momento desta conversa, o último monge sobrevivente de Tibhirine ainda ignora, no fundo de sua cela, o que o Vaticano acabou de anunciar... Nós perguntamos ao prior se era possível falar com ele por telefone. “Eu tenho um telefone celular, mas seu quarto está longe de onde eu estou agora. Vamos tentar. Pode ser que a ligação caia”, adverte o padre Jean-Pierre Flachaire.

Um minuto depois, milagre! “Você ainda está aí? Então eu vou passar para ele!”, entusiasma-se o prior. De repente, um chiado insuportável torna a comunicação inaudível. Mal se consegue ouvir o filete de voz de Jean-Pierre Schumacher, deitado na cama iluminada por uma janela que dá para a majestosa montanha Jbel Ayachi, que se eleva a mais de 3.500 metros de altitude.

O que fazer? Sugerimos ao prior para permanecer no limiar da porta, longe das paredes e transmitir ao vivo as nossas perguntas ao último monge e nos relatar imediatamente as suas respostas – mas nós conseguíamos ouvi-las, ainda que bem baixinho. É um momento de uma extrema intensidade.

Padre Jean-Pierre Schumacher, em fevereiro 2012, no mosteiro de Midelt (Marrocos) | Foto: Nicolas Ballet

Jean-Pierre Schumacher tem uma fala lenta, mas clara: “Esta é uma notícia muito boa. Estamos muito felizes que os nossos irmãos tenham sido beatificados com os outros doze religiosos (que morreram durante a guerra civil argelina). É incrível que tenha sido tão rápido (o processo durou apenas dez anos). Aí está a mão do Senhor! Pensamos em todos os argelinos mortos e temos certeza de que os 19 mártires estão reunidos com eles hoje”.

O último monge de Tibhirine acrescenta: “Agora bem-aventurados, os 19 mártires são poderosos com Deus. Nós podemos, então, rezar por sua intercessão. Isso será de grande valia para a paz na Terra, se houver conflitos entre religiões”.

Uma cerimônia de beatificação em Orã?

Jean-Pierre Schumacher fez, então, um anúncio muito importante ao Le Progrès, em resposta à nossa pergunta: “Sim! Com certeza eu quero ir à cerimônia de beatificação com todos os meus irmãos do mosteiro de Midelt, se meu estado de saúde o permitir”. Há mais de 10 anos ele não deixou esta cidade e recusou sistematicamente todos os convites vindos do exterior.

O lugar e a data desta cerimônia ainda não estão confirmados – o nome da cidade de Orã, na Argélia, é frequentemente citado. O bispo dessa diocese e natural de Lyon, Jean-Paul Vesco, participou ativamente do processo de beatificação de um dos 19 mártires, Pierre Claverie, bispo de Orã assassinado com seu motorista Mohamed Bouchiki.

Enquanto isso, os monges de Midelt vão adicionar os nomes dos bem-aventurados ao memorial das missas com eucaristia de sua capela, assim que receberem a confirmação oficial da beatificação por parte do Vaticano.

No sábado, todos eles irão compartilhar sua felicidade com os amigos muçulmanos do bairro. Todos os dias, eles tomam o chá oferecido por Omar, trabalhador muçulmano do mosteiro, ao lado da pequena sala de oração muçulmana criada no recinto cristão para os funcionários.

Nós nos ajudamos, choramos e rimos juntos. Como em Tibhirine, na Argélia, e mais ainda: durante nove anos, esses monges de Midelt jejuam durante o Ramadã, não para se converter ao Islã, mas para sofrer com os muçulmanos. Um esplêndido, necessário e simples testemunho de amizade. A audácia do coração.

O autor deste artigo visita sete anos seguidos este mosteiro de Midelt no Marrocos. Em 2012, assinou um livro-entrevista sobre o irmão Jean-Pierre, o último sobrevivente de Tibhirine.

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