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26 Setembro 2018

"Cultivar uma forma de convivialidade familiar e calorosa, como irmãos e irmãs, baseada no intercâmbio de experiências pessoais e na partilha do pão sobre mesa", escreve Alfredo J. Gonçalves, padre carlista, assessor das Pastorais Sociais.

Eis o artigo.

A passagem de Lucas Lc 6, 12-19 se presta a uma oportuna reflexão sobre o trinômio da VRC – Vida Religiosa Consagrada expresso no título. No primeiro momento, Jesus encontra-se na montanha em intimidade com o Pai; “e passou toda noite em oração a Deus”, diz o evangelista. Depois, ao amanhecer, chama os discípulos e, entre esses, escolhe o núcleo íntimo dos doze, como “apóstolos”. Por fim, “desce com eles a um lugar plano”, onde se põe a curar e evangelizar as multidões que procuravam “tocar em Jesus”. Um passo supõe e ao mesmo tempo desdobra-se naturalmente do outro.

O esquema responde de maneira perfeita às três dimensões básicas da VRC;

a) o fortalecimento de uma espiritualidade alimentada continuamente pela oração, a meditação e a contemplação, e fundamentada na leitura e reflexão permanente da Palavra de Deus;

b) o cultivo diário de uma convivência humana e fraterna, através da vida comunitária e na alegria de estar juntos, onde as diferenças pessoais levam ao confronto e ao diálogo enriquecedores;

c) a atividade pastoral-apostólico-missionária junto aos pobres e excluídos, de acordo o o carisma específico de cada Congregação/Instituto.

De um ponto de vista simbólico, as três dimensões poderiam ser representadas como montanha/deserto, casa-mesa e caminho/planície. Em termos mais concretos: primeiro, a abertura a uma crescente intimidade com o Senhor, mediante momentos contínuos e privilegiados de retiro e recolhimento, cuja centralidade está no encontro com Jesus na Eucaristia. Depois, a necessidade quotidiana de cultivar uma forma de convivialidade familiar e calorosa, como irmãos e irmãs, baseada no intercâmbio de experiências pessoais e na partilha do pão sobre mesa. Por fim, um compromisso real e profético no sentido de contribuir para a transformação social, econômica, política e cultural no contexto de injustiça e assimetria da sociedade atual, em vista da construção do Reino de Deus. Reino presente já aqui e agora, em nossa tortuosa peregrinação terrestre, mas ainda não em sua plenitude, a qual se realizará na pátria definitiva.

Não se tratam, evidentemente, de três dimensões dissociadas, como gavetas estanques e incomunicáveis. Ao contrário, entre elas persiste uma dialética ativa e dinâmica, em que uma reforça e se deixa reforçar pela outra. As três se encontram e se integram, se entrelaçam e se complementam, se questionam e se interpelam, se nutrem e crescem – confrontando-se e enriquecendo-se reciprocamente. Convém sublinhar que a busca de uma sórdida intimidade com Deus – sempre lenta, laboriosa e perseverante – associada ao cuidado transparente com a vida em comum, longe de afastar-nos do compromisso sócio-pastoral, o qualifica e o fortalece. O inverso também é verdadeiro: a atividade missionária não está em dicotomia com o percurso espiritual de cada pessoa ou da comunidade, ao contrário, torna-o cada vez mais radical e encarnado no contexto da realidade sócio-histórica.

Disso resulta que a oração será mais rica, porque povoada pela lembrança daqueles que convivem sob o mesmo teto em nossa casa/mesa, e pelos rostos às vezes desfigurados de quem encontramos nos embates da planície/caminho. A vida comunitária será mais rica, porque iluminada pela face do Senhor que resplandece quando nos retiramos à montanha/deserto, bem como pelo brilho do olhar daqueles que, em meio ao pranto ou ao riso, nos procuram como missionários ou missionárias. E a missão por sua vez, será mais rica, porque as figuras de do Pai, do Filho e do Espírito Santo revestem de alegria nossas atitudes, comportamentos e atividades, enquanto os coirmãos ou coirmãs, quando saímos ou retornamos dos empenhos, se dispõem a ouvir nossos sucessos ou fracassos, nossas angústias ou esperanças.

No nível ideal da VRC, nenhuma novidade. O esquema mergulha suas raízes na Palavra de Deus. Já bem o conhecemos em seus desdobramentos concretos. O problema se instala quando descemos à realidade nua e crua das comunidades locais. Ali não raro se respira um ar pesado e carregado, como de prisão ou até de túmulo. Mas, também ali, é sempre mais fácil avançar alguns passos, por menores que sejam. Sem esquecer, claro, a necessidade de mudanças amplas e estruturais. Estas últimas, porém, pressupõem a eliminação de não poucos vírus e vícios que habitam e envenenam a vida quotidiana de nossas casas religiosas.

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