Madalena. As meditações de Carlo Maria Martini

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24 Julho 2018

O Evangelho não é simplesmente um livro: o encontro com seus protagonistas liga os cristãos entre si e torna decifráveis a cada um o próprio momento e o próprio caminho. Maria de Magdala, cujo caminho fascina e interroga crentes e não crentes há séculos, emerge mais viva do que nunca das meditações de Carlo Maria Martini recentemente publicadas no livro Maria Maddalena (Milão: Edizioni Terra de Santa, 2018, 160 páginas), que surpreenderá até mesmo os leitores mais habituais do cardeal.

O comentário é do filósofo e padre italiano Sergio Massironi, da Arquidiocese de Milão, em artigo publicado em L’Osservatore Romano, 21-07-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O biblista pastor demonstra como as ciências exegéticas podem não desarmar, mas sim libertar a energia interna do texto, conectando a vida contemporânea a eventos narrados justamente para que Deus continue se revelando.

Martini educou os fiéis e as pessoas em busca de um sentido para entrar em diálogo direto com as figuras evangélicas, encontrando nelas interlocutores reais, amigos para os quais é possível levar as questões do presente. “Pensei nas seguintes perguntas: Maria de Magdala, qual foi o teu princípio e fundamento, ou seja, sobre o que se baseou a tua fé, na educação de fé que certamente recebeste? Uma segunda pergunta que gostaria de fazer a Maria de Magdala é esta: de onde vens, o que aconteceu contigo? O que eram esses sete demônios e como conheceste Jesus depois de teres sido libertada? E, enfim, também gostaria de lhe perguntar, se tivermos tempo, como ela participava, lia, via as pequenas ambições, as invejas, os personalismos do grupo apostólico do qual ela era testemunha, como os olhava, como entrava nisso ou ficava de fora disso”.

Evidentemente, são problemas de hoje, que é justo levar consigo para a lectio divina. De fato, a oração nunca é sem um contexto, sem circunstâncias que invocam uma palavra de Deus nunca antes ouvida totalmente.

Em Maria Madalena, entrelaçam-se, assim, página após página, o texto sagrado e a sede espiritual das mulheres às quais se dirige o idoso cardeal. Inéditas por alguns anos, as meditações originam-se de um dos últimos cursos de exercícios espirituais que ele pregou. A transcrição não esconde o afeto que flui entre os interlocutores originais, de modo que algo do amor entre Jesus e as mulheres que o seguiam reverbera na sua comunicação: “Eu aceitei com muita alegria este convite para rever vocês, as quais reconheço todas uma por uma. Reconheço-as na sua beleza interior e exterior, porque, quando a alma permanece na sua constante proposta de serviço a Deus, permanece bela, e essa beleza se difunde. Admiro tudo isso em cada uma de vocês. Penso nos muitos tempos passados com vocês desde 1980 até hoje, com diversas vicissitudes, mas sempre com a ajuda do Senhor. Portanto, estou muito contente em revê-las, quero-as muito bem, tenho-as presentes há muito tempo na minha oração e ainda mais a partir de hoje ou, melhor, há muito tempo já rezo por vocês”.

É incomum que um bispo fale assim com mulheres, mas a sua liberdade de explicitar seus sentimentos e, mais ainda, o próprio fato de tentar se explicitar assim honram a novidade do Evangelho. O livro nos insere em uma experiência de maturidade humana e cristã, em que a missão compartilhada gerou comunhão e reciprocidade, sem romantismos, em um nível de intensidade não comum entre pessoas adultas, muito menos eclesiásticas.

Maria Madalena, como tu buscavas o Senhor, como o proclamaste, como o conheceste?”, pergunta-se Martini, levando novamente o Ordo Virginum ambrosiano às raízes do seu próprio carisma. O método seguido pelo pregador é rigoroso e atravessa o texto bíblico de cima a baixo, no sinal de uma mulher tocada no coração.

“Eu procurei uma ordem bastante lógica: os textos que falam de fatos, os textos que falam de sentimentos, os textos que falam de concomitâncias e afinidades. Vocês podem lê-los de outra forma e, especialmente, prestar muita atenção também nos trechos paralelos (...) de modo a terem o conjunto da figura e se deixarem iluminar, de algum modo, deixarem que ela penetre dentro de vocês e pedirem como graça que possam conhecer o coração de Deus assim como ela o conheceu, isto é, com aquela totalidade, com aquele sobressalto, com aquela superação de si que é própria do mistério divino.”

O grande exegeta não se preocupa com a possível confusão entre as diversas Marias nomeadas nos evangelhos: pelo contrário, é como se uma complementasse a outra, de modo que, sem dissecar os textos, meditando sobre Maria Madalena, encontremo-nos “introduzidos pela sua história no coração de Deus, no coração de Jesus, porque, se é lá que ela tem o seu lugar, ela é o sinal do excesso cristão”.

Nesse sentido, contra toda abordagem morbidamente curiosa do mal alheio, “podemos entender a sua experiência: sete demônios fazem um número completo e talvez indiquem uma série de situações feias e incuráveis, fazendo-nos entender o amor, o afeto, a dedicação, o reconhecimento, a ternura de Maria para com Jesus. O importante, portanto, não é determinar quais são esses sete demônios, mas o contrário que se seguiu, isto é, a libertação”.

Nada de hagiográfico nesse modo de se aproximar de Madalena: em vez disso, emerge o perfil de uma mulher sobre a qual o Reino de Deus teve tal impacto que se revelou atrativo em si mesmo. Nenhuma Maria nos evangelhos liga alguém a si mesma: em vez disso, Jesus aparece mais transparente nelas, como um filho único, um mestre inigualável, um homem novo.

Acima de tudo, é feminina a generosidade da resposta delas: um movimento de totalidade que desafia costumes e ameaças. E é justamente a diferença substancial da lentidão dos apóstolos que as torna reveladoras dos traços de Deus, aos quais a masculinidade instintivamente resiste.

Martini observa: “Deus é dom de si, e tenho certeza de que muitos não entendem Deus, não o aceitam, vivem em uma forma de semiagnosticismo porque nunca souberam o que significa um gesto de verdadeira saída de si mesmos, um gesto de verdadeiro dom gratuito, porque é apenas assim que se entende que há alguma sintonia com o mistério de Deus. Enquanto pensarmos no mistério de Deus como alguém que está em si mesmo, que se mantém forte nos seus privilégios, que é poderoso, que é capaz de se defender, de ser o primeiro, não captaremos isso; em vez disso, quando percebemos algo que se doa, que se sacrifica, que se aprofunda pelo outro, então entramos. Todas as vezes que a pessoa está verdadeiramente curvada sobre si mesma, o que ela entende do mistério de Deus é superstição: é algo de grandioso, de imenso, de adorável, mas não é o mistério do Deus cristão verdadeiro”.

Trata-se de um modo de conceber Deus – explica o cardeal – que, em Israel, permanece sempre “de algum modo evasivo, isto é, nunca é definível – ‘É assim e ponto final’ –, mas eu sempre permaneço com a respiração suspensa, recebo a sua ação de amor, peço o seu perdão, amo-o, adoro-o, mas depois nunca sei como agirá. Porque Ele está na sua liberdade e no seu amor criativo e construtivo”, o que impede de trata-lo quase “geométrica ou matematicamente: se for assim, derivam daí A, B, C ou D, e tudo está em seu lugar. Mas não, Deus é aquele que se doa, é aquele que está apaixonado, é aquele que está repleto de paixão, ora ardente, ora furiosa: eis, esse é o mistério de Deus como Maria Madalena o conheceu e como todo bom judeu o conhece”.

Poderíamos dizer que Martini identifica, por esse caminho, o núcleo cristocêntrico do êxtase evangélico: é como se, no grupo de Jesus, o componente feminino se revelasse como depositário daquilo que, em Deus, está transbordando e além da média, daquilo que é exagerado, ultrapassando a troca “do ut des”. Trata-se de dar em perda, do desequilíbrio próprio da gratuidade, “de algo que sai dos trilhos ordinários da vida cotidiana em que a pessoa tenta manter sempre a igualdade”. Ao excesso do mal que está no mundo – explica o cardeal – opõe-se o excesso do bem que apareceu nas palavras e na vida de Jesus, mas também nos comportamentos, para além das convenções e do senso de medida, de quem por ele se deixou amar.

A resistência de Maria de Magdala até os pés da cruz, portanto, vai muito além do puro afeto e é índice daquilo que a Igreja deve, desde as origens, aos seus membros mulheres. O cardeal convida, inacianamente, à composição do lugar: “Gostaria de fazer passar diante dos seus olhos estas imagens, imaginando que estão com Maria Madalena, que as veem com ela e que as entendem como ela as entendeu”.

E aqui nos é restituída, por exemplo, a cena joanina da divisão das vestes entre os soldados. É uma das passagens do livro em que mais transparece a sensibilidade de um homem da Igreja instruído pela profundidade feminina, isto é, de um pastor que escutou e estimou as mulheres, reconhecendo a elas, no próprio ministério, o lugar que elas têm no Novo Testamento. “Aqui Maria Madalena realmente vê que seu amado está feito em pedaços, porque, através dessa divisão das vestes, a humanidade de Jesus é despedaçada: não importa mais nada, não é mais digno sequer de ter uma veste, portanto, de viver entre as pessoas: é expulso deste mundo. Mas Maria Madalena tem uma consolação aqui, porque essa túnica, feita de uma única peça – tecida toda em uma peça de cima a baixo, sem costuras – não é dividida, e, talvez, Maria Madalena a conhecia bem, talvez ela mesma tivesse cuidado dela, porque seguia Jesus e prestava atenção às suas coisas. E, enquanto sofre vendo Jesus despojado, sente no seu coração o mistério pelo qual Deus, de alguma maneira, mostra que esse Jesus não é eliminado totalmente, a sua vida não é espalhada e jogada aos quatro ventos, mas há algo dele que se conserva, como símbolo daquela unidade que, depois, os Padres viram nessa veste inconsútil e não dividida. (...) E, provavelmente, quando Madalena realiza a sua obra de pacificação, de recostura entre os vários membros da comunidade, ela pensa nesse fato, está diante dela como um modelo, porque o Senhor permitiu que não ocorresse esse rasgo: a Igreja não deve ser rasgada, mas é una”.

É evidente que os evangelhos, percorridos novamente com Maria de Magdala, movem a consciência e a sintonizam em frequências incomuns. Martini espera que se aprendam “quase de cor os textos que lhe dizem respeito, para poder repensá-los claramente”: ele tem em mente um verdadeiro habitar as Escrituras na companhia daqueles que nos falam delas. Em um mundo necessitado de recosturas e de profundas curas, parece necessário que a vida das comunidades cristãs se estruture, além de sobre os aspectos hierárquicos e funcionais, sobre a capacidade de atenção e de amor sem cálculo que Jesus viu nas suas discípulas.

É cultivando uma amizade com elas que ainda hoje “revela-se o excesso de Deus e sai-se daquela gestão do divino que, depois, se torna também gestão do humano através de formas de dominação, de subjugação, de posse e não de dedicação e de capacidade de promover o outro”.

Para a Igreja, é uma purificação contínua – ecclesia sempre reformanda – que precisa, mais do que de “cotas rosas”, de um retorno aos evangelhos. De fato, são setenta vezes sete os demônios dos quais a Esposa de Cristo espera ser libertada. E, então, a sua beleza resplandecerá 100 vezes em comparação com aquela de quem, tendo sido perdoado pouco, ama pouco.

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