A arma letal da verdade. Artigo de Massimo Recalcati

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07 Abril 2018

“Nada é mais aterrorizante do que a violência que brota da pretensão de possuir integralmente a Verdade. A violência que se situa do lado da Verdade está na origem de todas as formas de barbárie. Quanto mais firme é a convicção de estar do lado da Verdade, mais a ação violenta encontra sua plena justificação. Assim, a Verdade se torna – como Nietzsche mostrou – um ídolo a se servir fanaticamente.”

A opinião é do psicanalista italiano Massimo Recalcati, professor das universidades de Pavia e de Verona, em artigo publicado por La Repubblica, 06-04-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A violência se assemelha a uma alucinação, porque oferece a ilusão de realizar o próprio desejo sem qualquer mediação, em uma instantaneidade psicótica; ela gostaria de alcançar seu objetivo sem passar pelo amplo e tortuoso circuito do diálogo. Onde há violência, de fato, toda forma de diálogo se torna impossível. A palavra não circula, mas é aniquilada, humilhada, suprimida.

A violência gostaria de mostrar toda a inconsistência e a aleatoriedade da palavra. Gostaria de ser o ferro contra o vento. O que não exclui que possa existir uma violência própria da palavra: as palavras podem ser duras e impiedosas como balas. Mas, mesmo nesse caso – assim como para o estatuto alucinado da violência –, elas gostariam de atingir seu alvo imediatamente, sem debate, sem interlocução.

Um insulto ou um slogan raivoso não pode ser discutido, mas apenas empunhado como uma arma. Não encontramos, talvez, aqui, o terreno psiquicamente mais elementar do qual a violência se origina? Morte da Lei da palavra, morte do diálogo, morte da relação com o Outro. Quando se chega à passagem para o ato da violência é porque a Lei da palavra foi subvertida. É um fato que o discurso educacional deveria levar a sério.

Ensinar aos nossos filhos o respeito pela Lei da palavra deveria ser a primeira tarefa de todo percurso de formação. O que não significa que não possam existir – como a história ensinou – expressões diferentes da violência: a violência dos opressores ou da desigualdade social não pode ser assimilada à daqueles que reagem a ela.

No entanto, o recurso à violência sempre rompe traumaticamente a Lei da palavra que é a única Lei que torna a vida humana. Mesmo quando – como aconteceu, por exemplo, com a guerra partigiana – o recurso à violência visava a restaurar a dignidade ao direito revogado da palavra.

A Lei da palavra exclui que haja uma representação totalizante da verdade. A pluralidade das línguas não é apenas um dado cultural, mas também descreve a existência de Verdades diferentes ou, se se preferir, a inexistência de uma única Verdade. Nada é mais aterrorizante do que a violência que brota da pretensão de possuir integralmente a Verdade. A violência que se situa do lado da Verdade está na origem de todas as formas de barbárie. Quanto mais firme é a convicção de estar do lado da Verdade, mais a ação violenta encontra sua plena justificação. Assim, a Verdade se torna – como Nietzsche mostrou – um ídolo a se servir fanaticamente.

O grito de guerra (santa) “Deus o quer!” que armava a mão dos cruzados ou o ditado maoísta – retomado pelo extremismo italiano nos anos 1970 – de que é suficiente atingir um para educar cem caminham paradoxalmente na mesma e idêntica direção. Qual? Em uma direção fundamentalista, não laica, se por cultura laica se entende – como Freud entendia, definindo a própria psicanálise como “laica” – uma atitude intelectual e ética que ignora as verdades absolutas e imperecíveis.

Se, de fato, a Verdade se escreve com V maiúscula, se ela se dá aos nossos olhos como totalmente revelada, se ela não for acompanhada por qualquer senso do mistério, não existe mais limite algum à afirmação brutal e violenta da nossa Verdade. Nesses casos, a violência perde seu caráter impulsivo, irracional, intermitente, para se identificar com uma verdadeira concepção de mundo. É o ponto de passagem que transfigura a violência em uma verdadeira missão redentora.

Os terroristas que assassinaram Aldo Moro impiedosamente fizeram isso para desferir um golpe político-militar no coração do Estado. Mas só puderam fazer isso a partir da convicção de deter a Verdade sobre o que era útil à Itália para resistir às “forças da reação” e levar a bom termo um percurso autenticamente revolucionário. É a paixão ideológica e fanática pela Verdade que armou a mão deles. A Verdade da Causa, de fato, não entra no debate democrático, não revela seu fundo incerto, não tolera a pluralidade das línguas, mas se identifica loucamente com uma única bandeira.

Enquanto o conflito político não apaga a dignidade humana do próprio antagonista, o espírito de todo fundamentalismo, estando desprovido de espírito laico, continua convencido da própria superioridade ética, de encarnar a expressão de outro gênero de humanidade, de possuir uma Verdade que coincide perfeitamente com a militância pela própria Causa. O terrorismo manifesta, nesse sentido, a essência mais própria da violência fundamentalista: na era do terror, todos nos tornamos alvos dos fanáticos da Verdade, porque não somos nada diante da Verdade absoluta da sua Causa. Por isso, não é raro encontrar terroristas desprovidos de qualquer sentimento de culpa. Sua mão foi guiada diretamente por Deus ou pela Causa que eles serviram de modo sacrificial.

Nunca se deveria esquecer o núcleo sadomasoquista da mentalidade terrorista: eu sacrifico a minha vida à Causa (masoquismo), mas esse sacrifício me dá o direito de fazer da vida dos outros aquilo que eu quero (sadismo). O terrorista age na mais total transparência da Verdade, porque quer escapar da vertigem da dúvida em relação à Verdade.

Diferentemente, o espírito laico da psicanálise mostra que somos todos estrangeiros a nós mesmos, sem uma casa própria, sem relações com uma Verdade universal, divididos, cindidos, sempre distante de nós mesmos.

Por isso, ela é um grande antídoto para as guerras religiosas de todas as espécies.

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