Fraternidade e superação da violência

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15 Dezembro 2017

"A pergunta é como desarmar-se em nossas relações de caráter organizativo. Ao invés de concentrar a palavra e poder, por exemplo, como distribuir a ambos por todos os participantes? Como partilhar decisões, programas, projetos e metas e todo o seu processo de realização? Em lugar de fechar e cercar o espaço político e de ação social como uma espécie de “propriedade privada”, excluindo assim novos sujeitos, como abri-lo a horizontes mais largos, para que todos possam ser protagonistas das ações conjuntas?", escreve Alfredo J. Gonçalves, padre carlista, assessor das Pastorais Sociais.

Eis o artigo. 

O título refere-se ao tema da da Campanha da Fraternidade de 2018 (CF/18), promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A temática propõe uma reflexão/ação que, em primeiro lugar, visa superar o desarmamento. Do ponto de vista do desarme internacional e de cada nação em particular, convém citar a Constituição Pastoral do Concílio Vativano II, Gaudium et Spes (1965): “A paz não é ausência de guerra; nem se reduz ao estabelecimento do equilíbrio entre as forças adversas, nem resulta duma dominação despótica. Com toda a exatidão e propriedade ela é chamada «obra da justiça» (Is. 32, 7). É um fruto da ordem que o divino Criador estabeleceu para a sociedade humana, e que deve ser realizada pelos homens, sempre anelantes por uma mais perfeita justiça” (GS, nº 78). “O desenvolvimento é o novo nome da paz”, diz ainda a o então Papa Paulo VI, na Carta Encíclica Populorum Progressio (1969).

Mas existem outros tipos de tensões e conflitos, que utilizam outros tipos de armas. Basta um sobrevoo sobre a prática política, incluindo os três poderes: executivo, legislativo e judiciário; sobre as relações no interior das Igrejas, sem esquecer as dioceses, paróquias e comunidades de base, bem como as pastorais sociais e movimentos religiosos; enfim, sobre a sociedade civil em geral, com particular atenção para as relações trabalhistas dentro das empresas, relações de poder nos movimentos e organizações de base e nas ONGs em geral, como também as relações de gênero desde o ambiente familiar até as decisões políticas e econômicas, passando pelo conjunto das associações em todo o tecido social e pelas redes sociais da Internet.

Nesse caso, esgrimem-se uma multiplicidade de armas. Armas que podem ser olhares oblíquos ou gestos suspeitos, silêncios, palavras ou frases; riqueza e poder, influência ou assédio moral e sexual; grito, pressão ou difamação; mentiras, meias verdades ou disputa por cargos; enfim, uma série de outras atitudes obscuras, tortuosas, e que destilam veneno. A pergunta é como desarmar-se em nossas relações de caráter organizativo. Ao invés de concentrar a palavra e poder, por exemplo, como distribuir a ambos por todos os participantes? Como partilhar decisões, programas, projetos e metas e todo o seu processo de realização? Em lugar de fechar e cercar o espaço político e de ação social como uma espécie de “propriedade privada”, excluindo assim novos sujeitos, como abri-lo a horizontes mais largos, para que todos possam ser protagonistas das ações conjuntas?

Cabe aqui o poema da humildade extraído pela carta de São Paulo aos Filipenses. Jesus Cristo “tinha a condição divina, mas não se apegou à sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a sim mesmo, assumindo a condição de servo e tornando semelhante aos homens. Assim apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2, 6-8). A ação social, pastoral ou política deveria ter no serviço sua absoluta primazia. Lê-se ainda no Evangelho:“O Filho do Homem não vei para ser servido. Ele veio para servir, e para dar a sua vida como resgate em favor de muitos” (Mt 20,28). Um desarmamento verdadeiro passa, necessariamente, por uma atitude de nudez, a qual, em lugar de perder ou rebaixar a própria dignidade, a eleva e plenifica através do serviço de justiça e solidariedade, na construção do bem comum ou do Reino de Deus.

Do ponto de vida interpessoal, familiar ou comunitário, porém, o desarmamento comporta uma série de exigências mais próximas ao cotidiano e mais íntimas. A mesma CF/18, de fato, escolheu como lema a frase “Em Cristo somos todos irmãos” (Mt 23,8). Desarmar-se, nesta perspectiva, significa muito mais do que simplesmente abdicar das armas. Representa, antes de tudo, um desnudar-se, como já vimos na carta aos Filipenses. Desnudamento que encontramos simbolizado na ordem recebida por Moisés ao encontrar-se com Deus, no episódio da sarça ardente: “tire as sandálias dos pés, porque o lugar que pisas é um lugar sagrado”, (Ex 3,1-6). Tirar as sandálias, desfazer-se das próprias seguranças, despir-se do escudo que nos protege, para que o espírito da Palavra de Deus possa agir em e através de nós.

Na prática, isso quer dizer estar disposto a desfazer-se do sentimento possessivo em relação a títulos, coisas, dinheiro e pessoas. Nas relações humanas e nas relações com a natureza e com o mundo, muitas vezes prevalece a tomada de posse obsessiva, doentia ou até mesmo patológica. À medida que a pessoa acumula, agarra-se com unhas e dentes àquilo que tem, que tomou ou que conquistou ao longo da vida. Semelhante obsessão mórbida costuma desencadear uma dupla reação: por parte dos demais, engendra a cobiça, a inveja, o ciúme e a vontade de apropriar-se; o dono dos bens, por sua vez, não exitará em fazer uso da força para defender sua propriedade. Toda posse ou propriedade, de resto, requer cercas, muros, sistemas de segurança.

Ativa-se, desse modo, o círculo vicioso da violência. Esta costuma ser uma semente voraz e veloz: nasce e cresce rapidamente, interpondo-se entre os seres humanos para convertê-los em adversários ou inimigos. Rompe-se com a fraternidade. Daí ao conflito aberto e armado resta apenas um passo. A maneira como nos relacionamos com as coisas, com o poder e com o sucesso, determina igualmente a relação com as pessoas que nos cercam. Onde é mais forte a possessão, estará mais próximo o desencontro e a guerra. O fato de “ter” como fim em si mesmo, deixa sua marca no “ser” e o “fazer” de cada pessoa. Quem muito “tem”, deve armar-se para defender o que possui, atraindo sempre a ambição alheia. Ao contrário, quem sabe usar as coisas predominantemente como meio para o bem comum, nada possui em definitivo como seu e, por isso, nada teme.

Desarmar-se e desnudar-se, numa palavra, é livrar-se de um peso e de uma ameaça. Impedir uma possível agressão. Ou melhor, fechar o horizonte ao circuito de ação-reação próprio da violência, superando-a antes mesmo que seja desencadeada. O desarmamento acaba sendo o primeiro passo para interromper a cadeia da recíproca hostilidade. Arma chama arma, vingança chama vingança, violência chama violência, como lembra o Papa Francisco. Renunciar a tudo isso é reencontrar a alegria evangélica de que “em Cristo somos todos irmãos”.

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