O que a Academia Europeia de Religião diz sobre religião

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30 Junho 2017

“O papel da religião permanece tão relevante quanto o era no começo do século. A crise da União Europeia é também uma crise teológica das ideias que inspiravam lideranças católicas na Europa pós-Segunda Guerra Mundial a ajudar na criação de uma união econômica e política para lidar com a “questão alemã” e para trazer a paz ao continente depois de meio século de derramamento de sangue ideológico e nacionalista”, constata Massimo Faggioli, historiador italiano e professor da Villanova University, nos Estados Unidos, em artigo publicado por Commonweal, 28-06-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo ele, “não é coincidência que o líder europeu com quem o Papa Francisco mais se reuniu (seis vezes) é a chanceler alemã Angela Merkel, filha de um pastor luterano e, em muitos aspectos, a verdadeira sucessora de Helmut Kohl (falecido em 16 de junho), e que continua no comando de uma Alemanha unificada, pós-Muro de Berlim”.


Eis o artigo.

Quase 1.000 estudiosos da religião reuniram-se recentemente em Bolonha, na Itália, para a primeira conferência da recém-criada “Academia Europeia de Religião”. Organizado pela Fundação João XXIII para Estudos Religiosos, o evento atraiu participantes de todo o mundo – na maior parte, especialistas em cristianismo e judaísmo, mas também pesquisadores do Islã, do Bahá’ísm e novas religiões e movimentos religiosos.

O título da conferência – “Ex Nihilo: Conferência Zero da Academia Europeia de Religião” – refletia o objetivo do encontro, a saber, criar uma plataforma internacional, com sede na Europa, para o estudo da religião. O potencial intelectual e político da iniciativa ultrapassa o escopo usual do engajamento acadêmico com a religião no citado continente.

O projeto se inspira na muito maior Academia Americana de Religião, com a qual divide algumas semelhanças. Primeiro, a Academia Europeia quer se expandir para além das fronteiras geográficas do seu nome: neste caso, Europeu significa um grupo nuclear euro-mediterrâneo de estudiosos e instituições a estender sua mão para o mundo inteiro, especialmente depois das fronteiras orientais da União Europeia.

A sua noção de “religião” é ampla também, compreendendo os estudos religiosos, a história das religiões, cânones comparados e direito eclesiástico, religião e política em perspectivas comparadas, e religião e mídia. Esta abordagem é institucional e intelectualmente independente das instituições eclesiásticas e pontifícias (uma coisa não necessariamente óbvia, à luz da história europeia).

Por fim, o grupo quer que o seu encontro anual se torne “o” lugar de encontro para os estudiosos da religião europeus; a próxima edição realizar-se-á em março de 2018, novamente em Bolonha (a partir de 2019 os encontros acontecerão em locais diferentes todos os anos), com o comitê organizador presidido por Frederik Pedersen, da Universidade de Aberdeen, na Escócia.

Há também algumas poucas diferenças significativas na relação com a Academia Americana. A primeira é a fragmentação linguística de país para país, típico da Europa. Isso pode afetar em níveis significativos, por exemplo, os esforços de mercado e as oportunidades publicitárias. Tem também o seu papel no mercado de empregos acadêmicos.

A Academia Americana atua como uma espécie de ecossistema para a interação e entrevistas com possíveis contratações, enquanto que, na União Europeia, o mercado de trabalho se limita pelas fronteiras nacionais: problemas de idioma e cultura podem limitar as oportunidades para se encontrar uma ocupação profissional em um outro país, assim como certas restrições burocráticas podem impedir empreendimentos.

Na Alemanha e em outros lugares, por exemplo, os professores de teologia devem ter uma formação reconhecida pelo Estado segundo os critérios estabelecidos por concordatas junto à Santa Sé.

Uma outra diferença significativa: a “intencionalidade” política da Academia Europeia de Religião. Isto esteve aparente na conferência de Bolonha, onde, entre os palestrantes, estava o atual secretário de Educação italiano, juntamente com Romano Prodi, ex-primeiro-ministro da Itália e ex-presidente da Comissão Europeia. Um membro da diplomacia e embaixadores para a Itália e a Santa Sé igualmente estiveram entre os convidados. A conferência realizou-se sob os auspícios do Parlamento Europeu, da representação da Comissão Europeia na Itália, da Comissão Italiana para a Unesco, entre outros.

O conjunto da base institucional do projeto diz algo sobre a sua natureza, projeto originalmente concebido no início da década de 2000, quando a Fundação João XXIII para Estudos Religiosos buscava garantias, por parte de burocratas da União Europeia, de que os estudos religiosos fariam parte da infraestrutura de pesquisas que a UE financiaria. (Para constar: Eu era membro do comitê central voltado a este objetivo em nome do Instituo Bolonha até 2008.) A iniciativa também coincidiu com o mandato de Romano Prodi à frente da Comissão Europeia, cobrindo o período imediatamente posterior ao 11 de Setembro e o começo da expansão da União Europeia para os antigos “satélites” da Rússia soviética na Europa oriental. Alberto Melloni, diretor da Fundação João XXIII para Estudos Religiosos desde a morte de Giuseppe Alberigo, vem sendo o principal organizador e líder da Academia Europeia de Religião, que neste momento reúne estudiosos da religião de variadas áreas de estudo e formações culturais contra a indiferença das instituições e trabalha para combater o analfabetismo religioso que alimenta o radicalismo e a intolerância.

O projeto está construído sobre a base de um entendimento compartilhado quanto à importância do pluralismo religioso, da liberdade religiosa, do diálogo ecumênico; do papel das religiões e dos estudos religiosos para se construir a paz e a cidadania no mundo global; e do papel da Europa em abordar o ressurgimento pós-secular do papel da religião na praça pública. Não é exagero dizer que esta rede europeia é, em certo sentido, a continuação do projeto de pesquisa de duas décadas sobre o Vaticano II organizado e dirigido pela Fundação João XXIII para Estudos Religiosos, em Bolonha, entre meados da década de 1980 e o começo dos anos 2000.

Desde então, muito mudou, quando estudiosos da religião europeus viram a política europeia e os estudos religiosos como um ativo na tentativa de evitar ou aprofundar o “choque de civilizações” temido no rescaldo do 11 de Setembro e na dianteira da guerra do Iraque. Hoje, a União Europeia encontra-se em uma crise profunda e não é mais um modelo de integração política e econômica.

O Islã radical não tem mais a ver com Osama bin Laden e a Al Qaeda, mas com o Estado Islâmico e uma guerra regional que se engalfinha na Síria e afeta todos os países fronteiriços, com franquias do ISIS na África, na Ásia Central e nas Filipinas. Hoje, o jovem radicalizado nascido na Europa reivindica motivos religiosos para atacar as capitais do continente. Aí, a Igreja Católica estava no fim do longo pontificado de João Paulo II, que em breve seria sucedido por Bento XVI, enquanto um papa como Francisco não estava sob os olhares de ninguém.

No entanto, o papel da religião permanece tão relevante quanto o era no começo do século. A crise da União Europeia é também uma crise teológica das ideias que inspiravam lideranças católicas na Europa pós-Segunda Guerra Mundial a ajudar na criação de uma união econômica e política para lidar com a “questão alemã” e para trazer a paz ao continente depois de meio século de derramamento de sangue ideológico e nacionalista. Não é coincidência que o líder europeu com quem o Papa Francisco mais se reuniu (seis vezes) é a chanceler alemã Angela Merkel, filha de um pastor luterano e, em muitos aspectos, a verdadeira sucessora de Helmut Kohl (falecido em 16 de junho), e que continua no comando de uma Alemanha unificada, pós-Muro de Berlim.

Apesar de toda a secularização, a Europa ainda é permeada, num nível profundo, por uma compreensão religiosa de si, com as suas fronteiras internas e externas (norte-sul, leste-oeste) ainda invisivelmente definidas por identidades (católica, protestante, ortodoxa, muçulmana) confessionais e teológicas de longo prazo. Resta saber o que se irá fazer da Academia Europeia de Religião após a conferência.

Já podemos imaginar, porém, duas coisas. A primeira é que, em sua maioria, é dinheiro particular que está ajudando estudiosos individuais a conversarem sobre religião no espaço público na Europa; ainda está bastante difícil obter financiamento institucional para empreendimentos acadêmicos multirreligiosos. A ideologia secularista (e a ignorância em matéria de religião) da atual geração de líderes europeus ainda cega eles e suas instituições para o panorama rapidamente mutante da religião no continente, com consequências políticas consideráveis. Pouquíssimos líderes políticos da União Europeia parecem perceber que a Europa “também” vive uma era pós-secular. A coisa a notar aqui é a força da rede europeia de conhecimento e poder soft, e a intenção delas de sobreviver à turbulência política corrente ou mesmo à queda possível da UE.

Nesse sentido, o projeto já era oportuno quando concebido quinze anos atrás. O fato de estar se tornando realidade agora talvez seja mais uma prova do fracasso dos líderes europeus ao longo dos últimos quinze ou 20 anos. E, portanto, parece também uma resposta oportuna à situação em que a União Europeia se encontra; às ondas populistas e neonacionalistas ao redor do mundo; e ao lugar atual da religião em nível global.

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