A verdade do judaísmo segundo Freud. Artigo de Alessandro Santagata

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03 Agosto 2015

Há um dualismo de fundo da religião judaica, caracterizada pelo eterno retorno do trauma do homicídio original: um gesto esquecido, mas ineliminável no senso de culpa dos sucessores. O advento do cristianismo – explica Freud – coincidiria com a tentativa de Paulo de reelaborar essa remoção dentro de uma nova religião expiando o pecado original através da morte de Cristo na cruz.

A opinião é do historiador italiano Alessandro Santagata, professor da Universidade de Roma Tor Vergata, em artigo publicado no jornal Il Manifesto, 29-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em 1939, quando Sigmund Freud publicou o seu Moisés, não era um momento qualquer para abordar a questão das origens do judaísmo. O autor, já provado pela doença, teve que abandonar Viena para se refugiar em Londres, onde morreria em setembro do mesmo ano.

No último dos três ensaios que compõem a obra, ele escreve de forma lapidar: "Vivemos em um tempo em que o progresso fez um pacto com a barbárie". O objetivo desse último esforço seria puxar as rédeas da própria carreira de cientista relendo em chave crítica (e alegórica) essas raízes judaicas pelas quais ele foi forçado ao exílio.

Voltamos a falar disso acolhendo com prazer a decisão da editora Castelvecchi de republicar o ensaio introdutório à tradução italiana de 1977, um texto assinado por Pier Cesare Bori e reformulado em meados dos anos 1990 ("È una storia vera?". Le tesi storiche sull’Uomo Mosé e la religione monoteistica di S. Freud ["É uma história verdadeira?" As teses históricas sobre o Homem Moisés e a religião monoteísta de S. Freud], 2015).

Como evidencia a introdução de Gianmaria Zamagni, que foi aluna de Bori, essa edição nasce do desejo de homenagear a figura do professor de história do cristianismo, falecido em 2012 e um dos primeiros a ter trabalhado na biblioteca de Freud em Londres.

O interesse do estudioso era atestar a seriedade histórico-religiosa de uma reconstrução que o próprio Freud tinha reconhecido como sendo frágil "como uma bailarina em equilíbrio na ponta de um pé".

Repassemos rapidamente as passagens. O ponto de partida, baseado na etimologia, consiste em considerar o Moisés do relato bíblico como um egípcio e, mais precisamente, como aquele que ensinaria aos judeus o monoteísmo do faraó Akhenaton.

Freud encontrou várias analogias entre essa religião e a judaica, por exemplo, na prática da circuncisão, e, de acordo com as teses de Ernst Sellin, ele especula que Moisés tenha sido assassinado e, portanto, substituído por outro profeta, antes de ser "hebraicizado" através do mito da exposição. O "novo" Moisés, depois, teria introduzido uma imagem "mais suave" de Yahweh, mas sem conseguir eliminar totalmente a "sombra do deus do qual o seu deus queria tomar o lugar".

O resultado disso será o dualismo de fundo da religião judaica, caracterizada pelo eterno retorno do trauma do homicídio original: um gesto esquecido, mas ineliminável no senso de culpa dos sucessores. O advento do cristianismo – explica Freud – coincidiria com a tentativa de Paulo de reelaborar essa remoção dentro de uma nova religião expiando o pecado original através da morte de Cristo na cruz.

Se, como escreve Bori, "o raciocínio freudiano cruza aqui as fronteiras do conhecimento invadindo decididamente o 'romancesco'", o esforço de fechar o círculo continua sendo absolutamente admirável. Por trás do senso de culpa, de fato, não há para Freud apenas a morte do profeta, mas aquele trauma pelo assassinato primitivo do pai repetido com Moisés e Jesus, e descrito por Freud em Totem e tabu (1913). Encontra-se nessa passagem histórico-antropológica a raiz inconsciente do antissemitismo, do qual o autor está vivendo mais uma e dramática reproposição histórica.

A força do "romance histórico" freudiano – continua Bori – consiste em veicular uma imagem totalmente contrária à antissemita proposta pelos Protocolos dos Sábios de Sião. O enraizamento no Egito da história de Israel permitiu que Freud fizesse do judaísmo o vetor de uma sabedoria ecumênica e de uma mensagem de libertação universal, que alguns viram na origem da sua psicanálise.

O escrúpulo expressado nas páginas iniciais da obra sobre a oportunidade de subtrair do povo judeu o próprio filho mais velho foi superado pela necessidade de expressar uma palavra alta e, em certos aspectos, também teológica contra a barbárie do presente.

Em outras palavras, as do historiador estadunidense Yosef Yerushalmi, Freud fez "um ato de obediência diferida", exaltando através da figura de Moisés o impulso à pureza e a verdade inerente ao judaísmo e retomado pela psicanálise, a moderna ciência da alma.

Devemos a Bori uma das primeiras análises do texto, a primeira a trazer à tona, embora criticamente, a intuição freudiana sobre o "núcleo de verdade histórica" na narração dos fenômenos religiosos, sobre o relato escondido no relato e sobre a remoção como instrumento para analisar as contradições nas tradições e a sua reemersão.

"Podemos, então, afirmar – concluiu Bori – que o 'título de honra' da psicanálise freudiana deve ser colocado em uma perspectiva mais vasta, como realidade que, particular (e judaica) como a gênese, é universal na essência."

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