Jesuítas missionários, mais do que nunca. Entrevista com Arturo Sosa Abascal

Revista ihu on-line

Etty Hillesum - A resistência alegre contra o mal

Edição: 534

Leia mais

Direito à Moradia, Direito à Cidade

Edição: 533

Leia mais

Veganismo. Por uma outra relação com a vida no e do planeta

Edição: 532

Leia mais

Mais Lidos

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

01 Fevereiro 2017

Arturo Sosa Abascal, prepósito-geral da Companhia de Jesus, nasceu em Caracas, em 1948, filho de um banqueiro, economista e ministro da Economia. Formado em Filosofia e em Ciências Políticas, dedicou muitos anos ao ensino e à pesquisa: é um ponto de referência cultural e político de um país de joelhos, por causa da crise econômica e da violência... “Eu não concordo, não é um país de joelhos. É uma situação difícil, mas as pessoas estão de pé, trabalham, fazem tantas coisas, a criatividade é estimulada, e isso não é captado pela mídia. O grande problema da Venezuela é que, há 100 anos, o petróleo substituiu a agricultura, a indústria, como fonte de riqueza. Convencemo-nos de que o fato de ter petróleo debaixo da terra, por si só, significava riquezas, e não valia a pena ter uma economia produtiva. A riqueza não vem dos recursos naturais, mas dos recursos humanos que os transformam e criam trabalho, relação. Com um dado a mais, que muitas vezes não se entende: as maiores receitas do país são as rendas petrolíferas, e o Estado toma todas elas e, depois, a distribui. Assim, mudou a relação entre Estado e sociedade: não é o Estado que depende da sociedade, mas o contrário, e isso não é bom.

A reportagem é de Monica Mondo, publicada no jornal Avvenire, 29-01-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O senhor é o 31º sucessor de Santo Inácio, o primeiro não europeu e o primeiro latino-americano, pela primeira vez com um papa jesuíta e latino-americano. Existe uma sintonia particular entre o papa e a Companhia?

O papa é jesuíta não só de nome, mas também no seu modo de se expressar. Quantas vezes vocês já ouviram o termo “discernimento”? Depois, ele é latino-americano, basta ouvir como ele prega, a sua abordagem com as pessoas, com o Evangelho. É aquela que foi gerada na América do Sul depois do Concílio. Nós temos a Companhia como mãe e o Concílio como pai, somos filhos desses dois progenitores.

O que ele lhe disse quando se encontrou com o senhor depois da sua eleição?

A mim, ele não disse nada, foi o Pe. Spadaro que lhe comunicou. Depois, após alguns dias, eu fui falar com ele, e estivemos juntos por mais de duas horas. Ele estava muito contente, mas teria estado com qualquer jesuíta: sempre nos impressionou o máximo respeito do papa pela Congregação Geral da Companhia. Ele nem sequer veio saudar antes da eleição, para que não parecesse que ele podia condicionar a escolha.

O “papa negro” (como muitas vezes é definido o prepósito-geral dos jesuítas) é eleito por toda a vida. No entanto, dois dos seus antecessores renunciaram, e um papa renunciou. O que mudou?

As pessoas duram mais... Quando esses cargos eram vitalícios, é porque a expectativa de vida das pessoas era menor. O Pe. Claudio Acquaviva (que viveu entre 1543 e 1615), italiano, foi superior durante 35 anos, porque foi eleito quando era jovem. Mas hoje não é mais assim. A formação é mais longa, somos eleitos mais tarde e vivemos por mais tempo. É só uma questão biológica. “Enquanto você é capaz de fazer o trabalho, faça-o.” E é um trabalho de tempo integral.

Dizem que o senhor sabe “ler o mundo”. Como se leem 16 mil jesuítas espalhados pelo mundo? São muitos, poucos, menos?

Olham-se com grande esperança. Estou feliz por guiar uma Companhia tão rica, que conseguiu se inculturar em civilizações diversas e têm vocações genuínas. Somos muitos, somos menos de quando éramos mais... mas o número não é o nosso problema, mas sim a qualidade das pessoas. Santo Inácio, desde o início, dizia nas Constituições que é preciso escolher bem todos os jesuítas, mesmo se forem muitos. Além disso, Deus escolheu um resto de Israel como povo.

Foi na sua família, numerosa, religiosa, onde o senhor aprendeu a rezar, eu imagino.

Religiosa sim, mas não fanática. Pessoas de fé, avós e pais, mas não estavam todo o dia na igreja. Eu aprendi em família que se encontra Deus quando você é responsável pela sua vida, quando você estuda, quando você está com os amigos.

O senhor esteve no colégio por 13 anos, onde aprendeu a cultura e os princípios da fé. Uma classe inteira cultural e política durante gerações foi formada pelos jesuítas. Por que hoje as escolas católicas são menos incidentes?

É preciso demonstrar que não é assim. Eu acho que, hoje, a educação cristã é mais profunda. Quando o cristianismo é mais ambiental, cultural, parece que é maior a influência da escola católica. Hoje, parece-me que é uma escolha muito mais livre da pessoa. Antigamente, era um hábito, um distintivo social. Hoje, é uma proposta, e aqueles que querem segui-la, seguem-na. Eu acredito que, hoje, essa proposta chega a um público muito maior do que antes.

Por que padre?

Eu nasci em 1948, depois das duas guerras europeias, em um momento em que a Venezuela parecia se dirigir ao povo, à democracia, depois dos anos da ditadura. Havia as ideologias em luta, havia a guerrilha, e a minha geração estava comprometida em fazer algo pelo país. O meu pai sempre dizia que não podemos nos sentir bem em família se o país não funciona e nós não fazemos nada para fazê-lo funcionar. O que fazer pela Venezuela? Nos anos da escola, eu tinha descoberto a espiritualidade inaciana e pensei que o melhor que eu podia fazer pela Venezuela era me tornar jesuíta.

Os jovens ainda entendem os Exercícios inacianos? O silêncio, o isolamento, hoje, quando estamos sempre conectados?

Os jovens, e não só, são capazes, e como, de seguir os Exercícios de Santo Inácio. É uma educação por graus, em que se aprende o silêncio interior, a se conhecer a si mesmo. Há um movimento chamado “Huellas”, na Venezuela, em que esse caminho é feito dos 15 aos 24-25 anos. É um acompanhamento.

A Igreja, o senhor disse, precisa de duas pernas, o serviço e o conhecimento cultural, a profundidade intelectual, de modo que o pensamento seja seguido pela ação certa. Caridade e cultura, as suas dimensões principais.

A primeira perna é a fé que se torna caridade. A fé sem ações não vale. As ações da fé são a caridade. Mas as pernas são duas, e, para poder caminhar bem, devem ser iguais, senão mancamos. Você pode mancar na parte espiritual, quando não tem experiência de Deus profunda, uma fé que leva você à caridade. Eis o trabalho da outra perna, a intelectual: conhecer, pensar, se aprofundar, ir além daquilo que se pensa e se sabe.

Outra dimensão fundamental, que sempre caracterizou a vida da Companhia, é a missão. E hoje?

Parece-me que hoje, mais do que nunca, a Companhia se sente missionária por toda a parte, porque se sente que tem esse desafio tão grande de poder se encarnar em cada cultura, de um modo respeitoso. É um dos grandes desafios da evangelização: para se tornar seguidor e discípulo de Jesus, não é preciso renunciar à própria cultura. É um modo de converter, de tornar mais humana qualquer cultura. Essa é a tensão da missão da Igreja durante séculos, uma missão não cultural, mas evangélica: a minha cultura é a minha fé, mas eu devo dialogar com o outro, e ele deve descobrir essa semente do Evangelho através de mim, na sua vida.

O papa insiste muito na diferença entre proselitismo e missão.

É claro, nós não fazemos propaganda, mas testemunho. Jesus atrai, não se impõe. O proselitismo é uma posição que não vai bem com o Evangelho.

De fato, o primeiro gerou feridas não curadas na história. Mas, se a verdade é Cristo e é preciso reconhecer as sementes de verdade em todos, não se corre o risco de relativizar a verdade?

A verdade é sempre relativa, não é uma coisa fixa.

Foi Jesus quem disse, que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida...

Nesse sentido, reconhecemos que o único absoluto é Deus. Jesus, como Deus, é ponto de referência. Eu digo que a verdade é relativa porque é sempre o fruto de uma relação que se tem com Deus e com os outros: daí surge a verdade, e não é um monumento ou algo fixo. A verdade também é algo que cresce com a humanidade.

Voltemos à sua paixão, a política. Os cristãos devem fazer política?

Não é possível ser político se não se é cristão, porque a política é o modo de se relacionar com as pessoas para criar a sociedade. A sua premissa é colocar o bem dos outros acima do bem particular. A política é possível quando existe esse nível de busca do bem comum, para o qual todos colocamos o nosso interesse particular em segundo plano. Fazer política é fazer isto: ver aonde se quer ir, concordar como sociedade e, depois, unir os meios. Isso faz com que todos possamos buscar o modo de habitar como pessoas humanas, juntos. Não é possível para ninguém habitar sozinho.

Entre nós, há a ideia de que a política é uma coisa suja, que uma coisa é a fé, a oração pessoal ou de uma comunidade, outra coisa é o compromisso com a realidade.

A oração também pode ser suja: a sujeira está por toda parte. Existe o mal, estamos na história. A parábola do joio no trigo nos lembra disso. Por isso, o Senhor nos diz para esperar, porque nós não temos clareza sobre o que é a sujeira e o que está limpo. A vida humana é assim, há tudo junto. Por isso, há a necessidade de discernimento e de coragem. A política é uma maneira de fazer um discernimento coletivo e social.

Melhor fazer política em um partido católico?

Não, absolutamente. Os partidos são para o bem comum, e a sociedade não é católica, mas humana. O catolicismo é um modo de ver a própria fé.

Há ainda, para muitos, a divisão ideológica entre direita e esquerda, em que a primeira é, por si só, má, e a segunda é boa, evangélica. Jesus como o primeiro socialista, o senhor já deve ter ouvido isso. Marxismo e cristianismo podem andar juntos?

O marxismo como doutrina social, não. De algum modo, ele nega essa dimensão claramente humana que é a fé em Deus, a Sua existência. Há muitas maneiras de viver o marxismo, mas aquele que não está certo, em geral – seja marxismo, cristianismo ou catolicismo –, é quando se torna uma ideologia e deixa para trás o pensamento, transforma-se de algum modo na imposição dogmática de qualquer ideia. Em uma sociedade, isso não é possível. Para poder verdadeiramente fazer política, as ideologias não servem.

A Igreja latino-americana foi achatada – o senhor disse – em uma teologia da libertação apresentada de modo caricatural como marxista. Não é isso?

Não, absolutamente, muito pelo contrário. O que a teologia da libertação ressaltou claramente é qual é o lugar teológico: a partir de onde nós queremos ouvir, interpretar e pensar a relação com Deus. E esse lugar são os pobres, não o marxismo, mas o Evangelho. Por outro lado, a teologia da libertação disse que não basta a filosofia como pensamento que ajuda a teologia. Era assim na Idade Média, ancilla theologiae: a única mediação, todos os conceitos eram tomados da filosofia. As ciências sociais tiveram um desenvolvimento muito grande a partir do século XIX e também são fonte para os conceitos teológicos, para entender a pobreza e as suas causas, a situação dos pobres, os direitos, humanos. Se realmente quisermos ter um pensamento sobre a fé das pessoas pobres, é preciso entender a sua situação com todos os instrumentos que as outras ciências nos fornecem.

A obediência ao papa é perinde ac cadaver: é o quarto voto de vocês. O que o senhor acha da célebre citação de Newman na carta ao Duque de Norfolk, quando escreve que, em um brinde à religião, ele brindaria antes à sua consciência e depois ao papa?

Eu acho que a escolha por trás da obediência é livre, ninguém obriga você a fazer esse voto, que tem um propósito preciso, a missão. O papa não decide como nos vestimos, a cor do hábito, mas diz respeito à missão. O raciocínio que os fundadores da Companhia fizeram, sendo poucos e querendo fazer o melhor para a Igreja, foi refletir sobre quem poderia ter um olhar universal e de direção, e por isso pensaram no papa. Depois, do ponto de vista mais teológico, o papa é o vigário de Cristo. Não é um poder hierárquico, mas ele tem a missão e a possibilidade de olhar para toda a Igreja e de uni-la.

Pode-se discutir com o papa?

Sim, deve-se, porque ele não é um imperador, é também uma pessoa, um cristão que olha para o Evangelho. O desafio para nós, jesuítas, para cada cristão e para o papa é fazer a vontade de Deus: devemos buscar juntos essa vontade. Reconhecemos que os superiores, na Companhia, como estrutura, e o papa em particular, têm uma palavra a dizer e um processo de discernimento que a origina. Assim, a obediência da Companhia não pode ser entendida se não se entender que é um discernimento feito em comum com a palavra final que o papa dá.

Santo Inácio costumava dizer que é preciso buscar a Deus em tudo e em todos. Também no mal?

Também no mal, e essa figura do mal é clara no Evangelho, aparecendo em todos os lugares. O mal é uma dimensão da humanidade, uma consequência da liberdade. Fazemos o mal porque somos livres, não somos obrigados a fazer o bem, podemos escolhê-lo. O mal também faz parte do desafio de qualquer escolha humana.

O senhor é um homem de estudos, de ação, tem uma grande responsabilidade. Como consegue rezar, ficar em silêncio diante de Deus? Pensamos em geral que também se pode rezar cozinhando ou cuidando das tarefas domésticas.

Não se pode fazer tudo, é preciso escolher: aprende-se com o tempo e com a idade. É preciso ter claras quais são as prioridades, o que não se faz e o que, ao contrário, se faz. Por exemplo, a oração se faz tomando o tempo necessário, assim como para dormir ou comer. Parece um desafio e uma tensão, que também na vida da Companhia são grandes. Sempre há coisas a se fazer, a estudar, a rezar, um equilíbrio instável. Os antigos jesuítas diziam: “Agis quid agis” (faça o que você está fazendo). Se você está rezando, reze; se você está fazendo a lição na escola, faça isso, concentre-se no que você faz. Se é preciso fazer as duas coisas, elas são feitas em tempos diferentes, porque a energia humana é limitada, e pode haver um engano: eu rezo enquanto faço. Não é assim: ou se reza ou não se reza. Se não se reza, não se tem aquele contato absoluto com Deus necessário para a vida cristã.

E quando Deus não responde?

Continue pedindo. A resposta de Deus é: “Eu estou ao seu lado, você não se dá conta?”. O que percebemos na fé é que Deus está conosco. O nome de Jesus é Deus conosco, Emanuel. Deus não é como todo ser humano que lhe responde com as palavras, mas com a sua presença e apoio. Estar acompanhado é a sensação que se tem quando se faz essa experiência de Deus.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Jesuítas missionários, mais do que nunca. Entrevista com Arturo Sosa Abascal - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV