Hubert Jedin mudou o paradigma dos historiadores da Igreja. Artigo de Massimo Faggioli

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28 Setembro 2016

"Realmente, a obra History of the Council of Trent de Jedin era a culminância de sua contribuição historiográfica, obra que mudou a maneira como os historiadores católicos enxergam a profissão: o abandono de uma historiografia estritamente confessional e apologética, a consciência dos limites do positivismo historiográfico estritamente limitado à publicação de fontes e a reivindicação de novos espaços abertos com o fim da perseguição dos “modernistas” no século XX".

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de teologia e estudos religiosos na Villanova University, na Pensilvânia, ao comentar o livro A History of the Council of Trent (em tradução livre, História do Concílio de Trento) de autoria de Hubert Jedin, importante historiador da Igreja, cujo original alemão foi publicada em inglês por Thomas Nelson, 1957-1961. O comentário é publicado por National Catholic Reporter, 26-09-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o comentário.

Quando trabalhava com um colega na elaboração de um livrinho sobre as fontes de pesquisa a respeito do Concílio Vaticano II (obra intitulada Il concilio inedito: fonti del Vaticano II, editada por mim mesmo e por Giovanni Turbanti em 2001), Giuseppe Alberigo, editor geral de História do Vaticano II, obra-padrão em cinco volumes para o evento teológico católico mais importante depois de Trento, conseguiu convencer um jovem doutorando que um pequeno livro sobre as fontes foi também o modo como Hubert Jedin iniciou os seus próprios volumes sobre a história do Concílio de Trento.



A History of the Council of Trent
Por Hubert Jedin, tradução inglesa de Ernest Graf
Thomas Nelson, 1957-1961

O último dos quatro volumes de History of the Council of Trent (História do Concílio de Trento, sem tradução portuguesa), Jedin (1900-1980), foi publicado 40 anos atrás e é ainda uma das obras mais importantes da história da Igreja publicada no século XX. A obra de Jedin recebeu um olhar renovado com o mais recente e brilhante o livro de John O’Malley, intitulado Trent: What Happened at the Council (Trento: o que aconteceu no concílio, publicado em 2013, sem tradução portuguesa).

O’Malley lembra-nos não só da importância de Trento para a compreensão do Vaticano II e do catolicismo contemporâneo, mas também que apenas os dois primeiros volumes da prestigiada obra de Jedin foram traduzidos ao inglês. Verdade seja dita: os livros de Jedin são difíceis de se traduzir para outros idiomas (todos os quatro volumes foram traduzidos para o italiano, mas nenhum chegou a ser traduzido ao francês), o que também se deve à grande quantidade de páginas (2.700 ao todo).

Ela é não obstante uma das obras que mudaram o paradigma na historiografia católica. Todos os historiadores do catolicismo moderno estão em dívida com Jedin.

O primeiro dos quatro volumes, publicado nos primeiros dias da Alemanha pós-guerra, em 1949, abre com um incipit bastante audacioso para uma série de volumes focados sobre um grande vento: um volume inteiro dedicado à pré-história de Trento, introduzindo o que Jedin chamava de “a vitória do papado sobre os concílios” do século XV.

O historiador católico Jedin quebrava um tabu muitíssimo presente na cultura católica de meados do século XX – uma cultura que ainda tentava computar as implicações das definições a respeito do papado aprovadas pelo Concílio Vaticano I em 1870 – sobre as relações entre o papado, o conciliarismo e a própria tradição conciliar. Jedin explicava a relação difícil e desconfortável entre o papa e os bispos reunidos em um concílio não em termos de necessidade teológica, mas em termos históricos e com um sentido de desenvolvimento histórico.

Para Jedin, o Concílio de Trento (1545-1563) – o momento mais definidor do catolicismo moderno primitivo – não se apresentava sozinho na história da Igreja, mas fazia parte de uma história longa e intensa da Igreja Católica e, especialmente, da eclesiologia católica – em certo sentido, era o resultado do fim do conciliarismo do século XV.

A segunda parte do primeiro volume aborda a história das tentativas de convocar o concílio depois do chamado de Martinho Lutero a uma reforma da Igreja que acabaria se transformando na Reforma Protestante. O Volume 1 termina com um capítulo dedicado à abertura do Concílio de Trento, na Itália, com apenas um punhado de padres conciliares – 25 bispos e cinco superiores de ordens religiosas, uma minúscula minoria dentro do episcopado católico, de forma alguma representante do que na época era o mundo católico.

O Volume 2 (publicado oito anos depois do primeiro, em 1957) centra-se na primeira sessão (1545-1547) e na transferência do concílio para o sul de Trento, isto é, Bolonha. Este foi um período de debates importantes em torno da justificação, do pecado original, do número de sacramentos e da decisão a respeito da obrigação dos bispos de residirem em suas dioceses.

O Volume 3 (publicado em 1970) analisa as sessões em Bolonha (1547-1548) e o segundo período em Trento (1551-1552), que solidificou a fratura entre Roma e os reformadores protestantes. O Volume 4, Partes I e II (publicado em 1975), discorre sobre o último período em Trento com os debates sobre a ordenação, a Eucaristia, as indulgências, os santos e o papel das imagens nas práticas devocionais.

Na conclusão da obra, Jedin analisa as últimas três sessões (incluindo as deliberações sobre o decreto a respeito do matrimônio) e traça uma avaliação final das contribuições feitas pelo evento mais importante na história da teologia e cultura católica entre os séculos XVI e XIX.

A opus magnum de Jedin sobre a história de Trento é, de fato, um dos monumentos da historiografia católica e, em certo sentido, o momento mais elevado da historiografia do século XX em torno dos concílios da Igreja. Jedin foi o historiador mais importante numa Igreja que, depois da Segunda Guerra Mundial – mas ainda antes do Vaticano II –, estava finalmente aceitando o método histórico-crítico como a abordagem necessária para entender a Igreja como um sujeito histórico. A Igreja começava lentamente a aceitar os limites de se conceber a história católica ainda em termos teológicos, como uma “história sagrada”.

Realmente, a obra History of the Council of Trent de Jedin era a culminância de sua contribuição historiográfica, obra que mudou a maneira como os historiadores católicos enxergam a profissão: o abandono de uma historiografia estritamente confessional e apologética, a consciência dos limites do positivismo historiográfico estritamente limitado à publicação de fontes e a reivindicação de novos espaços abertos com o fim da perseguição dos “modernistas” no século XX.

Essa mudança tornou-se possível em Jedin devido aos seus importantes mestres e referências intelectuais na Alemanha (Joseph Wittig, Leopold von Ranke, Sebastian Merkle e Albert Ehrhard), aos colegas contemporâneos da Itália (o filósofo Benedetto Croce e o historiador de hereges Delio Cantimori), e aos encontros com os personagens e eventos históricos que emergiram das páginas da história, a começar por Girolamo Seripando, superior geral dos agostinianos e membro do Concílio de Trento.

A grande contribuição de Jedin foi o resultado da aplicação do método histórico-crítico num período que se seguiu à liberalização dos estudos históricos com a abertura dos Arquivos do Vaticano pelo Papa Leão XIII em 1881, mas ainda caracterizado pela apologética e pelo controversialismo teológico. Até o Vaticano II, a obra de Jedin não era considerada suficientemente católica por alguns dos guardiões da ortodoxia intelectual da Igreja.

A decisão de Jedin de escrever uma história do Concílio de Trento está estreitamente ligada com o seu trajeto de vida. A mãe de Jedin era judaica, e isso significou para ele a perda da venia legendi alemã (permissão para lecionar em universidades) e o banimento de universidades estatais na Alemanha nazista. Isso levou o jovem professor-palestrante à posição inferior de arquivista da Diocese de Breslau (na época ainda pertencente à Alemanha, hoje fazendo parte da Polônia após a remarcação das fronteiras no pós-guerra).

Depois da Kristallnacht de 09-11-1938 [1], não era seguro a Jedin permanecer na Alemanha nazista. Assim, ele decidiu voltar a Roma, onde já havia morado, para ser o editor de um dos volumes da prestigiada série Concilium Tridentinum, a edição dos documentos históricos do Concílio de Trento.

Em 01-09-1939, rompeu a Segunda Guerra, e Jedin conseguiu, graças a circunstâncias afortunadas, chegar a Roma com uma maleta cheia de materiais que tinha coletado sobre a história do Concílio de Trento. Ficou em Roma durante o curso da Segunda Guerra (incluindo a ocupação alemã de Roma) até a libertação da cidade pelas forças aliadas em junho de 1944. Jedin continuou trabalhando – mesmo em condições difíceis durante a guerra – nos Arquivos do Vaticano. O primeiro volume de sua história do Concílio de Trento foi publicado em 1949.

A obra de Jedin nos deu – quatro séculos depois do fim do Concílio de Trento em 1963! – a primeira história confiável e definitiva do evento mais importante na história da Igreja Católica entre Martinho Lutero e o Vaticano II. Esta história em quatro volumes pôs fim às controvérsias entre os dois polos opositores que predominavam nos estudos católicos a respeito de Trento até Jedin: a história antipapal e polêmica do concílio escrita pelo veneziano Paolo Sarpi (publicada em 1619 e imediatamente posta no Índice de Livros Proibidos) e a história oficial e apologética escrita pelo jesuíta Pietro Sforza Pallavicino (publicada em 1656-1657).

Isso foi possível porque, como um primeiro estágio para a obra sobre a história do concílio, Jedin quis ver os arquivos e seus usos. Esta parte preparatória da obra, originalmente concebida como uma introdução apenas, virou um livro em si publicado em 1948: Das Konzil von Trient: Ein Überblick über die Geschichte seiner Erforschung (O Concílio de Trento: uma visão geral da história da pesquisa). Curiosamente, Jedin considerava esta pequena obra introdutória como “o meu melhor livro”.

As ramificações da obra de Jedin vão bem além do campo dos especialistas em Concílio de Trento e da era tridentina. Se temos o padrão “História do Vaticano II”, dirigido por Alberigo (publicado em 1995-2001, em cinco volumes, traduzido para sete idiomas), é porque havia, antes, a History of the Council of Trent de Jedin. Não só porque a obra de Jedin foi trazida para a Itália em grande parte por seu aluno Alberigo (1926-2007), mas por causa da abordagem ao Vaticano II dada pela equipe internacional de acadêmicos reunidos pela chamada (por vezes insultuosamente) “Escolha de Bolonha”. Eles conscientemente seguiram as escolhas metodológicas de Jedin: uma ampla atenção a muitos tipos diferentes de fontes (acta oficiais, diários, tratados teológicos, correspondências, história política do concílio); a reconstrução da história do concílio, começando com a longa história anterior; e um estudo histórico sobre “o que aconteceu” sem se basear nos mantras da continuidade absoluta da história católica.

Nota da IHU On-Line:

[1] Noite dos Cristais ou Noite de Cristal (em alemão: Reichskristallnacht ou simplesmente Kristallnacht) é o nome popularmente dado aos atos de violência que ocorreram na noite de 09-11-1938 em diversos locais da Alemanha e da Áustria, então sob o domínio nazista ou Terceiro Reich. 

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