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23 Junho 2016

“O Discurso do papa argentino proferido por ocasião do 50º ano do Sínodo dos Bispos é o mais desafiador e corajoso destes primeiros anos de pontificado”, assinala Michele Giulio Masciarelli, teólogo, padre da Arqidiocese de Chieti-Vasto, Itália, e consultor da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, em artigo publicado por Settimana News, 21-06-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis o artigo.

A ideia-mãe de Francisco

1. Igreja, povo horizontal e vertical. O convite para caminhar juntos é um convite para ser a Igreja, porque caminhar é seu destino, e caminhar é sua postura dinâmica. Convidar a caminhar significa convidar a entrar na Igreja peregrina, acompanhante da grande caravana dos homens, todos nascidos antes, e, portanto, viajantes para Além e para Alhures.

Esta é a Igreja Sinodal, fundada por Jesus: é um "povo de filhos" e, consequentemente, "um povo de irmãos e irmãs". Este povo vertical, nascido do Alto, torna-se povo horizontal exatamente para ser Igreja peregrina no caminho da beleza, porque este caminho é traçado pelo pastor "belo e bom", como Jesus, querendo reunir os filhos de Deus dispersos e levá-los para o Reino.

2. Eco de um discurso histórico. A sinodalidade é uma "ideia-mãe'' do papa Francisco sobre a Igreja e sobre a missão. Ele, no dia 17 de outubro de 2015, fechando a comemoração do 50º aniversário da instituição do sínodo de bispos pelo Beato Paulo VI - organizada pelo card. Lorenzo Baldisseri, secretário-geral da Secretaria do Sínodo, pelo subsecretário Mons. Fabio Fabene e pelos seus valorosos colaboradores - pronunciou um Discurso memorável [1] sobre a reforma da Igreja, que logo se tornou histórico: nele brilhou o princípio da sinodalidade com luz forte e tênue. Tal intervenção magisterial, pastoral e de governo é um alto e decisivo anúncio da reforma da Igreja, que não se contenta com aspectos marginais ou periféricos do mesma, porque destina-se a tocar em todos seus espaços vitais.

Este Discurso do papa argentino é o mais desafiador e corajoso destes primeiros anos de pontificado. Trata-se de intervenção magisterial unitária e articulada ao mesmo tempo. Altamente coeso, mas também aberto, como uma estrela, em muitas direções: a sinodalidade difusa [2], a descentralização, a reforma do exercício do ministério petrino, a natureza e a finalidade de serviço da autoridade, o espírito e o estilo sinodais ...

Sinodalidade, palavra antiga e nova

1. Diante de uma palavra antiga. Sinodalidade é uma ideia (mas também palavra) que tem a mesma idade da Igreja. A história do catolicismo é atravessada pela experiência sinodal, sem minar a autoridade da Igreja de Roma. Por exemplo, do III para o IV século, os sínodos se encerravam informando ao bispo de Roma suas decisões, enquanto, por outro lado, as autoridades romanas se reservavam o direito de rejeitar as conclusões em contraste com definições de um Concílio (cf. Giulio I: 336-352 versus Sínodo de Tiro: 335). Como se dirá, a sinodalidade estava aninhada na conciliaridade da Igreja [3], e em sua comunionalidade, à qual a Igreja manteve-se substancialmente fiel, mesmo quando dominavam eclesiologias jurídicas e pouco mistéricas.

2. Encontro com uma palavra sempre nova. Não nos limitamos a glosar, aqui, o importante Discurso do papa Bergoglio, mas queremos, a partir dele, refletir sobre a sinodalidade, sua necessidade, suas exigências em termos de virtudes humanas e cristãs. Desenvolvemos também linhas de justificação teológica e pastoral desta antiga e profética palavra – a sinodalidade –, um dos termos agora mais significativos do pontificado de Francisco, um caminho de vida cristã e eclesial que realmente poderá levar muito longe. Depois de muito tempo amarrada em questões eclesiais e pastorais, desgastada pela enferrujada ênfase na retórica e na repetição, finalmente apareceu, pelo sopro do Espírito, a palavra de um verdadeiro sinal dos tempos: sinodalidade.

Sinodalidade, palavra-fonte para a Igreja

1. Sinodalidade, palavra interdisciplinar. Sinodalidade - palavra antropológica, pedagógica, teológica, pastoral, metodológica, espiritual (e muito mais ...) - é o paradigma comportamental mais lúcido e exigente que se apresenta perante os olhos dos crentes cristãos individuais, das Igrejas locais e da Igreja universal. A grandeza desta palavra não deve, absolutamente, intimidar, por causa da sua imitação, da sua assunção em nível de princípio, da sua tarefa de dar um nome à esperança da Igreja, em vista de um futuro não datável, que se acede gradualmente, pacientemente, sem o cio de querer tudo de uma vez, mas também com o passo bastante decidido.

Além disso, maturaremos uma ampla sinodalidade apenas com experiências sinodais pequenas, mas significativas, vividas em todos os níveis: da paróquia às foranias, às áreas pastorais, à vida diocesana, estímulos participativos devem emanar e animar, todos os dias, a vida das pessoas. Só desta forma pode vir, em termos sinodais, o algo a mais e maior ... resto, que há tanto tempo se espera, ou seja, que toda a Igreja se torne Igreja de todos e para todos [4].

2. Sinodalidade, palavra de missão. Refletindo sobre a caminhada dos cristãos, o papa Francisco diz: "Penso ser esta realmente a melhor experiência que podemos viver: fazer parte de um povo em caminho, em caminho na história, juntos com o Senhor, que caminha no meio da nós". Ele insiste sobre o fato de que o povo de Deus deve caminhar sempre junto à comunidade da família de Adão, da qual fomos tirados, e para a qual seremos logo em seguida enviados [5]. Assim, sinodalidade é o nome da vida e da missão da Igreja. O processo sinodal, animado e confortado pelo Espírito, sob cujas asas e de cuja força a Igreja peregrina avança na busca pelo Reino, nos convida "a viver a esperança, enquanto aguardamos a vinda do Cristo Salvador " (Liturgia da Missa).

Sinodalidade, palavra milênio

Exatamente isto. Esta forma de Igreja foi sendo delineada pelo Concílio ao longo destes cinquenta anos, como se estivesse incubando no leito da história as duas importantes palavras, inscritas na fronte: conciliaridade e comunhão. Pode-se dizer que o Concílio, mesmo não tendo falado explicitamente de sinodalidade, é o seu mais autorizado e mais próximo incitador.

Sinodalidade não é uma usual palavrinha sazonal, inventada para reavivar pastorais deprimidas, que perderam seu coração e sua alma. Isto acontece sempre de novo na Igreja quando sobre os projetos de pastoral e de missão descem os vermes da retórica e do uso vazio e sem frutos, mas sobretudo quando são agredidas pela traça do tempo que as desgasta e destrói. Contudo, a sinodalidade não é chamada para corrigir isso.

Sinodalidade é uma palavra que brota da própria vida de Deus uno e trino, que vive uma infinita comunhão interpessoal e torna-se o sujeito da missão salvífica da Encarnação e do Pentecostes, santas matrizes do "povo de Deus" e de todo dinamismo sinodal que ativa dentro e fora de si.

Sinodalidade é uma palavra que permanece, porque está enraizada na revelação atemporal de Deus (especialmente no evangelho da ressurreição), está fundada sobre a rocha inabalável de Cristo e, em particular, é plantada na pedra retirada do seu túmulo. A sinodalidade tem, portanto, as qualidade teológica para ser a palavra do Milênio.

Sinodalidade é a palavra da missão, da Igreja em saída, que caminha em direção à comunidade dos homens, para as margens tristes da pobreza e para aquelas igualmente dolorosas da divisão, bem como para todos os lados da criação. Uma Igreja sinodal é de per si missionária, e, portanto, traz consigo os símbolos da itinerância: "peregrina", que lhe recorda as intempéries da história das quais defender-se, e ao mesmo tempo é símbolo da humanidade de Cristo, dentro da qual envolver-se. Ela traz consigo a "bolsa", símbolo da esmola, para lembrar que o caminho sinodal não é uma excursão de lazer para gourmets e fanfarrões, mas uma viagem de peregrinos pobres. Traz consigo, finalmente, o “bastão” florido, para lembrar quem é seu apoio maior: a Santíssima Trindade, como um "terceiro pé" ao qual apoiar-se, desde sempre e para sempre.

Sinodalidade é uma palavra planetária, que aponta para a imensa caravana humana, atravessando a história, em busca do Além e do Alhures, e dentro da qual ocorre o particular caminho sinodal, que a Igreja peregrina realiza, inspirando ao redor de si o sentido de Deus, buscando... os buscadores de Deus, dialogando ... com os negadores de Deus, juntando-se ... aos companheiros de fé e de Credo, para tentar subir, juntos, para o monte santo de Deus, meta de todos os caminhos sinodais.

Sinodalidade é uma palavra que diz filialidade: recorda que nascemos na mesma fértil fonte batismal, e que esta filialidade original cria unidade de destino sinodal, que nunca deve quebrar, sob pena de contradição com a origem comum dos peregrinos do Absoluto. A filialidade batismal, que inevitavelmente resulta em fraternidade e irmandade, compõe o sujeito único e múltiplo de sinodalidade. O sujeito do caminho sinodal não é uma reunião de estranhos, mas um povo de filhos, ainda que para os cristãos não há estrangeiros, nem "reuniões de estranhos", já que todo mundo vive na mesma "tenda planetária", numa casa móvel e, portanto, numa casa sinodal.

Sinodalidade é, finalmente, uma palavra de memória e de esperança: possui uma poderosa tenacidade memorial (reúne em si todos os acta Dei e torna presente – por meio do "viático" eucarístico - tudo o que o Deus Trino já realizou para os homens). Sinodalidade tem também uma forte fibra profética: ensina que, para nunca se desesperar, é preciso sair, encontrar companheiros de vida e de fé, e encaminhar-se com eles para onde chama o Espírito, e para onde leva o coração...

Por todas estas razões, o sonho Papa Francisco é de que a Igreja se torne sinodal.

Notas:

1- Francisco, Discurso pela comemoração do 50º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos (17/10/2015), in L'Osservatore Romano, 18/10/2015, p. 5.
2- Cf. Masciarelli, M. G. "Il sogno di papa Francesco: una Chiesa e una Curia Romana nel sengo della sinodalità " in Kairós 3 (2013/1-2) 21-46.
3- O teólogo católico inglês, Paul McPartlan, analisa as duas palavras (e talvez os dois conceitos) como intercambiáveis: Un nuovo esercizio del papato, Magnano(BI): Qiqajon, 2015, p. 8.
4- Cf. Frosini, G. Una Chiesa di tutti: Sinodalità, partecipazione e corresponsbilità. Bolonha: Dehoniane, 2015.
5- Evangelii gaudium, n. 268.

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