Francisco, "além" e "alhures": a raiz do conflito de interpretações. Artigo de Andrea Grillo

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10 Junho 2016

Francisco não pode ser compreendido mediante os esquemas clássicos. Ele não conseguiu permanecer nem mesmo naqueles esquemas "residenciais" por um único dia. Mas não porque ele esteja de um lado ou do outro, e nem mesmo porque esteja no meio. Ele está além e vem de alhures.

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, leigo casado, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.

O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 06-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Se tentarmos tomar distância das polêmicas que, depois da Amoris laetitia, se entrelaçaram no corpo eclesial e tentarmos avaliar com calma e sine ac ira studio o debate que surgiu daí, podemos notar que uma frente dupla tende a "parafrasear Francisco" ou tenta "fazer a sua caricatura", de acordo com uma lógica antitética, mas bastante coerente.

Alguns leem Francisco "como se nada tivesse acontecido"; outros, "como se nada fosse como antes". E, com essa dupla leitura, pode-se concordar ou discordar, mas a questão é que não se concorda ou se discorda com Francisco, mas com a própria projeção sobre ele!

Então, poderia ser útil compreender como funciona esse "reflexo condicionado" da interpretação católica do papado de Francisco (a), como podemos compreender o "verdadeiro Francisco" (b) e que descobertas poderíamos fazer em alguns campos determinados (como a reforma da Igreja ou a vida familiar) (c), para depois retornar, alhures, a Francisco (d).

a) O estereótipo da antítese modernista/antimodernista

Nas intervenções que lemos depois do dia 8 de abril – e que já tínhamos ouvido ao longo de todo o caminho sinodal –, alguns teólogos, pastores, autoridades, cardeais, jornalistas como Spaemann, Müller, Caffara Negri, Valli, com as respectivas e devidas diferenças, parecem se mover de acordo com um modelo que foi elaborado durante o século XIX e, depois, desenvolvido no fim daquele século, enrijecido durante a "luta antimodernista" das primeiras décadas do século XX e que, hoje, funciona como "instrumento evidente" da análise.

No seu interior, o "mundo moderno" é identificado com uma série de "ismos" (subjetivismo, relativismo, pós-modernismo) que absolutizam a liberdade, que anulam os vínculos, que tornam a existência "líquida" e "indeterminada".

Em relação a esse "modernismo", assim considerado, a Igreja só pode se colocar do lado oposto, ou seja, no plano da objetividade, da autoridade e da tradição. Toda avaliação de palavras, de gestos, de desejos, de projetos é imediatamente remetida a esse "modelo".

Quando você ouve um papa, você considera que ele deve falar de acordo com o modelo, ou seja, a favor da objetividade, da autoridade e da tradição, e que ele deve se lançar contra o subjetivismo, contra o relativismo e contra o pós-modernismo contra o líquido. Um papa parece que só pode sê-lo quando se encaixa nesse modelo. E, se não se encaixa, o problema é... do papa. Eu acredito, em vez disso, que o problema não está no papa, mas no modelo.

b) Francisco e a via conciliar de "pacificação com a modernidade"

Francisco, desde o início, tentou ter autoridade com a liberdade do seu magistério. Ele tentou lutar contra o relativismo com um excedente de relações, e não com a denúncia da sua falta. Ele tentou lutar contra o subjetivismo motivando os "laços que promovem e dão sabor à vida", em vez de mortificar a liberdade do sujeito. Ele tentou os caminhos novos do Evangelho, em vez da denúncia dos obstáculos que novas formas de vida opõem ao Evangelho.

Em suma, em Francisco, assistimos ao fenômeno grandioso de uma "aplicação" do paradigma conciliar, que o Vaticano II tinha predisposto, mas que, no pontificado de Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI ainda não tinha alcançado a evidência de um "cânone".

Os grandes méritos desses três papas em diversos setores – a evangelização para Paulo VI, a paz e o diálogo com as grandes religiões para João Paulo II, a mistagogia para Bento XVI – não impediram que o paradigma do século XIX se impusesse também sobre os seus pontificados, especialmente nos setores morais, dogmáticos e jurídicos.

Nesses 50 anos, depois do Concílio, muitas coisas certamente mudaram, mas a estrutura geral da Igreja permaneceu ligada a uma interpretação do "mundo moderno" de caráter apologético e defensivo, com forte desconfiança e nostalgia, e com percentuais de fechamento autorreferencial elevados demais.

Francisco sai abertamente e, diria, publicamente desse esquema. Por isso, para uns, ele pode parecer modernista, apenas porque fala bem da liberdade. A outros, ao contrário, ele parece antimodernista, porque revela os limites de uma leitura unilateral do sujeito. Essa, porém, não é a "confusão" denunciada pela direita ou o "compromisso" denunciado pela esquerda, mas um "novo modelo" de relação entre Igreja e mundo, ao qual não estamos acostumados, porque vem "do fim do mundo".

Vindo do fim do mundo, é também "o fim de um mundo", do pequeno mundo antigo dos professores de seminário que, vendo chegar um novo professor jovem, sussurram em voz baixa a pergunta fatídica: "Será um kantiano?". Quando chega um papa que fala com liberdade, também se sussurra: "Será um modernista?". Não é modernista, mas nasceu em uma metrópole.

Saindo do estereótipo, ele é facilmente confundido como "traidor" por um lado. Na realidade, o que Francisco trai abertamente é o modelo de antítese entre modernismo/antimodernismo. Que, agora, está definitivamente fechado e oficialmente arquivado, embora não seja impossível nos organizarmos em torno de muitas iniciativas de resgate...

c) Ordem e matrimônio, a serem repensados de acordo com outro modelo

Esse novo modelo, em suma, conecta criativa e sapiencialmente aquilo que a antítese opunha drasticamente: ele pensa de forma diferente a relação entre "comunhão", "autoridade" e "liberdade". Tal relação diz respeito, obviamente, a todo o "saber cristão", da protologia à escatologia e, portanto, também a todos os sete sacramentos.

Mas os dois sacramentos que são mais "expostos" à mudança de paradigma são justamente o matrimônio e o ministério ordenado. Em cada uma deles, de fato, está em jogo, imediatamente, uma "forma de comunhão", de acordo com uma certa relação entre autoridade e liberdade. E é aqui, justamente nesse terreno muito sensível ao "modelo antitético", que as resistências e as caricaturas crescem exponencialmente.

Esse modelo de contraposição vem de uma herança do século XIX, que ainda não elaboramos até o fim. E, nas palavras que usamos e nos pensamentos que concebemos, ainda habitam os fantasmas de uma contraposição entre Estado da Igreja e Estado liberal.

Assim, o matrimônio tornou-se ao longo do século XX uma espécie de "pequeno resíduo de poder temporal", que condena a Igreja a um nível de autorreferencialidade absolutamente insuportável, justamente quando ela anuncia a coisa mais "heterorreferencial" de todas, como o matrimônio!

Por isso, a linguagem sobre o sacramento do matrimônio foi "politicamente blindada" a partir do Código de 1917, mas mesmo depois do Código de 1983 permanece uma lógica "antitética", que torna muito difícil o "diálogo entre ordenamentos".

Nesse campo, Francisco compreendeu perfeitamente que a "lógica do sistema" produz, há muito tempo, injustiças demais. Recuperar o "sujeito" (masculino e feminino, ligado e livre) nas lógicas objetivas de "ordem" e "matrimônio" é um desafio que não se resolve dentro do modelo clássico, mas apenas sob a condição de mudar de modelo.

d) Francisco sempre joga como "líbero"

Francisco não pode ser compreendido mediante os esquemas clássicos. Ele não conseguiu permanecer nem mesmo naqueles esquemas "residenciais" por um único dia. Mas não porque ele esteja de um lado ou do outro, e nem mesmo porque esteja no meio. Ele está além e vem de alhures.

Poderíamos quase dizer que aquele princípio que estabelece o primado do tempo sobre o espaço – e do qual decorrem muitas novidades no magistério de Francisco – pode ser compreendido não tanto "historicamente", mas sim "geograficamente".

O alhures americano – o seu "não pertencimento" à tradição europeia – coloca o Papa Francisco em um "além" em relação ao modelo do conflito entre modernismo e antimodernismo. Essa "alteridade" de Francisco não é catalogável de acordo com os nossos hábitos europeus. E relativiza todos eles.

Por isso, ele ainda parece ser julgado como um "fenômeno", mesmo depois de três anos abundantes desde a sua eleição. Mas, como escreveu o moralista Marciano Vidal, se o reconhecemos de imediato naquela noite de março de 2013, assim que ele assomou da janela e começou a falar, é porque tínhamos um "pressentimento" disso.

O Concílio, 50 anos antes, nos tinha colocado na possibilidade de esperar um papa tão surpreendente. E de reconhecê-lo como papa. E de querê-lo bem. Porque, com o seu "estar além" e com o seu "vir de alhures", ele permite que a Igreja traduza o Evangelho de sempre em uma língua, em parte, muito nova e, em parte, muito antiga. As caricaturas que ele deve sofrer atestam, sobretudo, esse seu "ir além" e esse seu "vir de alhures".

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