Os quatro ganchos nos quais Bergoglio pendura o seu pensamento

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Por: André | 23 Maio 2016

São seus critérios norteadores desde a juventude. Agora inspiram o seu modo de governar a Igreja. Aqui são analisados pela primeira vez por um filósofo e missionário de fronteira.

A reportagem é de Sandro Magister e publicada por Chiesa.it, 19-05-2016. A tradução é de André Langer.

Qual é o critério norteador do Papa Francisco, de seu magistério líquido, jamais definidor, deliberadamente aberto às interpretações mais contraditórias?

É ele mesmo quem o recorda, no começo da Amoris Laetitia: “Recordando que o tempo é superior ao espaço, quero reafirmar que nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais” (n. 3).

Mais adiante, na mesma exortação, Francisco traduz dessa maneira esse critério: “Trata-se mais de gerar processos que de dominar espaços” (n. 261).

“O tempo é superior ao espaço” é, efetivamente, o primeiro dos quatro critérios norteadores que Francisco enumera e descreve no documento programático de seu pontificado, a Exortação Evangelii Gaudium. Os outros três são: a unidade prevalece sobre o conflito, a realidade é mais importante que a ideia, e o todo é superior à parte.

É ao longo de sua vida que Jorge Mario Bergoglio se inspira nestes quatro critérios, principalmente no primeiro. O jesuíta argentino Diego Fares, ao comentar a Amoris Laetitia no último número da revista La Civiltà Cattolica, cita amplamente os apontamentos de conversas que teve com o então provincial da Companhia de Jesus na Argentina, feitos em 1978, todos eles “sobre o âmbito do espaço de ação e sobre o sentido do tempo”.

Mas, tem mais. Todo o bloco da Evangelii Gaudium que explica os quarto critérios é a transcrição de um capítulo da inconclusa tese de doutorado escrita por Bergoglio nos poucos meses em que morou na Alemanha, em Frankfurt, em1986. A tese se centrava no teólogo ítalo-alemão Romano Guardini, que é efetivamente citado na exortação.

Este pano de fundo da Evangelii Gaudium foi revelado pelo próprio Papa Francisco em um livro, publicado em 2014 na Argentina, sobre seus anos “difíceis” como jesuíta:

“Embora não cheguei a terminar a minha tese, o estudo que fiz nesse tempo me ajudou muito para tudo o que veio depois, inclusive a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, visto que nela toda a parte sobre os critérios sociais foi extraída da minha tese sobre Guardini”.

É, portanto, indispensável analisar estes critérios, caso se queira compreender o pensamento do Papa Francisco.

É o que faz, no texto que segue na sequência, o Pe. Giovanni Scalese, de 61 anos, barnabita, desde 2014 coordenador da missão “sui iuris” do Afeganistão, único posto de vanguarda da Igreja católica nesse país, onde também desenvolve papéis diplomáticos como secretário da Embaixada da Itália.

Além de missionário na Índia e nas Filipinas, e assistente geral da ordem dos Barnabitas, o padre Scalese foi professor de Filosofia e reitor do Collegio alla Querce, de Florença.

É deste colégio que ele emprestou o nome “Querculanus”, com o qual assina as reflexões que posta num blog no qual pode ser lida na íntegra o seu artigo, aqui um pouco abreviado.

Scalese observa, entre outras coisas, que é em virtude destes postulados seus de sabor historicista e hegeliano que o Papa Francisco polemiza continuamente contra a natureza abstrata da “doutrina”, opondo-lhe uma “realidade” à qual aquela deveria se adequar.

Como se tivesse esquecido que a realidade, se não for iluminada, guiada e ordenada por uma doutrina, “corre o risco de desembocar no caos”.

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Os quatro postulados do Papa Francisco, por Giovanni Scalese

O padre Giovanni Scalese (Roma, 1955) pertence à Ordem dos Clérigos Regulares de São Paulo (Barnabitas). Fez a filosofia e a teologia na Pontifícia Universidade São Tomás (Angelicum) e o mestrado em teologia (especialização em teologia bíblica) na Pontifícia Universidade Gregoriana. Fez o mestrado em filosofia na Universidade de Bolonha com a tese “O Rosminianismo na Ordem dos Barnabitas”. Entre suas atividades, destaca-se que de 2003 a 2009 foi missionário na Ásia.

Eis o artigo.

Podemos considerá-los como os postulados do pensamento do Papa Francisco, desde o momento em que, além de serem recorrentes em seu ensinamento, são apresentados por ele como critérios gerais de interpretação e avaliação.

São eles:

– o tempo é superior ao espaço;

– a unidade prevalece sobre o conflito;

– a realidade é mais importante que a ideia;

– o todo é superior à parte.

Na Evangelii Gaudium, n. 221, Francisco chama-os de “princípios”. Pessoalmente, considero, pelo contrário, que eles podem ser considerados “postulados”, termo que no vocabulário Zingarelli da língua italiana designa uma “proposição que não pode ser provada e que não é demonstrada, mas admitida igualmente como verdadeira enquanto necessária para fundamentar um procedimento ou uma demonstração”.

Sempre na Evangelii Gaudium n. 221, o Papa afirma que os quatro princípios “brotam dos grandes postulados da Doutrina Social da Igreja”.

Mas, no Compêndio da Doutrina Social da Igreja, os que são assinalados como “princípios permanentes” e “verdadeiros e próprios gonzos do ensinamento social católico” são antes a “dignidade da pessoa humana”, o “bem comum”, a “subsidiariedade” e a “solidariedade”, aos quais estão vinculados o destino universal dos bens e a participação, além dos “valores fundamentais da vida social” como a verdade, a liberdade, a justiça e o amor.

Pois bem, é difícil captar a derivação dos quatro postulados da Evangelii Gaudium dos chamados “princípios permanentes” da Doutrina Social da Igreja. Ou, pelo menos, tal derivação não é tão clara: é necessário trazê-la à luz e não considerá-la como certa.

O fato é que eles sempre foram os princípios primeiros do pensamento do Papa Francisco. O jesuíta argentino Juan Carlos Scannone nos informa que “quando Jorge Mario Bergoglio era provincial, em 1974, já os usava. Eu fazia parte da congregação provincial com ele e o escutei mencioná-los para iluminar diversas situações que eram tratadas neste foro”.

É preciso ter presente que, em 1974, Bergoglio tinha 38 anos, era jesuíta há 16 anos (1958), se havia graduado em Filosofia uma década atrás (1963), era sacerdote há cinco anos (1969), era provincial há um ano (1973-1979) e ainda não tinha estado na Alemanha (1986) para completar seus estudos. Parece então que esses quatro postulados são o resultado das reflexões pessoais do então jovem Bergoglio.

Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium Francisco volta a propô-los, “com a convicção de que sua aplicação pode ser um genuíno caminho para a paz dentro de cada nação e no mundo inteiro” (n. 221).

Primeiro postulado: “o tempo é superior ao espaço”

Entre os quatro postulados, este parece ser o mais apreciado pelo Papa Francisco. Encontramo-lo enunciado pela primeira vez na encíclica Lumen Fidei (n. 57). Voltamos a encontrá-lo, junto com os outros três princípios, na Evangelii Gaudium (nn. 222-225). Posteriormente, é retomado na Encíclica Laudato Si’ (n. 178). Por último, é citado, duas vezes, na Exortação Apostólica Amoris Laetitia (nn. 3 e 261).

Mas é o menos imediatamente compreensível em sua formulação. Torna-se claro apenas quando é explicado. A Evangelii Gaudium o esclarece da seguinte maneira:

“Este princípio permite trabalhar a longo prazo, sem a obsessão pelos resultados imediatos. Ajuda a suportar, com paciência, situações difíceis e hostis ou as mudanças de planos que o dinamismo da realidade impõe. É um convite a assumir a tensão entre plenitude e limite, dando prioridade ao tempo. Um dos pecados que, às vezes, se nota na atividade sociopolítica é privilegiar os espaços de poder em vez dos tempos dos processos. Dar prioridade ao espaço leva-nos a proceder como loucos para resolver tudo no momento presente, para tentar tomar posse de todos os espaços de poder e autoafirmação. É cristalizar os processos e pretender pará-los. Dar prioridade ao tempo é ocupar-se mais com iniciar processos do que possuir espaços. O tempo ordena os espaços, ilumina-os e transforma-os em elos de uma cadeia em constante crescimento, sem marcha atrás. Trata-se de privilegiar as ações que geram novos dinamismos na sociedade e comprometem outras pessoas e grupos que os desenvolverão até frutificarem em acontecimentos históricos importantes. Sem ansiedade, mas com convicções claras e tenazes.”

É mais concisa a exposição da Amoris Laetitia: “Trata-se mais de gerar processos que de dominar espaços” (n. 261). Mas nesta última exortação apostólica é feita uma surpreendente aplicação do princípio em questão:

“Recordando que o tempo é superior ao espaço, quero reiterar que nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais. Naturalmente, na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspectos da doutrina ou algumas consequências que decorrem dela. Assim há de acontecer até que o Espírito nos conduza à verdade completa (cf. Jo 16, 13), isto é, quando nos introduzir perfeitamente no mistério de Cristo e pudermos ver tudo com o seu olhar. Além disso, em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais” (n. 3).

Devemos reconhecer sinceramente que a derivação dessa conclusão a partir do princípio examinado não é tão imediata e evidente como o texto parece supor. Parece dar a entender que a essência do primeiro postulado está no fato de que não se deve pretender uniformizar tudo e todos, mas deixar que cada um recorra ao seu próprio caminho para um “horizonte” (nn. 222 e 225) que permanece mais indefinido.

Na entrevista publicada pelo Pe. Antonio Spadaro na revista La Civiltà Cattolica, em 19 de setembro de 2013, Francisco expõe o princípio em uma perspectiva mais teológica:

“Deus se manifesta numa revelação histórica, no tempo. O tempo inicia os processos, o espaço cristaliza-os. Deus encontra-se no tempo, nos processos em curso. Não é preciso privilegiar os espaços de poder em relação aos tempos, mesmo longos, dos processos. Devemos encaminhar processos, mais que ocupar espaços. Deus se manifesta no tempo e está presente nos processos da história. Isto faz privilegiar as ações que geram dinâmicas novas. E exige paciência e espera” (p. 468).

Na revista PATH, da Pontifícia Academia Teológica (n. 2/2014, pp. 403-412), o Pe. Giulio Maspero indica que as origens do postulado encontram-se em Santo Inácio [de Loyola] e em João XXIII – citados por Francisco na entrevista concedida ao Pe. Spadaro – e no beato Pedro Fabro, citado na Evangelii Gaudium, n. 171, ao passo que exclui como fonte Romano Guardini, também citado na EG, n. 224. No princípio reconhece “uma profunda raiz trinitária”, ao passo que sua chave hermenêutica, de natureza puramente teológica, encontra-se na afirmação da presença e da manifestação de Deus na história. Francamente, cansa um pouco acompanhar o raciocínio do Pe. Maspero quando faz um comentário apaixonado do princípio da superioridade do tempo sobre o espaço.

Pessoalmente, em vez das raízes teológicas – que devem ser provadas – não pude deixar de perceber no fundamento do primeiro postulado alguns filões da filosofia idealista, como o historicismo, a primazia do devir sobre o ser, o surgimento do ser a partir da ação (“esse sequitur operari”), etc. Mas é um discurso que deveria ser aprofundado pelos especialistas no âmbito científico.

Segundo postulado: “A unidade prevalece sobre o conflito”

Também este princípio foi enunciado pela primeira vez na encíclica Lumen Fidei (n. 55). Seu tratamento mais extenso encontra-se na Evangelii Gaudium (nn. 226-230). Encontramo-lo, por último, na Encíclica Laudato Si’ (n. 198). A EG parte de uma constatação:

“O conflito não pode ser ignorado ou dissimulado; deve ser aceito. Mas, se ficamos encurralados nele, perdemos a perspectiva, os horizontes reduzem-se e a própria realidade fica fragmentada. Quando paramos na conjuntura conflitual, perdemos o sentido da unidade profunda da realidade” (n. 226).

E descreve três atitudes: “Perante o conflito, alguns se limitam a olhá-lo e passam adiante como se nada fosse, lavam-se as mãos para poder continuar com a sua vida. Outros entram de tal maneira no conflito que ficam prisioneiros, perdem o horizonte, projetam nas instituições as suas próprias confusões e insatisfações e, assim, a unidade torna-se impossível. Mas há uma terceira forma, a mais adequada, de enfrentar o conflito: é aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo” (n. 227).

A terceira atitude baseia-se no princípio: “a unidade é superior ao conflito, que é qualificado precisamente como “indispensável para construir a amizade social” (n. 228). Este princípio inspira o conceito de “diversidade reconciliada” (n. 230), recorrente no ensinamento do Papa Francisco, sobretudo no campo ecumênico.

O grande problema deste postulado é que supõe uma visão dialética da realidade, muito similar àquela de Hegel:

“A solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo e desafiador, torna-se assim um estilo de construção da história, um âmbito vital onde os conflitos, as tensões e os opostos podem alcançar uma unidade multifacetada que gera nova vida. Não é apostar no sincretismo ou na absorção de um no outro, mas na resolução num plano superior que conserva em si as preciosas potencialidades das polaridades em contraste” (n. 228).

Esta “resolução em um plano superior” lembra muito a “Aufhebung” hegeliana. Não parece casual, então, que depois, no n. 230, se fale de uma “síntese”, que evidentemente supõe uma “tese” e uma “antítese”, os pólos em conflito entre si. Também neste caso seria preciso aprofundar o discurso.

Terceiro postulado: “A realidade é mais importante que a ideia”

Este está exposto na Evangelii Gaudium (nn. 231-233) e é retomado posteriormente na Laudato Si’ (n. 201):

“Existe também uma tensão bipolar entre a ideia e a realidade: a realidade simplesmente é, a ideia elabora-se. Entre as duas, deve estabelecer-se um diálogo constante, evitando que a ideia acabe por separar-se da realidade. É perigoso viver no reino só da palavra, da imagem, do sofisma. Por isso, há que postular um terceiro princípio: a realidade é superior à ideia. Isto supõe evitar várias formas de ocultar a realidade: os purismos angélicos, os totalitarismos do relativo, os nominalismos declaracionistas, os projetos mais formais que reais, os fundamentalismos anti-históricos, os éticos sem bondade, os intelectualismos sem sabedoria” (EG 231).

Poderia parecer que este postulado é o mais facilmente compreensível e aceitável, o mais próximo da filosofia tradicional. O aprofundamento que a Evangelii Gaudium faz é muito atraente e, à primeira vista, absolutamente compartilhável:

“A ideia – as elaborações conceituais – está ao serviço da captação, compreensão e condução da realidade. A ideia desligada da realidade dá origem a idealismos e nominalismos ineficazes que, no máximo, classificam ou definem, mas não empenham. O que empenha é a realidade iluminada pelo raciocínio. É preciso passar do nominalismo formal à objetividade harmoniosa. Caso contrário, manipula-se a verdade, do mesmo modo que se substitui a ginástica pela cosmética” [Platão, Górgias, 465] (n. 232).

Na revista da Pontifícia Academia Teológica, acima citada, o Pe. Giovanni Cavalcoli se deixa levar a um entusiasmado comentário sobre este princípio, assimilando-o, sem ulteriores esclarecimentos, ao tradicional realismo epistemológico aristotélico-tomista.

Mas, na minha opinião, não leva em conta dois aspectos importantes:

– o contexto no qual o princípio é exposto, que é um contexto sociológico com repercussões de caráter pastoral. A Evangelii Gaudium não é um ensaio de filosofia do conhecimento: mesmo que se trate de um princípio filosófico, o terceiro postulado é utilizado em função do desenvolvimento da convivência social e da construção de um povo (n. 221);

– e a linguagem utilizada, que não é uma linguagem técnica. Quando no documento se fala de “idealismos e nominalismos ineficazes” não está se referindo às correntes históricas do idealismo e do nominalismo, já que é muito certo que se usa o plural. Acima de tudo, os termos “ideia” e “realidade” são entendidos em um sentido diferente daquele em que poderia entendê-los a epistemologia tradicional. A “realidade” de que se fala na Evangelli Gaudium não é a realidade metafísica, sinônimo de “ser”, mas uma realidade puramente fenomênica. A “ideia” não é a simples representação mental do objeto, mas é – como assinala o próprio texto – sinônimo de “elaborações conceituais” (n. 232) e, em consequência, de “ideologia”. Por outro lado, o uso de expressões existenciais como, por exemplo, o verbo “convocar”, deveria ter dado a entender imediatamente que não se trata da linguagem escolástica tradicional.

Estas observações têm consequências importantes. O postulado “a realidade é mais importante que a ideia” não tem nada a ver com a “adaequatio intellectus ad rem” [adequação do intelecto à coisa]. Em vez disso, isso significa que devemos aceitar a realidade assim como ela é, sem pretender mudá-la com base em princípios absolutos, por exemplo, os princípios morais, que são somente “ideias” abstratas, que na maioria das vezes correm o risco de serem transformados em ideologias. Este postulado está na base de contínuas polêmicas de Francisco com a doutrina. Neste sentido, é significativo o que o Papa Francisco afirmou na entrevista à La Civiltà Cattolica:

“Se o cristão é restauracionista, legalista, se quer tudo claro e seguro, então não encontra nada. A tradição e a memória do passado devem ajudar-nos a ter a coragem de abrir novos espaços para Deus. Quem hoje procura sempre soluções disciplinares, quem tende de modo exagerado à 'segurança' doutrinária, quem procura obstinadamente recuperar o passado perdido, tem uma visão estática e involutiva. E deste modo a fé torna-se uma ideologia entre tantas” (pp. 469-470).

Quarto postulado: “O todo é superior à parte”

Encontramos este princípio exposto amplamente na Evangelii Gaudium (nn. 234-237) e retomado depois sinteticamente na Laudato Si’ (n. 141):

“O todo é mais do que a parte, sendo também mais do que a simples soma delas. Portanto, não se deve viver demasiado obcecado por questões limitadas e particulares. É preciso alargar sempre o olhar para reconhecer um bem maior que trará benefícios a todos nós. Mas há que o fazer sem se evadir nem se desenraizar. É necessário mergulhar as raízes na terra fértil e na história do próprio lugar, que é um dom de Deus. Trabalha-se no pequeno, no que está próximo, mas com uma perspectiva mais ampla. Da mesma forma, uma pessoa que conserva a sua peculiaridade pessoal e não esconde a sua identidade, quando se integra cordialmente numa comunidade não se aniquila, mas recebe sempre novos estímulos para o seu próprio desenvolvimento. Não é a esfera global que aniquila, nem a parte isolada que esteriliza” (EG 235).

Aqui se aprecia a tentativa de unir os dois pólos que estão mutuamente em tensão – o todo e a parte – e que na EG são identificados como a “globalização” e a “localização” (n. 234). A valorização da parte, que não deve desaparecer no todo, é representada pela figura geométrica, querida pelo Papa Francisco, do poliedro, em contraposição à esfera (n. 236).

O problema é que o princípio, do modo como está formulado, não expressa esse equilíbrio entre o todo e as partes. Fala abertamente da superioridade do todo sobre as partes. Isto está em contradição com a Doutrina Social da Igreja, que declara efetivamente que a pessoa é um ser constitutivamente social, mas reafirmando ao mesmo tempo seu primado e sua irredutibilidade no organismo social (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nn. 125 e 149; Catecismo da Igreja Católica, nn. 1878-1885). Existe o risco de que, ao limitar-se a repetir o quarto postulado sem precisões posteriores, este possa ser entendido em sentido marxista e justificar assim a anulação do indivíduo na sociedade.

Deve-se ter presente que também do ponto de vista hermenêutico a relação entre o todo e as partes não é descrita em termos de superioridade, mas de circularidade, o chamado “círculo hermenêutico”: o todo é interpretado à luz das partes; as partes à luz do todo.

Conclusões

O fato de que existem polaridades na realidade em que vivemos dificilmente pode ser negado. O que conta é a atitude que assumimos diante das tensões que experimentamos cotidianamente em nossa vida. A partir da consideração dos quatro postulados, em seu conjunto, parece que podemos concluir que a atitude mais adequada é, de fato, a de unir os pólos que se opõem, mas com a presunção de que um dos dois pólos é superior ao outro: o tempo é superior ao espaço; a unidade prevalece sobre o conflito; a realidade é mais importante que a ideia; o todo é superior à parte.

Pessoalmente, sempre considerei que as tensões devem ser preferencialmente “administradas”; que é utópico pensar que elas podem ser, enquanto estamos nesta terra, definitivamente superadas; que, por outro lado, é um erro tomar partido por um dos pólos contra o outro, como se o bem estivesse somente de um lado e do outro só tivesse mal (uma visão maniqueísta da realidade sempre rejeitada pela Igreja). O cristão não é o homem do “aut aut” [ou...ou], mas do “et et [e... e]. Neste mundo há – deve haver – espaço para tudo: para o tempo e para o espaço, para a unidade e para a diversidade, para a realidade e para as ideias, para o todo e para as partes. Não se exclui nada. Caso contrário, sofre o desequilíbrio da realidade, que pode levar a conflitos devastadores.

Outra observação que poderia ser feita ao término desta reflexão é que a exposição destes quatro postulados demonstra que, na ação humana, é inevitável deixar-se conduzir por alguns princípios, que por sua natureza são abstratos. Portanto, é inútil polemizar sobre a natureza abstrata da “doutrina”, opondo-lhe uma “realidade” à qual deveria simplesmente se adequar. Se não é iluminada, guiada, ordenada por alguns princípios, a realidade corre o risco de desembocar no caos.

O problema é: quais princípios? Sinceramente, não está claro porque os quatro postulados de que estamos nos ocupando podem orientar legitimamente o desenvolvimento da convivência social e da construção de um povo, enquanto a mesmíssima legitimidade não pode ser reconhecida em outros princípios, nos quais se reprova continuamente sua natureza abstrata e seu caráter pelo menos potencialmente ideológico.

Não se pode negar que a doutrina cristã corre o risco de transformar-se em ideologia. Mas o mesmo risco decorre de qualquer outro princípio, inclusive os quatro postulados da Evangelii Gaudium; com a diferença de que estes são o resultado de uma reflexão humana, ao passo que a doutrina católica baseia-se em uma revelação divina.

Que não aconteça conosco o que aconteceu com Marx, que, enquanto acusava de ideologia os pensadores que o precederam, não se deu conta de que estava elaborando uma das ideologias mais desastrosas da história.

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