Berta Cáceres, mártir da ecologia integral

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Por: Jonas | 13 Abril 2016

“A morte de Berta (na foto, à esquerda do Papa), assim como a de outros muitos assassinados por seu compromisso na defesa das terras e dos fracos, na maioria das vezes, são homicídios ‘sem culpados’. São mortos que confirmam violentamente a ideia principal da Encíclica Laudato Si’. A morte de Cáceres é o eco próximo do forte grito que, três semanas antes, Francisco havia lançado desde San Cristóbal de Las Casas, no México, em defesa das populações indígenas e que chegava como um eco repetido a todos os rincões da terra”, escreve o jesuíta José Luis Pinilla Martín, em artigo publicado por Entre Paréntesis, 07-04-2016. A tradução é do Cepat.

  Fonte: http://goo.gl/l7tePY  

Eis o artigo.

Berta era... uma defensora dos direitos humanos.

Berta era... uma líder indígena do povo Lenca, um grupo étnico mesoamericano com idioma próprio, situado em territórios de Honduras e El Salvador, desde antes da chegada de Colombo.

Berta era... no dia 28 de outubro de 2014, uma das principais participantes do Encontro Mundial dos Movimentos Populares, no Vaticano, quando o Papa Francisco pronunciou o célebre discurso das “três ‘T’”: Terra, Teto e Trabalho.

Berta... era uma das fundadoras – em 1993 – do Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (COPINH), uma organização social, política, de caráter altruísta com marcado acento indigenista, amplo, solidário e unitário, da região sul-ocidental de Honduras...

Berta era...

Porque Berta Cáceres foi assassinada brutalmente antes de completar os 44 anos, em sua casa, em La Esperanza, na madrugada do dia 3 de março de 2016, por um grupo de jagunços comprados que entrou em sua moradia no meio da noite, enquanto dormia. Nada protegeu Cáceres. Nem seu “alto perfil” internacional, nem as medidas cautelares da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), nem o esperável impacto midiático sobre a imagem do país que sua morte poderia causar... Nada.

“As autoridades do estado não ofereceram nenhuma proteção a Berta, como havia pedido a Comissão Interamericana para os Direitos Humanos, não investigaram sobre as ameaças, nem sobre os assédios contra ela por parte da polícia, dos militares e dos paramilitares. Agudizaram sua vulnerabilidade criminalizando-a mediante procedimentos ilegais, sem respeitar o direito do povo lenca de ser consultado sobre qualquer projeto realizado em seus territórios”, declararam os jesuítas, pela Rádio Progresso.

Um ano antes, havia recebido o Prêmio Ambiental Goldman, considerado o “Nobel Verde”, o máximo reconhecimento mundial para ativistas do meio ambiente. Uma de suas lutas mais destacadas foi contra a invasão do Rio Branco pela construção da represa de Água Zarca. Organizando o povo lenca em sua luta contra a construção que estava prevista para o noroeste do país, no Rio Gualcarque. A luta empreendida por Cáceres fez com que a companhia de propriedade estatal chinesa Sinohydro, a maior construtora de represas em nível mundial, retirasse sua participação no projeto hidrelétrico.

Esse rio sagrado para as comunidades indígenas e vital para sua sobrevivência, com o qual Berta conversava: “Quando iniciamos a luta contra Água Zarca, eu sabia que seria duro, mas sabia que íamos triunfar; disse-me o rio”. Assim narrava sua experiência vital, quando entrava em suas águas para se encharcar do espírito de luta.

Essa luta que a identificou como lutadora paradigmática do que o Papa Francisco chamou de ecologia integral:

“Hoje, constatamos que esta terra maltratada e saqueada clama”, lemos no número 2 da “Laudato Sí”. “E seus gemidos se unem ao de todos os abandonados do mundo, os descartados pela sociedade”.

Recordem agora, amigos leitores, de Norma Romero, de “Las Patronas” ou de Alicia Peressutti de Vínculos em Rede. E unam Berta Cáceres a estas duas mulheres exemplares.

Culmino, assim, a homenagem a três mulheres capazes de articular, trabalhar e lutar em seus projetos, a partir da sociedade civil, frente à mastodôntica e cruel maquinaria do Estado, quando a este não se controla democraticamente. A partir das organizações cidadãs e populares. Esta mulher hondurenha que cresceu influenciada pelas histórias dos horrores da guerra interna em El Salvador, país vizinho, e que viveu acompanhando sua mãe nas visitas aos campos de refugiados para milhares de salvadorenhos que transitaram e se assentaram na região, nos anos 1980. Dona Berta, a mãe, era uma deputada que lutava contra o serviço militar obrigatório. E também parteira. Lutadora pela vida, a de sua terra e a de seus irmãos empobrecidos.

Dela nasceu Berta Cáceres, enésimo exemplo de um dos martírios menos visíveis no mundo de hoje: o dos ativistas que, principalmente dentro das comunidades indígenas, lutam pelos valores que Francisco afirmou na encíclica “Laudato Si’”. A da Ecologia Integral, que vincula indissoluvelmente a defesa do meio ambiente e a justiça social; entre o cuidado amoroso e justo da criação e o cuidado amoroso e justo do irmão. Novo paradigma de justiça. E que agora ganha uma nova vida.

A morte de Berta, assim como a de outros muitos assassinados por seu compromisso na defesa das terras e dos fracos, na maioria das vezes, são homicídios “sem culpados”. São mortos que confirmam violentamente a ideia principal da Encíclica. A morte de Cáceres é o eco próximo do forte grito que, três semanas antes, Francisco havia lançado desde San Cristóbal de Las Casas, no México, em defesa das populações indígenas e que chegava como um eco repetido a todos os rincões da terra. Também, talvez, foi ouvido em Intibucá, pelos poderosos que nunca perdoaram seu crime, que não era outro a não ser o da defesa do meio ambiente, dos direitos humanos e da Casa Comum da humanidade, conforme denunciou o Movimento Católico Mundial pelo Clima e a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM).

Dizem que esse grito é repetido pelos ecos das montanhas e a terra nutrícia depredada. E que continua a ser ouvido de forma imparável: “Muitas vezes, de modo sistemático e estrutural, seus povos foram incompreendidos e excluídos da sociedade. Alguns consideraram inferiores seus valores, suas culturas e suas tradições. Outros, mareados pelo poder, o dinheiro e as leis do mercado, os despojaram de suas terras ou realizaram ações que as contaminavam. Que tristeza! Que bem faria a todos nós fazer um exame de consciência e aprender a dizer: Perdão! Perdão, irmãos! O mundo de hoje, despojado pela cultura do descarte, necessita de vocês”.

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