''Meu irmão, o papa''. Entrevista com Georg Ratzinger

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04 Abril 2012

Um papa que sabe lavar a louça. Que no momento da sesta escreve cartas. Que escolheu seu nome de pontífice – Bento XVI – pelo significado espiritual, mas, atendo como é aos estetismos musicais, também por causa do som. Que às terças-feiras, um dia antes das audiências gerais, se exercita com o gravador para pronunciar bem as palavras nas línguas com as quais saúda os peregrinos. Que à noite se apaixona assistindo na TV aos filmes que falam do Vaticano. Que se desgosta com os ataques recebidos, mas que olha além.

A reportagem é de Marco Ansaldo, publicada no jornal La Repubblica, 03-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Esse é o perfil inédito de Joseph Ratzinger que o irmão mais velho, Georg, também sacerdote, apresenta, enquanto na Itália, é publicado o seu livro, escrito com o historiador do cristianismo Michael Hesemann, Mio fratello il Papa [Meu irmão, o papa] (Ed. Piemme). Uma mina de anedotas sobre a vida de Bento XVI. E uma fonte importante para conhecer como criança, como jovem e, finalmente, como homem o então cardeal alemão depois eleito à cúpula da Igreja Católica.

Georg Ratzinger, que tem 88 anos, leva hoje uma vida retirada em sua casa de Regensburg, mas muitas vezes vai a Roma, como fará nos próximos dias para festejar o 85 º aniversário de Joseph Ratzinger, no dia 16 de abril. "Estou muito feliz por revê-lo", diz. "Depois, no Vaticano, no dia 19, há um grande concerto em sua honra, e assistiremos juntos".

Eis a entrevista.

Monsenhor Georg Ratzinger, no livro, o senhor revela que ficou triste depois que seu irmão foi eleito papa. Por quê?


Depois do Habemus Papam, quando ouvi a palavra "Ratzinger", eu fiquei petrificado. Com toda a sinceridade, naquele momento eu me senti desencorajado.

Mas por quê?

Eu estava preocupado. Pensava que, para o meu irmão, tratava-se de um grande desafio. E naquele momento eu não via nem as honras, nem os aspectos positivos, mas somente todo o peso que esse cargo significaria para Joseph.

E o que ele lhe disse depois do conclave?

Ele me contou que a sua eleição havia sido como um raio em céu aberto. Tudo tinha acontecido tão depressa na votação que era evidente a ação do Espírito Santo.

Ele lhe revelou o motivo pelo qual escolheu o nome Bento, nome do santo de Norcia e fundador do monaquismo ocidental, mas também do papa intelectual Bento XIV e do papa da paz, Bento XV?

Uma vez, conversamos a respeito. E ele me explicou que lhe parecia ser um belo nome. Era um discurso geral, que não se referia a uma pessoa específica: ele gostava tanto do som quanto do significado, abençoado por Deus e bênção para os outros. Mas também lhe parecia apropriado para um pontífice. Naturalmente, ele é muito afeiçoado pelo santo, e sabe que os outros dois personagens são de grande estatura. Mas optou por se chamar assim também por motivos estéticos e etimológicos.

Como o senhor se lembra dele como criança?

Ele era um ótimo estudante. Uma vez, a nossa mãe me disse que ele estava entre os três primeiros do liceu, e isso só porque ele não tinha notas excelentes em ginástica e desenho. Mas nas matérias científicas ele era sempre o melhor.

Que paixões ele tinha quando pequeno?

Ele gostava dos ursos de pelúcia. Em 1928, em Marktl am Inn, a nossa cidade, ele se apaixonou de um urso de pelúcia que estava na vitrine. Depois ele o ganharia de presente no Natal. Ele realmente era afeiçoado por aqueles brinquedos. O urso de São Corbiniano usado no seu brasão se tornou o símbolo do seu caminho.

Vocês nunca brigavam?

Sempre apenas por coisas de pequena conta. Em geral, éramos um só coração e uma só alma.

E qual era o seu prato favorito?

Ele gostava dos doces que mamãe fazia, como os Kaiserschmarren [massa doce frita].

Mais adiante, como arcebispo de Munique, e depois em Roma como prefeito do Santo Ofício, o senhor voltou a encontrá-lo?

Ele vinha para Regensburg três ou quatro vezes por ano. Comíamos em sua casa. Por sorte, as religiosas colocavam algo na geladeira, porque nenhum de nós é um grande cozinheiro. No fim, ele lavava a louça e eu enxugava. Depois, fazíamos um passeio e falávamos de Deus, do mundo, dos fatos do dia.

E, como papa, Joseph mudou?

É o mesmo de antes. Ele só quer ser ele mesmo e não desejar usar uma máscara. É gentil e modesto como sempre foi.

Ele se incomoda com os ataques que ele também recebe da mídia?

Em si mesmo, ele é muito sensível. Mas ele sabe quais são as motivações desses ataques. Por isso, ele não se importa muito. Ele vai além.

Como o seu irmão, o papa, encara o dia a dia?

Depois da missa das 7h e do café da manhã às 8h, ele se prepara para os compromissos do dia. Na terça-feira, ele organiza a audiência geral da quarta-feira. Por exemplo, aprende a pronúncia das palavras nas línguas estrangeiras em que ele saúda. Ele ouve uma fita para ouvir os sons corretos e se exercita. Depois do almoço, ele descansa, mas, em vez de dormir, ele escreveu cartas e bilhetes, e lê tudo o que pode. À tarde, ele dá uma caminhada recitando o rosário junto com o seu secretário pessoal, monsenhor Georg Gänswein.

E à noite?


Ele janta às 19h30 e, às 20, assiste aos noticiários. Depois, um breve passeio pelo jardim. Meu irmão raramente assiste à TV, no máximo um filme que fale do Vaticano.

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