O tio-avô do papa: origem do "sacerdócio ratzingeriano"

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27 Junho 2011

Na próxima quarta-feira, celebra-se a festa dos santos Pedro e Paulo, quando os arcebispos nomeados durante o ano passado estarão em Roma para receber o seu pálio (uma estreita faixa de lã, o pálio simboliza o ofício do arcebispo). Neste ano, o evento tem um significado extra, devido ao 60º aniversário da ordenação sacerdotal do Papa Bento XVI, que ocorreu na catedral de Freising, na Baviera no dia 29 de junho de 1951.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 24-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas o papa não será o único padre bávaro a celebrar o seu 60º aniversário. Seu irmão Georg, 87 anos, foi ordenado na mesma cerimônia pelo então cardeal Michael Faulhaber, juntamente com um colega de seminário chamado Rupert Berger. Os irmãos celebraram suas primeiras missas públicas no dia 8 de julho de 1951, na igreja de São Osvaldo, em sua cidade natal de Hufschlag – um evento conhecido como um Doppelprimiz, ou "duplo primeiro". Como a concelebração ainda não era uma prática normal, os irmãos Ratzinger celebraram duas missas separadas.

O versículo da Escritura que o futuro papa escolheu para a sua lembrança de primeira missa vinha da segunda carta de Paulo aos Coríntios: "Não é nossa intenção dominar a fé que tendes, mas colaborar para que tenhais alegria".

Na verdade, a próxima semana não vai ser nada como 1996, quando João Paulo II celebrou o 50º aniversário da sua ordenação sacerdotal. Esse marco trouxe o livro Dom e Mistério e foi sinalizado por uma série de eventos ao longo do ano que funcionaram como um aquecimento para o Grande Jubileu do ano 2000. O aniversário de Bento XVI será mais discreto, embora com o seu toque festivo.

Uma empresa chamada Excelsis, por exemplo, está lançando uma nova marca de perfumes intitulada Benedictus, feitos a partir de flores de tília da Alemanha, do incenso da Terra Santa e de bergamotas da Itália (seria um divertido exercício passear pelas várias recepções de pálio tentando detectar quem está usando o perfume papal).

Em honra ao aniversário de Bento XVI, aqui está um petisco frequentemente ignorado da biografia do papa: ele, na verdade, não é o primeiro padre celebrado do clã Ratzinger. Essa honra pertence, ao contrário, ao seu tio-avô Georg, uma figura de destaque na história bávara do século XIX (ele não deve ser confundido com o irmão do papa).

À luz da carreira de Bento XVI, há quatro aspectos do legado do seu tio-avô que são especialmente interessantes:

  • Ele era uma raridade no século XIX, pois ele foi um padre que se laicizou voluntariamente – não por motivo de escândalo, mas porque queria seguir uma carreira na política.
  • Era discípulo do teólogo progressista alemão Johann Ignaz von Döllinger, excomungado em 1871 por sua oposição à infalibilidade papal.
  • Foi cofundador de uma populista "Festa do Agricultor", defendendo os pobres contra os barões ladrões do século XIX.
  • Ele refletia as atitudes antissemitas do seu tempo, fornecendo um subtexto biográfico à abordagem de Bento XVI perante as relações católico-judaicas.

Origens progressistas

Em uma antologia de biografias bávaras de 1985, Georg Ratzinger fez a lista das 1.000 personalidades mais importantes da Baviera dos últimos 1.500 anos. Ordenado sacerdote em 1867, ele estudou teologia na Universidade de Munique, onde ganhou um prêmio por sua dissertação sobre o cuidado da Igreja pelos pobres.

Na universidade, Ratzinger tornou-se assistente de Döllinger, alcançando depois seu próprio sucesso como crítico feroz do movimento pelo absolutismo papal chamado "ultramontanismo". Em um discurso de 1867, Döllinger afirmou: "O papado se baseia em uma audaciosa falsificação da história. Sendo uma imitação desde o seu início, ele teve, durante os longos anos de sua existência, uma influência perniciosa sobre a Igreja e também sobre o Estado".

Foi Döllinger que exigiu a formação dos teólogos alemães em universidades estatais, em vez de seminários, e que pediu que os bispos alemães se reunissem regularmente como um antídoto à influência romana – trajetória, é claro, que o sobrinho-neto de Georg Ratzinger, mais tarde, veria com certa ambivalência.

Dom Ratzinger pediu, e recebeu, a laicização do sacerdócio em 1888, no meio do que havia se tornado uma carreira de grande sucesso como político e legislador.

Politicamente, Ratzinger foi um apóstolo da nova doutrina social católica, expressada na encíclica de Leão XIII Rerum Novarum, em 1891. Ele atuou no Landtag bávaro entre 1875 e 1878 e novamente entre 1893 a 1899, e no Reichstag nacional de 1877 a 1878 e de 1898 a 1899. Seu primeiro mandato foi como membro do Partido Patriota, um partido católico lançado em 1869, e seu segundo mandato como deputado de um novo Bauerbund, ou "Partido dos Agricultores", que ele ajudou a formar em 1893.

O Bauerbund de Ratzinger se levantou em defesa de uma mistura de medidas sociais protecionistas e progressistas populistas, tais como leis para o trabalho infantil e para o salário mínimo. Seu objetivo principal era um sistema de apoios sociais que isolariam os agricultores pobres e os pequenos comerciantes de ciclos de "altos e baixos". Ele também apoiou a nacionalização do sistema escolar e da abolição da Alta Câmara do Parlamento da Baviera, dominada pelos nobres e pela Igreja. Diversas vezes, Ratzinger se levantou nas tribunas dos poderes legislativos federais e da Baviera e trovejou contra os excessos do capitalismo.

Assim, quando Bento XVI denunciou tanto o marxismo quanto o capitalismo como "sistemas que marginalizam Deus", no Brasil, em maio de 2007, e deu atacou o capitalismo por não superar "a distância entre ricos e pobres" e "dar origem a uma degradação preocupante da dignidade pessoal", ele estava, até certo ponto, dando continuidade a um legado familiar.

O único comentário publicado do papa sobre seu tio-avô veio em uma entrevista de 1996 com o jornalista alemão Peter Seewald, que mais tarde se tornou o livro Sal da Terra:

Pergunta: Houve um Georg Ratzinger que desempenhou um certo papel na história bávara?

Ratzinger: Ele era um tio-avô meu, tio do meu pai. Ele era um sacerdote e tinha um doutorado em teologia. Como representante das assembleias estaduais e nacionais, ele era realmente um exemplo dos direitos dos agricultores e das pessoas simples em geral. Ele lutou – eu li isso nas atas do parlamento estadual – contra o trabalho infantil, que naquela época ainda era considerado uma posição escandalosa e impudente a ser tomada. Ele era, obviamente, um homem duro. Suas conquistas e sua posição política também fizeram com que todos se orgulhassem dele.

Finalmente, o populismo político de Georg Ratzinger às vezes se obscurecia em antissemitismo. Em sua obra de 1975 Christians and Jews in Germany [Cristãos e judeus na Alemanha], o falecido estudioso israelense Uriel Tal identificou Ratzinger como uma figura de destaque na formação do sentimento antijudeu nos círculos católicos da Alemanha do século XIX.

Em um livro muito conhecido sobre economia, Georg Ratzinger sugeriu que os valores tradicionais alemães da disciplina, modéstia, integridade familiar e fé cristã estavam minadas pelo poder financeiro dos judeus. Ele manifestou ideias semelhantes, de forma mais crua, em obras polêmicas escritas sob pseudônimos, como Jüdisches Erwerbsleben: Skizzen aus dem sozial Leben der Gegenwart (A vida judaica da aquisição: Esboços da vida social do presente), publicada em 1892 e novamente em 1893 e 1894, e Das Judentum in Bayern: Skizzen aus der Vergangenheit und Vorschläge fur die Zukunft (O judaísmo na Baviera: Esboços do passado e propostas para o futuro), publicada em 1897.

Embora o papa nunca tenha dito isto, é difícil imaginar que a memória do histórico do seu tio-avô sobre os judeus e o judaísmo não tenha influenciado seus próprios esforços de reconciliação.

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