O Papa Francisco é socialista?

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Por: André | 09 Dezembro 2013

O tópico econômico da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, publicada no dia 25 de novembro, causou controvérsias.

A reportagem é de Laurence Desjoyaux e publicada no sítio da revista francesa La Vie, 29-11-2013. A tradução é de André Langer.

“Desta vez, é certo: o Papa Francisco é socialista”, diz a manchete triunfalista do sítio francês de informação Rue 89, num artigo consagrado à Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, primeiro texto integralmente escrito por Francisco.

Em se acreditando no sítio, “depois da Exortação Apostólica publicada pelo Vaticano, podemos afirmar sem medo que o Papa Francisco é ferozmente antiliberal e até mesmo... socialista”. Precisando: “O Papa Francisco ainda não é marxista, mesmo que tenha declarado pouco tempo atrás que os homens eram escravos que terão que “se libertar das estruturas econômicas e sociais que nos reduzem à escravidão”.

Entre outras passagens da Exortação Apostólica adiantadas pelo Rue 89 encontra-se a seguinte: “Assim como o mandamento ‘não matar’ põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade social’. Esta economia mata”.

Não ao dinheiro que governa em vez de servir

A revista americana The Atlantic avança mais na análise, propondo uma analogia entre o pensamento do Papa Francisco e do economista húngaro Karl Polanyi, crítico da economia do mercado auto-regulado. “Karl Polanyi é conhecido por seu livro A Grande Transformação, e em particular por uma ideia explicada nesse livro, lembra Heather Horn: a distinção entre uma ‘economia que está incorporada nas relações sociais’ e ‘relações sociais que estão incorporadas no sistema econômico’”. É o que a jornalista resume numa frase: “A economia deve servir à sociedade e não o contrário”.

Para ela, é nesta linha que se inscreve o Papa Francisco. “O Papa Francisco, na sua exortação, notavelmente não pede uma completa revisão da economia – pondera ela. Ele não fala de revolução, e certamente não há nenhum discurso marxista sobre inexoráveis forças históricas. Ao contrário, Francisco denuncia, especificamente, o domínio absoluto do mercado sobre os seres humanos. Ele não denuncia a existência do mercado, mas a sua dominação”.

Denunciando a primazia do mercado, do consumo e do dinheiro sobre o ser humano, o Papa não tem efetivamente papas na língua: “Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. [...] O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. [...] Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura duma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano. A crise mundial, que investe as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência duma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo. [...] Não ao dinheiro que governa em vez de servir”. Dito com outras palavras: a crise financeira se dá não somente por uma falta de regulação – dizer isso não é propriamente uma novidade –, mas também e, sobretudo, por ter subtraído o homem do centro da atividade econômica.

No que diz respeito às soluções para remediar esta crise, The Atlantic persegue o paralelo entre Francisco e Karl Polanyi: “Polanyi apostava num socialismo democrático, desde que os governos trabalhassem juntos internacionalmente”, explica Heather Horn. “E você sabe o quê? Isso se aproxima muito daquilo que o papa também propõe. Ele não acha que isso possa ser resolvido com a caridade pessoal”.

Para fundamentar suas ideias, ela cita a Exortação Apostólica: “Temos de nos convencer que a caridade é o princípio não só das microrrelações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macrorrelações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos. (Francisco cita aqui a Encíclica Caritas in Veritate, de Bento XVI, ndlr) [...] Se realmente queremos alcançar uma economia global saudável, precisamos, neste momento da história, de um modo mais eficiente de interação que, sem prejuízo da soberania das nações, assegure o bem-estar econômico a todos os países e não apenas a alguns”.

O Papa entende de economia?

Mas, o que pensam os defensores do liberalismo sobre esta visão de um Francisco “social-polanyiano”? “Eu fico poli dizendo que a comparação não é das mais inteligentes, tanto mais que ela subentende que aqueles que tomam o partido dos pobres são, de fato, socialistas. Eu diria, por outro lado, que muitos cometem um erro acreditando que essas declarações supõem uma suposta revolução dentro da Igreja”, assegura o economista liberal Philippe Chalmin ao reagir, pelo sítio Atlantico, ao artigo do Rue 89. Para ele, as palavras do Papa são um clássico do gênero, sem grande envergadura: “Diria que fazem parte de uma postura, no final das contas, muito tradicional da Igreja contra as finanças, mas que não é, na minha opinião, a mais esclarecida se olharmos a Doutrina Social da Igreja. Nós estamos aqui exatamente no domínio da exortação, cujas consequências práticas permanecerão relativamente limitadas”, explica. E mais adiante diz: “Alguns dirão que eu sou um liberal horroroso, mas penso, sem tirar do Papa o direito de fazer tais declarações, que estas críticas necessitarão de um conhecimento bem mais aprofundado sobre um fenômeno complexo”.

O Papa é competente em economia? Esta é a pergunta que fazem no outro lado do Atlântico outros economistas liberais que se aplicam a desmontar ponto por ponto a crítica da economia de mercado. Para o mais virulento deles, Tim Worstall, colaborador da revista econômica americana Forbes, que se descreve, por outro lado, como “um bom cavalheiro católico bem educado pelos beneditinos”, o Papa “não compreendeu o mundo no qual vivemos”. “As desigualdades diminuem à medida que as pessoas encontram sociedades fundadas sobre a economia de mercado, a pobreza diminuiu nos últimos 30 anos no ritmo mais rápido que a espécie humana já conheceu. Tudo isto aconteceu porque bilhões de pessoas foram libertadas das exigências das versões mais bizarras do coletivismo e foram capazes de encontrar a melhor máquina para produzir riqueza jamais criada, um certo grau de livre mercado”.

Neste mesmo sentido, descontada a condescendência, Samuel Gregg, da National Review americana, estima que os predicados sobre os quais o Papa funda sua crítica não são justificados. Para ele, não há nenhum país do mundo no qual o mercado seja absolutamente autônomo, e as regras e sistemas de regulação aplicados à economia já são numerosos.

Ouvir a mensagem

Este pleito em incompetência é verdadeiro? Michael Sin Winters, do National Catholic Reporter lembra: “O Papa Francisco não é um economista, mas um pastor. (...) Ele enfatiza o perigo para a fé do libertarianismo e do neoliberalismo de mercado. Esses sistemas econômicos não apenas fracassaram na sua tentativa de realizar o bem comum, mas também tornaram as pessoas escravas e impediram sua plena realização exatamente porque não deixam lugar para Deus”.

Heidi Moore, do jornal The Guardian, de esquerda, estima que “o Papa Francisco compreende melhor a economia do que a maioria dos políticos”, e que “está na vanguarda do movimento Occupy Wal-Street [movimento de contestação pacífica americano que denunciou as derivas do capitalismo financeiro, ndlr]. “O ponto crucial, que o Papa Francisco perfeitamente identificou é que as desigualdades sociais são o maior desafio econômico do nosso tempo, não apenas para os pobres, mas para todo o mundo (...). As desigualdades de rendas são um elemento determinante para a retomada econômica. É também o problema que vai estar no centro das eleições americanas de 2014 [para o Senado e a Câmara dos Deputados, ndlr]”.

Para ela “a visão do Papa sobre ‘a economia da exclusão e das desigualdades’ vai decepcionar aqueles que se consideram capitalistas liberais, mas que fariam bem em ouvir sua mensagem. (...) É hora de evoluir na nossa abordagem sobre o capitalismo. Não se trata de se livrar do capitalismo, ou de cair na ojeriza ao dinheiro ou ao lucro; trata-se de buscar o lucro de uma maneira ética e de rejeitar o predicado segundo o qual a exploração está no centro do lucro”.

Pascal-Emmanuel Gobry, empresário e católico francês que comenta regularmente a conjuntura econômica, vai na mesma direção. Ele, que se descreve como um católico liberal (“pro free-market”), avalia, ao final de uma reflexão sobre a posição da Igreja e dos católicos sobre a crise financeira, que “há (na Igreja) lugar para o discernimento e o debate. Mas penso que, como católicos, somos convocados a levar a mensagem do Papa a sério, humildemente, a nos deixar questionar e a integrar essa mensagem na nossa maneira de pensar, sob a conduta do Espírito Santo”.

Resta saber que outra forma de capitalismo ou qual outro modelo econômico inventar.

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