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10 Julho 2013

O cálice de madeira usado durante a missa – com o grande prego através da base, memória da Paixão de Cristo – é o símbolo visível da revolução do pontificado de Francisco.

A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 09-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Não sabemos como vai acabar, se o pontífice argentino vai se manter de pé diante das oposições (por enquanto) subterrâneas. Mas a Igreja, como ele a entende, da forma como ele a faz entrever em Lampedusa e como ele espera remodelá-la, é assim. Sóbria, "pobre e para os pobres", uma Igreja para todos e não apenas para o rebanho dos fiéis, estendida para os desventurados, muito concreta ao mostrar ao mundo o que está errado e em apontar as responsabilidades dos maiores poderes político-financeiros que preferem se entrincheirar no anonimato.

Lampedusa, para Bergoglio, não é uma photo-opportunity [oportunidade para foto], nem o palco para um exercício de retórica compassiva. Lampedusa é a figura programática de um pontificado nascido da urgente necessidade para o catolicismo de uma reviravolta não mais ser adiável depois do beco sem saída ao qual ele tinha sido levado pela velha configuração do Papa Ratzinger.

A Igreja do terceiro milênio deve ser essencial, e "dá nojo" aquele clero que não se mostra coerente com a sua missão. Dá nojo. Expressão tão forte, dirigida por Francisco aos seminaristas reunidos no Vaticano, antes de partir para Lampedusa, que o jornal Avvenire, dos bispos italianos, não teve a coragem de publicar.

A Igreja do terceiro milênio, tornando ainda mais incisiva a sua doutrina social, desenvolvida ao longo dos últimos 100 anos, torna "visíveis os invisíveis", para citar as palavras da prefeita Giusi Nicolini. Ela recorda os mortos que tantos se apressam a arquivar. Ela chama todas as pessoas à corresponsabilidade, marcando a "globalização da indiferença" e ao mesmo tempo exigindo que se aja para "mudar concretamente certas atitudes".

É também uma Igreja – diga-se a propósito, estreitando o olhar sobre a Itália – em que o Vaticano não se calaria mais por amor a pactos em nome de "princípios inegociáveis", quando o ministro de um partido xenófobo de governo (como fez Calderoni em 2009) ataca o responsável do Pontifício Conselho para os Migrantes, o então monsenhor e hoje cardeal Vegliò, porque se permitiu expressar a dor pelos mortos do canal da Sicília.

A Igreja, pela qual o Papa Francisco se consome, não se perde em "cerebralismos" na fé (dos quais está repleta a última encíclica, enviada para ser impressa e enterrá-la), mas, a partir da fé, pede contas aos crentes e a todas as pessoas sobre como exercem a sua responsabilidade: o que fazem concretamente contra as "novas escravidões", contra as múltiplas formas de "exploração", contra os traficantes de carne humana, contra aqueles para quem a "pobreza dos outros é fonte de ganho". Note-se como o léxico tão cheio de frescor e cru do pontífice chega logo à compreensão de todos aqueles que, no norte e no sul do mundo, são esmagados pela crise. Tu choras? Tu és sensível ao teu bem-estar ou mesmo ao destino dos outros? Tu ainda tens a capacidade de sofrer "com" os outros? É isso que Francisco pergunta: para si mesmo e para todos.

E para ser claro, Francisco também pede contas "daqueles que com as suas decisões em nível mundial criaram situações que levam a esses dramas", até a morte de milhões em várias partes do planeta. Palavras claras, que despedaçam muito silêncios hipócritos.

Nada de ministros, nada de cardeais, nada de tapetes vermelhos em Lampedusa. Nem mesmo cerimoniários pontifícios para auxiliar o papa durante a celebração, bastam os coroinhas para lhe segurar o microfone. Parecem detalhes, mas são antiguidades que vão aos pedaços. Um cerimoniário para segurar o microfone... (sem falar que o Mons. Scarano, cerimoniário de tráficos milionários fronteiriços, ainda ostenta o título altissonante de "Capelão de Sua Santidade").

A Igreja do terceiro milênio, vislumbrada pelo Papa Bergoglio, se livra do aparato imperial, semidivino, do passado. É uma Igreja pronta também para mudar a sua organização, para se desfazer de "estruturas caducas", para se deixar renovar pelo Espírito Santo: foi o que o pontífice afirmou antes de partir de Roma.

Assim, Lampedusa não é um exploit solitário, mas se torna o sinal de marcha para a Igreja renovada pela qual trabalham Bergoglio e aqueles que, na hierarquia, estavam espasmodicamente esperando um pontífice como ele.

Nesse caminho, ressalta-se também o enorme respeito pelos outros crentes. Francisco levantou a mão com mais frequência para saudar do que para abençoar e – com grande delicadeza, unida a uma profunda sensibilidade teológica – desejou pessoalmente nessa segunda-feira aos refugiados muçulmanos, envolvidos no Ramadã, que o seu jejum religioso traga "abundantes frutos espirituais". Jejuar em nome de Alá é digno de encorajamento, palavra do papa.

Há dois anos, Berlusconi desembarcou em Lampedusa. Prometeu o Prêmio Nobel da Paz, cassino, campo de golfe, moratória fiscal, "zona franca". Desse charlatão, o Vaticano ratzingeriano era aliado. Quem garante é o secretário de Estado, o cardeal Bertone, que discutia com o Cavaliere até mesmo como "deter a esquerda em Milão". Agora, não mais.

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