Ramadã: trinta dias de agradecimento ao Criador. Entrevista especial com Ahmad Ali

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09 Julho 2013

“Esperamos que esse Ramadã de 2013 traga a felicidade para todos os povos, sem discriminação”, diz o diretor fundador do Centro Cultural Islâmico do Rio Grande do Sul.

Foto de www.guiaemdubai.com

Confira a entrevista.

Um mês de orações, jejum e prática da caridade em agradecimento ao Criador. É assim que os muçulmanos iniciam a partir de hoje o Ramadã, o nono mês do calendário islâmico. Adotado por mais de um bilhão e 700 muçulmanos, o Ramadã “é o mês em que se inicia a divulgação da mensagem divina de Deus, Alá, ao profeta Mohammad (Maomé)”, diz Ahmad Ali à IHU On-Line em entrevista concedida por telefone.

Segundo ele, “durante esses trinta dias, o mais importante é orar a Deus, quer dizer, manter uma espiritualidade integral”. Ahmad Ali, palestino naturalizado brasileiro, enfatiza que durante o ano o “ser humano vive para comer, beber, fazer sexo, jogar e pensar no bem-estar da humanidade. Durante o Ramadã, das 5h30 às 19h, essas atividades ficam suspensas. (...). Estes trinta dias têm como propósito ser um descanso para os muçulmanos, um momento em que voltamos nossa espiritualidade para um único lugar: Alá, Deus. É um período para rezar e pensar no mais importante: o bem-estar da humanidade”.

Na entrevista a seguir, Ali também comenta o gesto do papa Francisco, ao saudar os imigrantes muçulmanos na manhã de ontem, na cidade de Lampedusa, no sul da Itália. “A Igreja Católica (...) foi a primeira a adotar e a aceitar o diálogo com o islamismo. O pontífice está de parabéns. O seu pedido deve ser atendido, porque quem faz a oração e adere ao jejum não precisa fazê-los por causa dos muçulmanos, mas por causa da humanidade”.

Com formação em Ciências Jurídicas, Ahmad Ali é fundador da Mesquita de Porto Alegre e da Sociedade Islâmica de Porto Alegre. Também é diretor fundador do Centro Cultural Islâmico do Rio Grande do Sul. Militante da causa palestina desde 1948, sua atuação abrange outras áreas. Foi idealizador e fundador do Grupo de Diálogo Inter-Religioso de Porto Alegre, fundado em 1996, um dos pioneiros no mundo. Além disso, é um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul e ministra cursos e palestras sobre o islamismo e o povo palestino em diversas universidades gaúchas.

Confira a entrevista.

Foto de www.adindustrial.com.br

IHU On-Line – O que é o Ramadã?

Ahmad Ali – O Ramadã, adotado por um bilhão e 700 milhões de muçulmanos, é o mês em que se inicia a divulgação da mensagem divina de Deus, Alá, ao profeta Mohammad (Maomé). Por isso, o Ramadã é um dos cinco pilares do Islã. O mês do Ramadã repercute entre todos os muçulmanos, os quais acreditam que durante esse período é preciso conservar um jejum de trinta dias em agradecimento a Alá por causa da sua mensagem de construção de um mundo melhor, de um mundo para todos.

IHU On-Line – Pode explicar como os muçulmanos vivenciam os trinta dias do Ramadã? Que ações são realizadas e qual é o significado do jejum, da oração e da caridade durante esse período?

Ahmad Ali – Durante esses trinta dias, o mais importante é orar a Deus, quer dizer, manter uma espiritualidade integral. Diariamente, a partir das 5h30 da manhã até às 19h, o ser humano vive para comer, beber, fazer sexo, jogar e pensar no bem-estar da humanidade. Durante o Ramadã, nesse horário, essas atividades ficam suspensas. Depois das 19h, cada um pode fazer o que quiser. Esses trinta dias têm como propósito ser um descanso para os muçulmanos, um momento em que voltamos nossa espiritualidade para um único lugar: Alá, Deus. É um período para rezar e pensar no mais importante: o bem-estar da humanidade, se abster de pensar na maldade, no terrorismo, em qualquer ato de sabotagem ou ataque a outras religiões. Essas são as recomendações do Alcorão Sagrado. Esperamos que esse Ramadã de 2013 traga a felicidade para todos os povos, sem discriminação.

IHU On-Line – E como a questão da caridade é abordada no Ramadã?

Ahmad Ali – Quando um homem não tem condições de realizar seu jejum por motivos de deficiência de saúde física, então um homem saudável tem a obrigação de contribuir para alimentar o necessitado durante aqueles dias em que ele não pode jejuar. Além disso, a caridade também se manifesta na contribuição de 2,5% da sua renda, que é distribuída de forma organizada por organizações religiosas confiáveis para todos aqueles que passam fome, miséria e necessidade.

IHU On-Line – Por que os islâmicos usam o calendário lunar?

Ahmad Ali – O cristianismo e o mundo seguem o calendário romano. O calendário lunar, diferente do romano, muda de acordo com as fases da lua. Por exemplo, o Ramadã, que se inicia hoje (09-07-2013), no próximo ano irá começar dez dias antes. Seguimos o calendário lunar porque acreditamos que ele é anterior ao romano, e porque ele é o calendário da natureza do ser humano, da natureza da terra.

IHU On-Line – Como o Ramadã dialoga com a contemporaneidade? Essa ainda é uma celebração tradicional entre os muçulmanos?

Ahmad Ali – Essa tradição se mantém entre os muçulmanos crentes que acreditam nas suas tradições, costumes e culturas. Eles respeitam integralmente os trinta dias do Ramadã em agradecimento ao criador da humanidade, Alá.

IHU On-Line – Quais são os cinco pilares do mundo islâmico?

Ahmad Ali – O primeiro e o mais importante pilar é o Shahada, ou seja, acreditar em um único Deus e que Mohammad é o seu profeta. O segundo pilar é o Zakat, uma contribuição de 2,5% da riqueza produzida por cada membro da religião islâmica em benefício daqueles que precisam de ajuda para sobreviver. Outro pilar trata justamente de observar as obrigações do Ramadã, o qual chamamos de Siyam. O quarto pilar é o Haj, ou seja, uma vez na vida cada muçulmano deve fazer uma visita a Meca, porque ela é, para o mundo islâmico, o berço de todas as demais religiões: judaísmo, cristianismo. Os muçulmanos visitam Meca porque ela foi construída antes de todos os islãs por Abraão, pai de todas as religiões monoteístas. O quinto pilar é o Salah, a oração obrigatória para cada muçulmano que acredita em Deus e Alá. Todo muçulmano deve fazer cinco orações diárias: pela manhã, ao meio dia, ao entardecer, ao pôr do sol, e ao anoitecer. É importante destacar que o Islã é a religião da paz, da fraternidade, do bem para todos, sem observância da cor da pela, da etnia ou de religião.

IHU On-Line – Como o senhor avalia o diálogo inter-religioso entre o islamismo e as demais religiões?

Ahmad Ali – O diálogo inter-religioso está implantado em todos os continentes, e ajuda a pacificar os conflitos inter-religiosos. Estamos no terceiro milênio e a humanidade e as próprias religiões ainda estão envolvidas em conflitos, por causa da crença e da religião. Mas temos de entender que a verdadeira religião brota dentro do ser humano, de dentro para fora e não de fora para dentro, e isso é o mais importante para todas as crenças religiosas.

Em Porto Alegre, desde 1994, criamos um grupo de diálogo inter-religioso que é pioneiro no mundo. Mensalmente nós nos encontramos, almoçamos juntos e discutimos o futuro de nossas religiões, das nossas comunidades, das nossas culturas, das nossas tradições. Este grupo de diálogo inter-religioso acredita no avanço da tecnologia, no avanço da ciência. Hoje temos 11 religiões e filosofias unidas para reestabelecer a comunicação, o diálogo e o entendimento entre todas as nossas crenças, porque a religião tem a obrigação de não agredir outras crenças, e buscar encaminhar, dialogar, pacificar para a construção de um mundo, um mundo para todos, um mundo sem observância ou conflito inter-religioso.

IHU On-Line – Ontem, em visita à cidade de Lampedusa, no sul da Itália, o papa Francisco (1) saudou os muçulmanos pelo Ramadã e jesuítas italianos (2) sugeriram que todos os religiosos participem desse mês de orações e jejum. Como vê esses gestos?

Ahmad Ali – A Igreja Católica, não é de hoje, foi a primeira a adotar e a aceitar o diálogo com o islamismo. O papa Francisco está de parabéns. O seu pedido deve ser atendido, porque quem faz a oração e adere ao jejum não precisa fazê-los por causa dos muçulmanos, mas por causa da humanidade. O pontífice é um indivíduo de caridade, de fraternidade, de conhecimento que está à frente da Igreja para construir um diálogo inter-religioso entre todas as camadas da população, entre todas as crenças e filosofias.

IHU On-Line – Qual é a situação da comunidade islâmica no Brasil?

Ahmad Ali – A comunidade islâmica vive de forma tranquila, satisfatória, e busca, antes de tudo, o bem-estar da sua comunidade e da humanidade toda para a construção desse diálogo entre todas as religiões. O Brasil e a América Latina estão de parabéns, pois respeitam os muçulmanos conforme eles são. Espero também que os muçulmanos respeitem esses países e busquem a segurança e a integridade de todas as camadas da população, sem que qualquer ato seja provocado contra “x” ou “y”.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?

Ahmad Ali – Desejo que todos os muçulmanos do Brasil possam desenvolver sua espiritualidade, suas orações e voltarem-se diretamente a Deus nesse mês de Ramadã, buscando orientação como verdadeiros muçulmanos, que acreditam no bem-estar da humanidade.

Notas:

1.- Ontem, na visita a Lampedusa (veja a ampla cobertura publicada pelas Notícias do Dia do sítio do IHU) o Papa Francisco saudou especialmente os imigrantes muçulmanos dizendo: "Uma saudação aos caros imigrantes muçulmanos que, na noite de hoje, iniciam o jejum de Ramadã. A Igreja está próxima de vocês. A vocês, o scià. Essa é a saudação afetuosa no dialeto de Lampedusa e que significa o meu sopro, o meu respiro. Ou seja, algo como "um cheiro" usado em algumas regiões do Nordeste".

2.- A revista Popoli, editada pelos jesuítas italianos, propõe, juntamente com a Comunidade Santo Egídio, que no domingo, dia 14 de julho, os católicos se unam ao jejum dos fiéis muçulmanos. Em Milão, os católicos em jejum reunir-se-ão na Igreja São Bernardino. Os muçulmanos residentes em Milão, num salão adjacente. No final do dia, todos consomem juntos o Iftar, o alimento da noite que interrompe o jejum cotidiano dos muçulmanos durante o mês do Ramadã. O Iftar é consumido depois de terem recitado o Maghrib. Segundo a revista Popoli, "a ideia é viver este jejum com um pensamento particular na dramática situação da Síria e, mais em geral, numa atitude de oração pelo diálogo islã-cristianismo e pela reconciliação no interior do mundo muçulmano perpassado por fortes tensões".

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