Educação pela lama: ambientalismo em tempos de polarização

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01 Dezembro 2015

"Assim como empresas e governos preferem enfiar a cabeça na areia, também muito do ambientalismo, ao manter em seu discurso o brutal descompasso entre o gigantismo do diagnóstico e o nanismo dos remédios, colabora para que todos o façam", escreve Rodrigo Nunes, professor de filosofia moderna e contemporânea na PUC-Rio, é autor de "Organisation of the Organisationless" (Mute) e editou dossiê sobre as manifestações de 2013 para a revista "Les Temps Modernes", em artigo publicado por Folha de S. Paulo 29-11-2015.

Eis o artigo. 

O ambientalismo que surgiu nos anos 1960 e se modificou com o fim da Guerra Fria precisa se reinventar e superar polarizações políticas que fazem questões desaparecer e paralisam o debate. Para enfrentar ameaças de grandes empresas é preciso alianças entre comunidades afetadas, movimentos sociais e indivíduos.

Passado o choque das cenas de terror do último dia 13, muitos dos grupos que se preparavam para convergir em Paris nas próximas semanas a fim de pressionar os governos reunidos no encontro da ONU sobre mudanças climáticas devem ter pensado que os maiores interessados em que tudo continue como está tinham saído indiretamente vitoriosos dos atentados.

Afinal, toda polarização entre um "nós" e um "eles" tem o efeito colateral, deliberadamente manejado por quem dele se beneficia, de fazer certas questões e sujeitos desaparecerem do debate público.

A guerra ao terror, roteiro escrito colaborativamente por líderes ocidentais e organizações como Al Qaeda e Daesh [EI], tem sido há mais de uma década a mais conveniente dessas grandes narrativas dicotômicas, limitando o espaço para a crítica de um sistema global que segue avançando inercialmente apesar de tropeçar em cada vez mais crises (financeira, geopolítica, ambiental, de representação, refugiados, reprodução social...).

Em nosso contexto local, como se viu desde junho de 2013, é a guerra supostamente santa entre PT e oposição que cumpre esse papel: polarização cada vez mais fictícia em cujos limites estreitos tenta-se forçar toda novidade, ela serve para ocultar a autorreferência crescente do sistema político e sua captura por interesses corporativos, bem como a crise de representação decorrente daí.

Assim como toda grande polarização oculta, a visibilidade de novos problemas pode ser tomada como sinal de sua perda de força. É significativo que os sinais de uma reação a meses de uma ofensiva conservadora patrocinada ora pelo governo, ora pela oposição, têm aparecido em torno de questões que não se deixam reduzir facilmente a esse leito de Procusto.

Embora não deixem de identificar vilões claros, a luta das mulheres pelo direito a seus corpos, a ocupação das escolas em São Paulo e as manifestações contra a Vale que se seguiram ao maior crime ambiental da história do país não apontam para nenhum herói entre a classe política –sinal claro de que sabem dever contar sobretudo com elas mesmas, e que é cada vez mais difícil perceber diferenças entre os diversos partidos.

Lama

A tragédia que escorreu de Mariana até o litoral do sudeste brasileiro é exemplar. Sua lama nivelou políticos, partidos, órgãos de Estado e de imprensa, organizações e indivíduos com laços de financiamento com a Vale e a indústria da mineração, expondo mais uma vez o segredo de polichinelo de que empresas não fazem doações, mas investimentos, e nada compra respeitabilidade junto ao poder público e à sociedade civil melhor que o próprio dinheiro.

Desta vez, a tentativa de reincorporar a questão à falsa polarização consistiu em trazer à baila o tema da privatização da Vale, como se ser estatal subtraísse uma empresa ao imperativo de tratar o meio ambiente ao mesmo tempo como "externalidade positiva" e repositório de "externalidades negativas", mas sobretudo como se o fortalecimento do setor mineiro (com o que isso implica em flexibilização legislativa e leniência fiscalizatória) não fosse uma aposta fundamental do modelo econômico da última década.

Talvez a própria pujança das imagens do desastre tenha contribuído para consignar essa manobra a seu devido lugar. Mas a tragédia e a reação incipiente que se tem observado –dos protestos em frente a sedes da empresa até o corte das linhas ferroviárias da Vale pelo povo krenak– também têm algo a dizer sobre os limites do ambientalismo. Ou antes, das práticas e do discurso que, no imaginário midiático e da maioria das pessoas, se costuma associar a esse nome.

Aquilo que hoje entendemos por ambientalismo começa a tomar forma na virada dos anos 1960 para os anos 70, no contexto da contracultura e da bifurcação na linha evolutiva da esquerda mundial que foi 1968. Ou seja, de saída, a preocupação ambiental e a política que dela segue se situam diagonalmente em relação à grande bipolarização da Guerra Fria, em que ambos os lados se igualavam em sua fé no crescimento material infinito. Como muito da nova política surgida no período, o ambientalismo contestava ao mesmo tempo os efeitos do livre jogo dos interesses capitalistas (da alienação à destruição do meio ambiente) e o estadocentrismo tecnocrático da maior parte da esquerda.

O desaparecimento de um dos polos da dicotomia na qual o ambientalismo surgia como "tertium non datur" teria, contudo, um efeito determinante para seu desenvolvimento posterior. O descrédito e colapso do bloco soviético implicava, nas décadas de 80 e 90, o fim da perspectiva de um futuro não capitalista: como na famosa frase de Fredric Jameson, tornava-se mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo. Saía de cena a ideia de uma mudança sistêmica, substituída pela mitigação localizada de seus efeitos.

Não por menos, muito do que conhecemos como ambientalismo hoje está de algum modo integrado ao orçamento de responsabilidade social das indústrias ambientalmente agressivas, como petróleo, mineração e agronegócio. A perda de um horizonte mais amplo de transformação foi elaborada como oportunidade política em outras duas características fundamentais do ambientalismo mainstream.

A primeira era a transformação de uma crítica das grandes escalas (em economia tanto quanto em política) na ideia de ação local como participação de baixo custo, no mais das vezes mediada pelo mercado: todos podiam fazer algo pelo ambiente do conforto de seu lar, a partir de uma mudança de atitude individual –normalmente, de consumo.

A segunda era a promoção de uma política sem antagonismo: sai a demarcação schmittiana entre "nós" e "eles", proletariado e burguesia, e entra um tema que "diz respeito a todos", "afeta a todos da mesma maneira". Ao invés da solidariedade com alguns humanos contra outros, uma comunhão difusa com a humanidade e a natureza e, por vezes, mesmo com a natureza contra a humanidade, erroneamente compreendidas como termos mutuamente exclusivos.

Isso não deixou, no seu contexto, de ter certa eficácia; seus limites, no entanto, sempre foram bastante claros, e tanto mais agora. Dado que seu sujeito não era coletivo, mas individual (o que cada um pode fazer), não estranha a dificuldade do ambientalismo em desenvolver uma base social mobilizada. Tampouco estranha que o interesse de todos nós tenha tido relativamente pouca penetração entre aqueles que enfrentam necessidades materiais mais prementes, motivo pelo qual esse ambientalismo raramente chegou além dos limites da classe média.

Cada um

À medida em que aumenta a consciência do tamanho da crise ocasionada pelas mudanças climáticas, o eterno apelo àquilo que cada um pode fazer parece gerar uma dissonância cognitiva crescente. Como acreditar que pequenas medidas individuais possam servir de resposta a um desafio enormemente complexo de escala global? Como acreditar no súbito despertar da consciência do que é do interesse de todos, se há anos o conflito de interesses econômicos e políticos impede qualquer avanço significativo nas negociações do clima?

Essa dissonância cognitiva não pode deixar de ter um efeito desmobilizador. Assim como empresas e governos preferem enfiar a cabeça na areia, também muito do ambientalismo –seja por conta dos compromissos de alguns com seus financiadores e parceiros, seja pela incapacidade de outros de escapar à armadilha da identidade política que construíram para si–, ao manter em seu discurso o brutal descompasso entre o gigantismo do diagnóstico e o nanismo dos remédios, colabora para que todos o façam.

Como ficou claro de novo com o desastre da Vale/Samarco, no curto e médio prazos da lógica econômica, as questões ambientais não são do interesse de todos, mas jogam uns muito poucos que têm muito a lucrar contra muitos que têm muito a perder. O problema, como sempre, é que, se os poucos têm plena consciência de seus interesses e muitos recursos para jogar coletivamente, os muitos entram no jogo de maneira atomizada, insuficientemente informados sobre riscos que acabam por assumir em troca de emprego, renda, subsistência. (É nesse contexto que se deve compreender a adesão de moradores da região afetada a uma campanha que declarava: "Somos Todos Samarco".)

Diante da escala de um desastre como esse, ou de um problema como o aquecimento global, uma conclusão se impõe: a força dos interesses econômicos e políticos da mineração (e do petróleo, do agronegócio etc.) só poderá ser neutralizada por uma força proporcional na direção contrária.

Como demonstrou recentemente a vitória contra o gasoduto Keystone XL nos EUA, apenas grandes alianças entre comunidades afetadas, movimentos sociais, grupos de pressão e indivíduos, capazes de captar a atenção do debate público e de agir diretamente onde dói mais (no balanço das empresas), estão à altura do tipo de desafio que temos pela frente.

Para isso, será preciso que o ambientalismo (se é que esse será o nome que essa mutação assumirá) saiba se reinventar, abandonando aqueles dois pilares de sua identidade comentados acima.

O tempo dos antagonismos e da organização coletiva voltou. A oportunidade política para isso existe, não só pelo crescimento do debate em torno das mudanças climáticas mas precisamente porque a questão ambiental se situa para além da bipolarização que paralisou o debate nos últimos anos.

Para tanto, será necessário desfazer o nó discursivo que foi um dos grandes desserviços ao debate público prestados pelo PT: a ideia de que o único caminho para um país mais igualitário passe por fortalecer setores e tendências econômicas que produzem tragédias.

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